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agosto 28, 2003

Lendas do Quindim Vitor pergunta:

Lendas do Quindim
Vitor pergunta:

Ô, Daniel, falaí. É verdade que quando o Paulo Francis morreu tu saiu na rua com uma mochila com todos teus livros dele, a comer quindins desconsoladamente?

Daniel responde:

Mais ou menos.

Quando São Paulo morreu eu achei que O Fim estava próximo, que a humanidade tinha caído (no sentido gnóstico) de uma vez por todas e etc. Enfim, eu fiquei triste pacas, porque ele me fazia rir de verdade e era uma pessoa formidável.

Alguns meses depois, nos quais me alimentei apenas de alimentos amarelos (quindins, a Hóstia de Satã, tinham mesmo precedência) e convicto de que realmente a morte do saudoso Franz Paul, entre outras coisas, era um indicativo escatológico do Fim dos Dias (mas sem Julgamento, perceba), decidi que ia passar algum tempo morando na rua. Talvez pra sempre.

Peguei uma mochila, coloquei alguns livros dentro ("aí eu vou trocando nos sebos", imaginei), comprei um cobertor cinza daquele de um real na Voluntários da Pátria e me toquei para o mundo do nomadismo urbano, no eixo Santana-João Pessoa. Com meu tradicional desprendimento [(c) Barbara Nickel] no vestuário, minha enorme barba, meu imenso cabelo todo cheio de nós, meus óculos de armação quebrada, minha cor alaranjada de tanto comer alimentos amarelos e, claro, meu tradicional apreço pelo Estado Almiscarado, não tive dificuldades em me juntar à patuléia acinzentada.

Meu plano era ficar na rua pra sempre. Fiquei cinco dias: quatro noites, três na rua e uma no albergue de mendicância. Aprendi que na rua você deve dormir de valete (de costas para as costas do sujeito mais confiável do bando) se não quiser o risco de perder a cerejinha do bodó. Descobri o gosto que tem o Sopão dos espíritas (ectoplasma com repolho). Achei fascinante que, ao contrário do que imaginava, o albergue não tem um fedor de tumba dinástica, porque todo mundo tem que tomar banho antes de ir pras camas (o que é motivo suficiente para que muita gente prefira dormir na rua mesmo quando está muito frio, porque, como também aprendi, sujeira esquenta). Conheci um mendigo de lenda urbana, poliglota, com quem conversei sobre "Giacomo Joyce" e aprendi que Kierkegaard era punheteiro. Fiz alguns amigos instantâneos que até hoje, sei lá como, me reconhecem e me cumprimentam quando me encontram na rua. Tive certeza que a vida dos caras nada tem de romântico.

E caralho, ainda morro de saudades do Paulo Francis.

E ah, Vitor. Essa história a que tu te refere aconteceu mesmo, é verdade, é verdade. Foi o prólogo, no dia-em-si da morte do Francis.

Eu tinha esquecido disso :)

Botei todos os livros dele dentro de uma mochila e fiquei horas e horas e horas e horas caminhando a esmo pela cidade, comendo quindins onde eles estavam à venda, lendo pedaços dos livros sentado em praças, sentindo o bafo quente do Apocalipse no cangote e, claro, chorando desbragadamente como uma leitoazinha vitoriana.
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Posted by parada at agosto 28, 2003 08:19 PM

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