por Marcelo Firpo

links
Czar
Nihil
Galera, o jovem
Galera, o velho
Martelo
M.O. Joe
Insanus
Bensi
Válvula
Medina
Não irei
Prop
Livros
Organá
R.I.P.

arquivos
novembro 2008
outubro 2008
setembro 2008
agosto 2008
julho 2008
junho 2008
maio 2008
abril 2008
março 2008
fevereiro 2008
janeiro 2008
dezembro 2007
novembro 2007
outubro 2007
setembro 2007
agosto 2007
julho 2007
junho 2007
maio 2007
abril 2007
março 2007
fevereiro 2007
janeiro 2007
dezembro 2006
novembro 2006
outubro 2006
setembro 2006
agosto 2006
julho 2006
junho 2006
maio 2006
abril 2006
março 2006
fevereiro 2006
janeiro 2006
dezembro 2005
novembro 2005
outubro 2005
setembro 2005
agosto 2005
julho 2005
junho 2005
maio 2005
abril 2005
março 2005

categorias





« Bientu | principal | A propósito da última encomenda que chegou lá em casa »

Bale, bale

Sim, houve uma vez uma viagem mais cansativa que esta. Foi em 1999, eu fui pra Grécia com a Alex, uma inglesa de Brighton muito gente boa que eu tinha conhecido dois anos antes, em Barcelona. Chegamos em Atenas e a temperatura beirava os quarenta graus, o mundo virado numa secura impressionante, nenhuma nuvem no céu ao longo de dias, dois litros de água só para subir até a Acrópole. Me lembro de ter derramado um pouco do conteúdo da garrafa sobre a minha cabeça e pescoço e alguns minutos depois estar seco. Isso foi Atenas. Depois, nas ilhas, foi piorando.

A Alex era meio dura e bastante orgulhosa, o que combinava com a minha própria mãodevaquice e masoquismo, de modo que me pareceu melhor me adaptar ao orçamento dela do que ficar pagando tudo. As ilhas eram bem mais caras e superlotadas do que Atenas.

O que aconteceu foi que nós fomos, de parada em parada, nos submetendo a condições piores e piores. Do hotelzinho com ar condicionado no quarto de Atenas (lembro bem da nossa catatonia após cada caminhada pela rua), passamos para um quarto e banheiro com ventilador em Santorini (acordar as três da manhã, tomar banho, não se secar, ir dormir na varanda pelado e não adiantar nada, nem um átomo de vento), depois para um dormitório coletivo em Naxos (uma horda de franceses adolescentes, entraram em choque com os locais, alguém levou uma porretada na cabeça, sangue), depois para um camping em Paros (dormir direto no chão da barraca alugada, o plástico literalmente drenando o suor para fora do corpo). O ponto mais baixo foi um camping que não tinha nem mesmo barracas pra alugar, nos ofereceram uma área em que as pessoas simplesmente colocavam uma esteira no chão e dormiam ao relento, parecia um campo de refugiados. Ali foi quando resolvemos terminar a experiência e voltar para o mesmo hotelzinho de Atenas. Lembro também da alimentação deficitária, da vegetação esturricada, do bordão da Alex (“This will strength our characters”) e da resposta de um campônio à pergunta – “Não chove nunca por aqui?” – feita por dois zumbis numa estrada de terra que mais parecia um braseiro: “Chove, sim. Janeiro.”

Posto isso, posso dizer que esta viagem também não foi bolinho. Acostumado que estava a viajar sozinho ou com companhias ainda mais estóicas que eu, desta vez fui com minha mulher – definitivamente, uma pessoa nada estóica – e o meu filho, de dois anos e meio, que ainda não consegue falar "estóico". Madri, Barcelona, Paris, dez dias.

Primeiro, o deslumbramento do Santiago em entrar num avião. Já tinha levado-o ao aeroporto umas duas vezes, e ele adora ver vôos acrobáticos no youtube. Mesmo que aparentemente não vá se lembrar de nada disso aos vinte anos, ter sido testemunha do brilho nos olhos dele quando decolamos já valeu a pena.

Dez minutos depois ele nos olha muito sério e diz: “Qué i pra casa.”

E isso foram basicamente os dez dias: deslumbramento, enfado e esforços para gerar um novo deslumbramento. Ou seja, como a vida.

