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junho 09, 2004
Hoje parado no ponto de
Hoje parado no ponto de ônibus um gurizinho roubou minha mente por alguns segundos que deixaram uma marca estranha. Ele não fez nada demais. Estava de joelhos na última cadeira do ônibus, estático, com a cabeça na altura da janela aberta. Por causa do semáforo ele parou bem na minha frente. Olhei pra ele, que olhou pra mim também. Era muito bonito e a cena o favorecia isso. Mantive o contato visual por um tempo além do normal e ele não se alterou. Como se ninguém estivesse olhando pra ele, sem nenhum bloqueio por causa disso. Apenas continuou me olhando com seus olhos atentos e calmos. Não se impressionando com nada, não perdendo o interesse por nada. Era extremamente fascinante. Para quebrar isso dei uma piscadela de amigão, que fez ele rir com o canto da boca. Suas expressões não pareciam as de uma criança, ao mesmo tempo não pareciam de um adulto, porque é raro adultos se expressarem com tamanha naturalidade. Era algo tão leve e original que só tinha visto parecido nos lamas, por mais esdrúxula que a comparação seja.
Pensei rápido e saquei a câmera, apontei e tirei duas fotos. Ficaram perfeitas. Melhor foto que tirei até hoje, pensei na hora. Guardei a máquina e não olhei de volta pra ele. Só olhei de novo quando o ônibus acelerou prestes a soltar a primeira. Fiz uma careta como despedida que ele adorou. Respondeu um sorriso nada infantil, tremendamente cordial, quase bondoso.
Quando meu ônibus chegou e sentei na última cadeira, uma sensação inexplicável de perda tomou conta de mim. Nada de desesperador - ainda não estou tão maluco assim -, mas era forte. Até pensei que tava pirando na batatinha. Aquilo não fazia sentido algum. Peguei a máquina pra rever as fotos. As duas tinham ficado ótimas. Fiquei feliz pacas. Mas continuava sendo muito estranho aquele sentimento de perda. Eu estava com saudade de um gurizinho que vi por alguns segundos ajoelhado na poltrona de um ônibus. E essa saudade aumentava com o passar do tempo. Que diabos era aquilo?
Isso só chegou a me perturbar mesmo quando já em casa conectei a câmera pra baixar as fotos e todas que havia tirado estavam lá, menos as duas dele. Fiquei apavorado procurando pelas fotos. Não era possível. Elas não estavam mais lá! Recebi uma mensagem de ICQ escrito "sonho". Agora não me sentia bem mesmo, além de triste por não ter as fotos. Tentei me desconcentrar daquilo terminando alguns trabalhos, sem sucesso. E com o passar das horas comecei a ver aquelas sensações não mais como perda, mas sim como o presente daquele garoto que dentro do ônibus olhou pra mim.
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Posted by parada at junho 9, 2004 12:00 AM
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