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MEGADÉTI EM PAULO OU SONHO TARDIO REALIZADO

Metal sem nenhuma concessão por 30 minutos sem parar sequer um tempo entre uma música e outra. Pout pourri de 5 faixas de diversos álbuns, creio que dos mais novos porque não conhecia nenhuma. Estava um pouco constrangido, sentado no camarote, e não conseguia me mexer muito. Bruno também dava a impressão de se conter. O som me pareceu bom, percebia todos os instrumentos com nitidez. O público reproduzia os acordes com a voz. O baixista apontava o braço do instrumento para cima, numa pose. Dave Mustaine balouçava a cabeleira constrangedoramente volumosa à lá Renata Sorrah. Deu um "good evening" só depois de destroçar tudo por mais de meia hora. Foi até a mesa de som e fez gestos ameaçadores para o técnico. Tocou uma música inteira olhando para a direção da mesa. No meio de uma faixa, deixou os outros tocando sozinhos e saiu do palco sem uma palavra. Os instrumentistas ainda se mantiveram tocando, meio desnorteados, para seguirem o mestre pouco depois. Mais alguns minutos, um sujeito chega ao microfone e explica que a banda voltará após alguns minutos "por prblemas técnicos". Os jovens entoam coros de revolta contra o
Credicard Hall.

(Fim da parte 1)

07/06/2008 14:13    | Comentários (8)


HAMLET, O REPÓRTER

Uma ausência tão longa só poderia ser quebrada por uma história que valesse a pena. E é exatamente isso que a história de Hamlet é: uma história que vale a quebra de um silêncio de mais de dois meses.

Conheci Hamlet em uma dessas pautas em frente ao Deic. Me chamou atenção que ele, um cara que já foi loiro e hoje é grisalho, chamava aos homens "canalha" e às colegas de "criança", toda vez no tom mais sério que se pode imaginar.

Hamlet naturalmente não se chama Hamlet. Este foi o nome que dei a ele, sequer lembra em absoluto o original. É para preservar a identidade deste repórter, que existe mesmo.

Existe tanto que o governador José Serra, o Nosferatu, conhece Hamlet pelo nome. Na terceira vez em que o repórter insistiu na pergunta o governador, virou-se irritado para Hamlet: "o que é, fala Hamlet" e respondeu direitinho a pergunta.

Repito, o governador de São Paulo sabia o nome do repórter.

Na verdade, acredito até que foi uma forma de intimidar, porque não duvidaria que o próprio governador saiba da maior excentricidade do Hamlet: ninguém, absolutamente ninguém, sabe onde ele mora.

Isso ele contou às gargalhadas enquanto esperávamos o governador em uma coletiva.

"Ligaram para o meu celular da redação. Eu não atendi, normal, estava fazendo outra coisa. O chefe de reportagem falou 'ah, é? vamos ver se não vai me atender.' E mandou um carro ir na minha casa me buscar."

"Os motoristas todos disseram 'mas a gente nunca pega o Hamlet em casa, ele sempre combina em um lugar perto, sempre num ponto diferente. Ninguém sabe onde ele mora.' O cara espumava, ficou três meses sem falar comigo e ainda me deixou 40 dias morando em Cuiabá."

O Hamlet. Cheguei a ficar orgulhoso quando vi ele se abaixar para ver o que eu estava falando pra uma assessora da presidência. Como todo diabo velho, não despreza nenhuma concorrência.

25/03/2008 22:58    | Comentários (3)


BRIZOLISMO EM CONGONHAS

O gaúcho é melhor em tudo e sabe disso. Ele só tem um problema: precisa que os outros reconheçam sua superioridade, ou pelo menos tenham consciência da inferioridade de não compartilhar do nascimento na mesma latitude.

E não é qualquer um dos patrícios que serve, não pense que o gaúcho se sensibiliza com o catarinense que toma chimarrão e torce pelo Inter ou o nordestino que reconhece na picanha mal passada uma alternativa mais saborosa à carne de sol.

Não. O gaúcho precisa que um paulista ou um carioca renda-se à sua superioridade moral e cultural de nascido na latitude boreal e incentive no bom sentido um separatismo. Por isso, sempre que tem oportunidade, desfralda a bandeira verde-amarela com a faixa vermelha e o brasão no meio, leva o chimarrão e a Zero Hora pra praia em Copacabana e, dependendo do calor do momento, canta a plenos pulmões o hino.

Foi o que aconteceu ontem, no protesto das famílias do acidente da TAM. Tudo ia muito bem, as pessoas aderiram ao protesto, gostaram, se identificaram com a causa. As crianças, risonhas, repetiam o mantra “JUS-TI-ÇA”, “VER-DA-DE”, repetido incansavelmente num coro de arrepiar. O balcão fechou e quem estava no check-in chorou em solidariedade às 199 almas que há 6 meses tinham se evaporado nas chamas do acidente.

Foi então que alguém puxou o “COMO A AURORAAAAA, PRECURSOOOORAAAAAA”. E a dor imediatamente se tornou pastiche, o protesto empastelou. Já não era mais um protesto de relevância nacional, era o Rio Grande em choque pedindo explicações ao resto da gentalha que mora no norte.

Um pouco da seriedade daquela manifestação de arrepiar se foi nas primeiras estrofes do hino riograndense. E o pior é o repórter ter que confessar que cantou junto.

