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julho 30, 2003

Mr. Death Strikes Again Ainda

Mr. Death Strikes Again
Ainda estou meio perdidão por causa de duas mortes recentes. Semana retrasada com a morte do Babá amigo do meu pai, e ontem com a morte do Ricardo. Caralho, o Ricardo morreu. Parece mentira. O cara era muito forte, jovem, bonito. Os convites pro seu casamento já estavam prontos, e todos felizes porque íamos viajar pra lá. E então assim do nada ele desliga. Que absurdo. O choque foi muito grande. Não é o que as pessoas esperam de um rapaz novo, cheio de saúde e forte. Como era querido, como estão arrasados. Meus tios e tias estavam indignados, não acreditando. Parece até que estamos tendo um sonho ruim, uma delas disse pra mim. Outra meio que culpou Deus por ter levado ele cedo demais. Outra meio que se confortou pelo fato de ter sido uma vontade de Deus. Enfim. Coisas assim desestabilizam tudo. E pra mim só faz lembrar o quanto esquecemos completamente da impermanência. Mesmo ela se manifestando incessantemente. Esquecendo-se dela, tudo fica ainda mais difícil de se lidar. Tudo ganha uma solidez extra. Então alguém pisa na possa d'água e a lua se desfaz. Ficamos perdidos, sem ação, procurando desculpas, sem ter pra onde ir. E dessa vez as distrações comuns do dia-dia demoram mais pra fazer efeito. Lembrar que não há culpados, apenas que não temos o controle sob quando algo vai desmoronar. Tentar relaxar nesse desconforto e ausência de chão pode causar pequenas mudanças que talvez nos ajudem. Não é fácil.

Enquanto a morte ainda não pegue alguém ultra próximo de mim, tenho energia pra ficar procurando algo de bom em meio disso tudo. Ainda mais por viver numa sociedade em que as coisas ruins são encobertas muito rapidamente e quase ninguém as encara direito. E percebi com o tempo que agir assim não traz nada além de uma vida pequena. Então notei que estando inserido nessa sociedade, é de extrema importância ir em velórios. Pra lembrar, apenas. Muita gente faz questão de não ir, não gosta, mas creio que seja algo que vai além do gostar ou não gostar. Se a armadura da indiferença ficar de lado, nesses momentos podemos ganhar muita dignidade em nossas vidas. Como se ficasse claro o que aceitar e o que rejeitar. De maneira muito clara e pura, sem a intervenção de um moralismo auto-protetor.

Fazia tempo que eu não ficava triste assim. Ao ponto de tudo perder o sentido, a graça. Ontem à noite liguei a tevê e nem o Rock Gol me fez rir. Só depois quando peguei o programa da Monique Evans dei umas pequenas risadas. Isso porque não pude viajar até Goiás, onde estava sendo o velório. Então não vi o desespero na minha frente, só fiquei sabendo de coisas pelo telefone. Fiquei aqui na cidade fazendo companhia pra minha avó e meu irmão. Jantamos aqui em casa e depois ficamos vendo novela com ela. Ela diz que não gosta muito de ficar sozinha. Ainda mais nessas horas.

A morte de uma pessoa querida é ao mesmo templo uma perda inexplicável e um presente magnífico. Nos faz lembrar que estamos aqui, vivos, nesse exato momento, respirando. E que é no agora que temos que viver e aproveitar tudo isso. Como se o respirar já fosse o bastante.

O Ricardo não era tão próximo como se fosse meu próprio irmão, morava longe, mas era extremamente querido e cresceu com a gente. É por não ser tão próximo assim que consegui arrancar força e boa vontade pra olhar isso tudo e pensar em algo que seja bom. Quando acontecer com um familiar próximo, talvez nenhuma força dessas surgirá em mim por algum bom tempo. Mas viver levando a idéia da morte no ombro pode ser de muito benefício. Pode nos salvar de uma vida imersa em depressão, loucura, etc; como estou vendo acontecer. E então lembrar da condição de cada ser humano e fazer algo por isso.

Impermance is a big thing.
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Posted by parada at julho 30, 2003 03:37 PM

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