Madri foi a primeira parada. Ficamos num hotel caro para os meus padrões, mas bem localizado. A bem da verdade, os meus padrões todos foram sendo nocauteados ao longo da viagem. Indo de táxi do aeroporto para o centro, pensava no absurdo que aquilo soaria para mim mesmo há alguns anos. Certa vez, em Montevideo, adolescente e não muito bem da cabeça, desculpem e redundância, arrastei uma mala por vinte quarteirões até a rodoviária, por achar que não valia a pena gastar num ônibus. Sou assim, em viagens: encaro cada adversidade como mais um joguinho, e até mesmo crio algumas, pelo entretenimento.

Das três cidades, a que eu conhecia menos era Madri, e até por isso foi a que mais me impressionou. A Espanha bomba, é uma das economias que mais crescem na Comunidade Européia hoje. Há um certo orgulho no ar, mas não empáfia, que casa muito bem com a dignidade intrínseca que os espanhóis e seus colonizados costumam apresentar, acho que o Bruno já comentou sobre isso num post sobre o Uruguai. E como gostam de crianças. Perdi a conta dos mimos que o Santiago ganhou por lá: porção de batatas fritas extra numa lanchonete; bola que vinha de brinde numa espécie de mclanche feliz do Pans&Company, mesmo sem ter pedido o combo; carrinho transformer num Burger King, balas etc etc etc.

Parêntese: viajar com criança tem pelo menos este lado massa: as pessoas se compadecem de ti. Tu entra com teu filho no colo numa loja, os dois molambentos que só, e as pessoas, em vez de acharem que tu tá lá para roubar alguma coisa, o que seria bem compreensível tu estando sozinho, te olham com carinho e benevolência, seguram a porta, fazem festinha para o bebê e por aí vai. Isso sem falar na incrível prerrogativa de furar todas as filas possíveis.

Mas voltando ao assunto: Madri = pessoas legais, muito dignas e que gostam de criança. O único caso que depõe contra esta análise estava sendo amplamente noticiado na mídia local, o de um cantor conhecido como o Capulo de Jerez, que, segundo consta, teria ameaçado botar fogo num bebê durante uma discussão com o seu pai. Já digredindo um pouquinho de novo, impressionante a presença do Brasil na mídia: eleições, avião da Gol e uma que outra matéria de interesse social, enfocando alguma ONG de favela. Parecia que os países eram vizinhos, tal a frequência com que o assunto Brasil era tratado.

Preços: tirando comida e hospedagem, tudo ligeiramente mais barato que o Brasil, às vezes nem tão ligeiramente assim. Chegava a dar um certo desconforto, ainda mais se levássemos em conta que, em geral, os produtos, mais baratos, eram de melhor qualidade. "Por isso é que essas mulheres daqui se vestem bem", dizia minha mulher, entre o transe e a indignação, num grande magazine madrilenho. Comprei umas camisetas por 3 euros, 9 reais mais ou menos, pra ficarmos num só exemplo.

O supermercado perto do nosso hotel tinha um aquário com lagostas vivas. Fascínio absoluto para o Santiago.

Alimentação: tirando uma sopa de pescado, praticamente só comemos lixo o tempo todo, os tais bocadillos. Pão, pão e mais pão. Santiago, meio aéreo com tantas mudanças, nunca tinha fome na hora em que nos sentávamos à mesa. A solução era andar sempre com sacos de batata frita ou doritos na mochila. Deve ter tido um ou dois dias em que ele só comeu isso.

Outra coisa de diferente em relação às minhas viagens anteriores: mergulhamos de cabeça na cultura do sightseeing. Nas três cidades pegamos ônibus de dois andares a preços abusivos para ficar dando voltas. Se estivesse sozinho, me sentiria meio trouxa, mas foi legal por a) dar uma idéia geral de cada lugar pra minha mulher, que não conhecia e b) dar um relativo descanso em relação ao Santiago, o relativo pelo fato de que ele sempre fazia questão de se deitar ao comprido no último banco e, quando era necessário sentar para acomodar mais pessoas, ele ficava urrando "SAI, TITIO!"