21/01/2008 19:29    | Comentários (9)


METRÓPOLE GOSTOSA

Faz exatos sete anos que vim pela primeira vez passar uns dias em São Paulo. Tive na ocasião uma boa e falsa experiência. Quem visita a cidade nestes feriadões prolongados não consegue acreditar nos relatos funéreos de ar irrespirável, fluxo estagnado de veículos e restaurantes botando gente pelas. Acha que é apenas mentira ou exagero de quem mora aqui. Acha São Paulo uma cidade GOSTOSA.

É nestes dias de ar puro que tu te dá conta da merda de vida que leva aqui. Depois de um dia inteiro sem fluxo exagerado de veículos na Marginal e um temporal para completar a limpeza tu consegue sentir o cheiro da grama num trajeto pelo qual tu passa todo dia. E tu te dá conta de que já acha normal aquele cheiro de diesel queimado com mijo e merda que tu cheira todo santo dia. Garanto que até meu material fecal daria positivo para óleo diesel. Respiramos, comemos e cagamos este ar empesteado.

Tenho a impressão de que a São Silvestre é realizada no dia 31 justamente por causa disso. Para não contaminar os atletas durante o trajeto. Nós que moramos aqui estamos condenados a viver neste lixo. E aquela mentira que nos contaram, que a vida aqui é mais estimulante e rica, não passa de uma falsa impressão de quem não conhece a METRÓPOLE GOSTOSA tanto quanto deveria. Ou não deveria.

31/12/2007 15:56    | Comentários (9)


BAH, É O INTER. TEM QUE IR. TEM QUE IR

Feito pra marmanjão chorar, o tal do filme do Gus.

Começa com uma clara declaração de que não resta dúvida que o Inter vinha de um passado recente medíocre, com a eliminação da Libertadores para o Olímpia em 1989 e mais de dez anos do mais puro ostracismo em competições de mais destaque.

Logo em seguida destaca a formação de um dos maiores plantéis já vistos no país e as duas campanhas de vice-campeonatos no Nacional. A gana de vencer e as lições dos injustos fracassos. A campanha magnífica na Libertadores que começava com o time desacreditado até pelos mais otimistas.

Depois a majestade do adversário na final de Yokohama. Edição magistral do Giba. Por fim, a redenção, o alívio, a justiça universal do triunfo daquela gente simples. De todos nós colorados, vira-latas entre vira-latas sulamericanos, vencendo o time de pedigree que o clube catalão tinha, 100% de jogadores das seleções de seus respectivos países.

A pré-estréia nacional pra convidados foi ontem, no Cine Bombril. Quase que não dá tempo de chegar, tão enroscado que anda o trânsito nesta cidade já bem enroscada. Estavam lá alguns amigos que não via há tempos e tantos outros desconhecidos que compartilham deste exílio, desta amarga distância do Beira-Rio.

Orgulhoso, o Gustavo Spolidoro (Gus, para quem o conheceu de superoitista) repetiu diversas vezes que era um filme de colorado para colorado. Só depois que fui entender: ele estava querendo dizer que não era um filme técnico. Engano dele: toda a técnica dos melhores documentários está lá.

Não sei que intimidade o Giba tem com futebol, mas estava claro que a edição primava por valorizar cada instante daquele jogo tático perfeito, da genialidade do acaso no momento em que o gol saiu. Tudo conspirou a favor depois de uma eternidade de azar que perseguiu o Colorado durante tantos anos.

Só senti falta de mais memória. Mais lances de jogos históricos. Seria bom alguma coisa de Falcão, que aliás não aparece nem é citado. Provavelmente questões burocráticas os dois casos, já que a RBS não participa da produção e está lá a rival Guaíba, já com o logo de Je$u$.

Mas, repito, foi o triunfo de gente simples. De Fernandão, semi-analfabeto mas um gênio motivacional, gritando no vestiário numa envocação aos brios dos companheiros. Do massagista, que aparece segurando o Ipod com a voz de Haroldão narrando o fim e o começo da glória, dos torcedores com suas manias e simpatias. De Gabiru, um animal tosco no aspecto que viveu o momento da vida de um atacante. De um guri anônimo com seu sotaque mais portoalegrense dizendo pra mãe: "bah, é o Inter. Tem que ir, tem que ir".

Eu tive que ir ao Cine Bombril ver o Inter ser campeão do mundo de novo. Estava sozinho na frente da TV naquele 17 de dezembro e vivi aquilo como uma boa mentira. Mas o triunfo dos vira-latas foi real e aquele meu time vagabundo que não ganhava nada foi capaz da maior glória já protagonizada por qualquer brasileiro.

Os adversários invejosos não têm o que dizer. O Inter foi o inacreditável que, sem qualquer argumento que contrarie, quebrou a gangorra pro outro lado até segunda ordem.

Um cinema inteiro foi arquibancada ontem em São Paulo. Torcemos para o telão em jogadas nas quais sabíamos de cor o que ia acontecer. E, no final, não tive como conter as lágrimas ao ver a minha tão conhecida Goethe flamejante.

Chorei muito também por não ter estado lá. Foi como viver uma emoção incompleta. Mas o VT do cinema me recuperou boa parte do momento. Foi lindo e foi um momento de destaque da minha vida. Aquilo que eu esperava desde criança e finalmente nasceu. O Inter maior do mundo.

12/12/2007 20:39    | Comentários (12)

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