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maio 27, 2004

Sky Dancer Mas o que

Sky Dancer
Mas o que mais me marcou na tarde não foi exatamente o filme. Quando os letreiros começaram a subir e a sala ainda estava escura, ouvi alguém soluçar a uma distancia de duas poltronas de mim. As luzes se acenderam e eu não consegui evitar. Olhei tentando ser o mais discreto possível. Não consegui. Uma senhora, do tipo que podia ser minha mãe, se minha mãe ainda estivesse viva, e se ela costumasse ir aos cinemas à tarde sozinha, e se ela tivesse tido a sorte de poder apreciar filmes sobre vidas de poetas. Uma senhora absurdamente linda em sua velhice serena. Ela estava soluçando e enxugando as lágrimas e me viu tentando olhar discretamente. E sorriu pra mim, de um jeito plácido que me desarmou totalmente. Ela não estava tentando disfarçar o choro, não se sentia envergonhada por estar chorando emocionada, mas me pareceu que ela tentava escapar do flagrante como se não gostasse de ser surpreendida e então se defendia sorrindo placidamente. Como se senhoras como ela não pudessem se emocionar com a rica história de uma das maiores poetas do século XX. Sorri de volta constrangido por ter de alguma forma perturbado sua emoção sincera. Me levantei mortalmente constrangido e tentei sair do cinema o mais rápido possível. Quando cheguei lá embaixo, não consegui ir embora. Parei numa cafeteria, pedi um capucino e fiquei esperando. Eu precisava vê-la mais uma vez. E ela passou, protegida dos olhares intrusos. E eu a vi indo embora, plena, com uma serenidade invejável. Tomei meu capucino e sorri sozinho me sentindo cúmplice da felicidade emocionante que testemunhei ao ver uma senhora que poderia ser minha mãe chorando sozinha no cinema em plena quarta-feira à tarde. --Mário Bortolotto
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Posted by parada at maio 27, 2004 01:46 AM

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