Compras Madri: camisetas, porque levei poucas e estava sempre imundo; "Consider the Lobster" do Foster Wallace em versão baratinha, um CD duplo do Yann Tiersen, que eu acho que não baixei, por oito euros e um casaco de veludo. Santiago ganhou dois kits com carrinhos de ferro tipo matchbox, um de bombeiros e outro de operários: perdeu metade pelo caminho.

Barcelona: ligeiramente mais sujinha que Madri, mas igualmente legal. Forçando na comparação, é Rio de Janeiro e São Paulo: uma cidade mais desarrumada mas que se arvora uma certa qualidade de vida e outra mais corporativa e cdf. Eles só não incendeiam ônibus por lá. Ficamos de novo num hotel central, felizmente perto de um bifê livre, o que nos deu a chance de largar os bocadillos por alguns dias. Visitei duas agências, ouvi dicas interessantes sobre o meu portfólio e concluí que, se um dia quiser trabalhar na Espanha, o negócio é mesmo em Madri.

Breve comentário sobre a TV: não apenas passa filmes mais interessantes como as próprias reportagens são mais aprofundadas. Os jornalistas não precisam se comunicar com a Bélgica e com Ruanda ao mesmo tempo, o que facilita bastante.

Imigrantes: achei que ia encontrar um sentimento xenófobo, mas isso não aconteceu na Espanha. Eles se preocupam mais com as gangs do leste europeu do que com os subsaarianos que chegam às praias diariamente. As matérias de TV mostram estes últimos sendo alimentados e apoiados por diversas instituições, para que a integração seja menos traumática. Pode ser exagero, mas percebi até um certo carinho na cobertura do assunto.

Garotas: se vestem bem, mesmo as que se vestem mal fazem isso com estilo. Cabelos com mullet e franjas tortas devem ser uma tendência da estação. As crespas assumem sua crespitude com paixão. Todas fumam muito.

Compras Barcelona: um CD de um compositor clássico que eu nunca tinho visto à venda antes, Marco Uccelini. Não entendo de música clássica, mas no começo dos anos 90 seguia como um groupie um conjunto que tocava música barroca e renascentista em Porto Alegre, o Musicantiga. Tinha um certo fascínio por uma das flautistas. O momento climático de cada apresentação era a Aria Sopra La Bergamasca, composta por este sujeito. Fiquei bem uns 15 anos com esta referência na cabeça até encontrá-la de novo. A música, não a flautista.

Paris. Viagem dramática, noite toda de trem, Santiago não querendo dormir, berrando, incomodando as pessoas das outras cabines. Hotel ne frente da Gare de l´Est, bairro africano. Em relação à cidade como um todo, vale o contrário da Espanha: sensação de abandono, pessoas irritadas, batendo boca entre si, imigrantes mal-integrados, pequenas contravenções visíveis, mal-humor universal. Tirando a parte turística, tudo meio esculhambado. Aqui eles ainda não incendeiam ônibus, mas já começaram com os carros.

Passei a viagem inteira pensando nas crianças judias e no Roberto Benigni. Sim, aquele sujeito que dirigiu e, se não falha a memória, também roteirizou "A Vida é Bela". Isso por que volta e meia o Santiago, do alto de seus dois anos e meio, se impacientava com alguma coisa do jeito que só os bebês e talvez os adolescentes borderline conseguem. Exemplo: avião parado na pista, depois da aterrisagem, serviço de bordo suspenso, pessoas esperando para sair. Santiago diz que quer água. Dizemos pra esperar um pouquinho. Santiago repete que quer água. Dizemos que ok, assim que sairmos do avião compraremos água, que é pra esperar só um pouquinho. Santiago começa a chorar e a gritar que quer água. E assim sucessivamente. Neste caso específico, resolvi a situação ao descobrir que o italiano da poltrona do lado tinha uma garrafa meio cheia nos seus pertences, que ele nos cedeu de bom grado. Se não tivesse cedido, acho que teria arrancado o seu nariz a dentadas. O fato é que bebês desconhecem conceitos como "daqui a pouco" ou mesmo "em um minuto". São urgentes. Fiquei pensando como deve ser estar com uma criança junto numa situação realmente limite, como durante um seqüestro ou em um campo de concentração. O que eu faria, como pai? Usaria toda a criatividade possível e tentaria, ao máximo, poupar a criança de toda a situação - sejamos sinceros, até para preservar o ícone de superpai. Mais ou menos como o personagem principal d´"A Vida é Bela" faz com o seu filho.

