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janeiro 15, 2004
Fragmentos do Dia (chamando o
Fragmentos do Dia (chamando o sono)
Hoje à tarde minha vó Maria ligou aqui em casa pra falar comigo. A Sirlene, que passa nossas roupas, toda vez saía correndo do quartinho pra atender o telefone. Tocou muito hoje. Falei pra ela que não precisava vir atender, já que eu tava em casa. Antendi e a dona Mariquinha avisou que tinha feito coalhada, que era pra eu ir lá comer. Falei que ia mais tarde lá sim.
Saí pra andar de bicicleta e fiz um percurso pesado, até relembrei os velhos tempos de trilha. Cheguei a suar, mesmo com o vento sempre assoprando forte. Tem bastante gente fazendo caminhada na avenida. Gente de todo tipo. Desde todos os níveis culturais e econômicos. Lá em cima da avenida vi um cara meio barrigudo forte correndo com chinelo de couro. Passei por ele e ele tava meio constrangido, naquele lance, err.. estou fazendo exercício. Sinais da nova cultura com relação à importância do exercício físico. Muito bom. Essencial para quem tem projeto de ser vô.
Cansei de pedalar e desci até minha vó. Pela janela do quarto aberta avistei ela deitada. Fui entrando e ela levantando pra ir sentar comigo na frente da tv, perto da cozinha. Deixou da tv desligada, assim como anda fazendo minha outra vó, que só liga pra ver algumas novelas. Tomei água e fiquei bufando pra descansar. Comer na situação que me encontrava não dava.
Tinha dois tipos de coalhada. A feita de iogurte e a de isca feito do pó. A de iogurte é um pouco babenta, mas muito firme e gostosa. Nenhum gosto azedo, pra mim sem nenhum problema. Mas a original é melhor. É mais forte. Tomei dois copos. Ela quis deitar denovo - por causa das dores nas costas - e sentei no chão na beira da cama com o copo de coalhada e o açucareiro.
Conversamos dos familiares e fizemos comparações com as coisas do passado. A impressão que tenho é que antes todo mundo era menos preguiçoso. Puxei o assunto sobre coisas do passado, da fazenda, coisas que sempre gosto de ouvir. Direcionei então o assunto pra comida, em especial derivados do leite, já que estava alí comendo coalhada. Ela me contou que a mãe dela fazia de tudo. Queijo, requeijão, coalhada, manteiga, o escambau. Uma coisa que eu sinto falta na indústria alimentícia é uma boa manteiga. Lembro como era bom o café da manhã quando dormia lá na minha vó. A manteiga amarelinha e macia, que não precisava guardar dentro da geladeira. Mas fiquei impressionado como faziam até requeijão na fazenda. Ela me explicou todo o processo, mas não entendi muito bem. E minha vó trabalhou horrores em tudo que se pode imaginar. Até matar porco. Que coragem. Ela sempre lista as coisas que fazia, com uma cara de cansada só de lembrar.
De repente o céu ficou com núvens negras e começou a ventar horrores. Vento de chuva. Me despedi correndo e pedalei na direção de casa, juntamente com outras pessoas que faziam o mesmo. Todas apressadas, com medo do toró que ensaiava cair. Descendo as ruas olhei para o céu e vi como a coisa tava preta. Tava muito carregado e achei muito bonito e absurdo, tudo aquilo no céu. Tive uma pequena gargalhada que fiz questão de não segurar e ri alto. Foi uma bela risada, meio liberadora. Eu lá, descendo pela rua de bicicleta, com aquele céu todo negro e ruidoso, e achando tudo incrível. Gargalhei com uma felicidade que me senti como se fosse o rei do mundo.
Cheguei em casa e fui jogar basquete com o Ivan. Com a redinha tá uma delícia só. Relembrando também os tempos antigos quando jogada até começar a madrugada. Era louco. O tempo tava fechado demais, núvem preta, e o meu irmão assustando quando dava relâmpagos. Quando ele ia fazer uma bandeja e dava o flash do relâmpago, ele parava no meio e fazia uma cara de assustado. O suficiente pra eu sacanear ele e ao mesmo tempo imaginar como eu iria cagar nas calças se um tremendo raio caísse no gramadão do terreno. Começava a imaginava o clarão, o barulho, etc, e depois esquecia porque era bobeira. E outro arremeço. Jogamos pacas. Vim pro computador mas ele pediu pra eu jantar com ele. Pedido impossível de se negar. Fui lá e fiz mixidinho com os restos do almoço. Comi na panela mesmo. Meu pai queria ajuda pra lavar a louça, pra não acumular demais pra Dona Nair amanhã de manhã. Dispensei o chefe e disse que ia lavar tudo, com o ajuda do Ivan. Que brinquei dizendo que nunca está desanimado pra essas coisas. Mas lavar louça dá muita dignidade. É preciso iniciar as pessoas nisso. Ainda mais nos tempos de hoje, onde a frescura come solta cada vez mais. Lavei o pesado e o Ivan enxaguou. Foi rapidão.
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Posted by parada at janeiro 15, 2004 01:37 AM
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