« Deportivo Cuenca e El Nacional lideram Clausura equatoriano | Capa | América segue liderando Clausura colombiano »

outubro 24, 2005

Quando o Brasil fez os russos tremerem

" 'Monsieur Guigue, gendarme nas horas vagas, ordena o começo da partida. Didi centra rápido para a direita: 15 segundos de jogo. Garrincha escora a bola com o peito do pé: 20 segundos. Kuznetzov parte sobre ele. Garrincha faz que vai para a esquerda, não vai, sai pela direita. Kuznetzov cai e fica sendo o primeiro João da Copa do Mundo: 25 segundos. Garrincha dá outro drible em Kuznetzov: 27 segundos. Mais outro: 30 segundos. Outro. Todo o estádio levanta-se. Kuznetzov está sentado, espantado: 32 segundos.

'Garrincha parte para a linha de fundo. Kuznetzov arremete outra vez, agora ajudado por Voinov e Krijveski: 34 segundos. Garrincha faz assim com a perna. Puxa a bola para cá, para lá e sai de novo pela direita. Os três russos estão esparramados pelo chão, Voinov com o assento empinado para o céu. O estádio estoura de riso: 38 segundos. Garrincha chuta violentamente, cruzado, sem ângulo. A bola explode no poste esquerdo da baliza de Yashin e sai pela linha de fundo: 40 segundos. A platéia delira. Garrincha volta para o meio do campo, sempre desengonçado. Agora é aplaudido.'

'A torcida fica de pé outra vez. Garrincha avança com a bola. João Kuznetzov cai novamente. Didi pede a bola: 45 segundos. Chuta de curva, com a parte de dentro do pé. A bola faz a volta ao lado de Igor Netto e cai nos pés de Pelé. Pelé dá a Vavá: 48 segundos. Vavá a Didi, a Garrincha, outra vez a Pelé, Pelé chuta, a bola bate no travessão e sobe: 55 segundos. O ritmo do time é aluciante. É a cadência de Garrincha. Iashin tem a camisa empapada de suor, como se já jogasse há várias horas. A avalanche continua. Segundo após segundo, Garrincha dizima os russos. A histeria domina o estádio. E a explosão vem com o gol de Vavá, exatamente aos três minutos.'

Foi assim que o repórter Ney Bianchi reproduziu em Manchete Esportiva aquele começo de jogo, como se tivesse um olho na bola e outro no cronômetro. Mas não estava longe da verdade. Outro jornalista, Gabriel Hannot, diria que aquele foram os maiores três minutos da história do futebol - e, com mais de setenta anos, ele fora testemunha ocular dessa história. A avalancha fora tão impressionante que, assim que se viu vazado, Iashin cumprimentou o primeiro brasileiro que lhe passou por perto - por acaso, Pelé."

Trecho do livro Estrela solitária - um brasileiro chamado Garrincha, de Ruy Castro. Companhia das Letras, 1995.


Talvez esse jogo contra a URSS possa ser considerado a pedra fundamental do futebol brasileiro, aquele momento em que o Brasil conseguiu usar a sua superioridade para ganhar em campo e espantar os fantasmas de outras copas. A seleção brasileira caiu no grupo mais difícil da competição, ao lado de Áustria, Inglaterra e URSS.

Feola não havia escalado Garrincha nos dois primeiros jogos, preferindo colocar Joel na ponta direita. Acontece que a Áustria jogava com mais jogadores no meio do campo e, obviamente, Garrincha não marcaria ninguém. O Brasil ganhou por 3 a 0, embora o jogo tenha sido extremamente difícil. Contra a Inglaterra (0 a 0), ele não foi escalado devido à presença de um lateral esquerdo carniceiro chamado Slater, conhecido por destroçar todos os seus adversários. Como não estava jogando, Garrincha queria até voltar para o Brasil.

Mas para a partida decisiva contra o "futebol científico" dos russos sua presença já estava certa há três dias. Antes do jogo começar, Feola disse a Didi: "a primeira bola é no Mané" e, virando-se para Garrincha: "descadera eles na primeira". E foram 90 minutos de horror russo, comparável apenas à folia de 1917.

Saudações,
Douglas Ceconello.

Publicado em outubro 24, 2005 1:16 PM

Comentários

Não vai falar nada sobre JuventudeXRegional de Porto-Alegre?

Publicado por: Roger em outubro 25, 2005 4:17 PM

No momento, não posso falar dos jogos aqui no Brasil. Estou ocupado compondo um réquiem para o futebol brasileiro, baseado na obra de Luiz Zveiter.

A intenção é colocar Edilson Pereira de Carvalho, Héber Roberto Lopes e Kia Jorabichian no coro. Armando Marques tocará o órgão. sjhddsg.

Mas é que fica difícil falar do campeonato com jogos todos os dias. Em breve, a cobertura volta ao normal.

Publicado por: Douglas Ceconello em outubro 26, 2005 1:42 PM

Espero ansioso!

Publicado por: Roger em outubro 27, 2005 11:13 AM

Faça um comentário





Comer uma bolacha?




Busca


Categorias

Arquivos