Ainda assim, Santiago amadureceu, diria quase embruteceu, bastante ao longo desta viagem. Teve uma noite em que, exaustos depois de cinco horas de trem entre Madri e Barcelona, víamos TV. O filme que passava era "Piratas do Caribe", que eu nunca tinha visto. No final, os piratas enfrentam uma horda de esqueletos, em cenas que incluem tiros, golpes de espada e decepamentos. Uma batalha, enfim. Numa situação normal, teríamos mudado de canal, pela presença do Santiago, mas naquela noite em especial, anestesiados pelo cansaço, ficamos vendo. Ao final, quando os esqueletos são vencidos, Santiago se vira pra mim e pergunta: "Papai, os bicho foi embora?". Respondo: "Foram, sim, filho, os bichos foram embora." Pausa. "Pra casinha deles?"

Ele também tira fotos, agora. Aliás, ele praticamente não deixava a gente tirar. Em uma caminhada por Barcelona ele ficou com a câmera no carrinho e deve ter tirado umas cinqüenta. Quando peguei para deletar, achei bem melhores que as nossas. Devo postar algumas na sequência.

Sou um pessoa empática ao ponto da patologia. No carnaval do Recife, a minha própria felicidade tinha que ser mediada pela tentativa de imaginar o deslumbramento de um turista estrangeiro ao ver tudo aquilo. Desta vez não foi diferente: o grande barato foi ver minha mulher se dar conta do que é uma cidade de verdade, pensada pra ser cidade e mantida com este objetivo. Almoçando com um amigo hoje ele lembrou uma frase que atribuiu ao Paulo Francis: "O Brasil não é um país, é um acampamento."

A volta. Foi terrível, preciso admitir. Graças ao colapso da Varig, não tínhamos muitas opções de conexões domésticas. Saímos de Paris às sete e quarenta da manhã, depois de acordar às cinco, num hotel ao lado do aeroporto de Orly. De Paris fomos pra Lisboa, onde trocamos de avião. Parêntese: que povo estranho são os portugueses. Que experiência abissal é ler uma revista de bordo portuguesa. Como eles são trágicos, e pessimistas, e às vezes realmente não fazem sentido. Não são só as diferenças da língua. É a estrutura dos raciocínios mesmo. Que fascínio pelo mundo cão. Na revista de cultura do Público, um jornal de lá, um dos artigos versava sobre os bilhetes que um jovem de 28 anos mandava para a irmã de 14, com quem tinha um relacionamento incestuoso. Versava, aqui, é uma figura de linguagem. Com detalhismo pornográfico, o artigo reproduzia linha por linha os tais bilhetes, apenas para no fim enunciar que o jovem, aparentemente já sob custódia da justiça, era um animal. Já tinha lido relatos de barbaridades semelhantes, com semelhante profundidade, em outros jornais portugueses. A impressão que dá é que eles precisam o tempo todo ficar avisando uns aos outros de que o mundo é um lugar tenebroso.

Mas estávamos na volta. Descemos em Salvador. Minha mulher, que sofre de hipocondria aguda E crônica precisou ser atendida pelo serviço médico. Baianos, as pessoas mais engraçadas do mundo. Deu vontade de morar lá só pra ficar ouvindo aquele sotaque, aquele carinho, aquela cordialidade embutida mesmo no pior dos insultos. O médico que atendeu minha mulher, grande pessoa, entendeu num átimo que ela só precisava ouvir alguém de branco dizer que estava tudo bem com a sua saúde. Mestre absoluto da Medicina.

De Salvador, fomos a São Paulo. Lá, tivemos que ficar esperando DUAS HORAS DENTRO DO AVIÃO. Meu odor se assemelhava ao de alguns europeus por quem passamos no metrô. Legal esse negócio da asa deles, significando aqui odor corporal, ser diferente da nossa. Achava que era por causa da alimentação, mas agora acho que é um conjunto de fatores que inclui também a água e a própria secura do ambiente. É outro tipo de fedor.

Falando em fedor, o grande filme estreando por lá no momento era "O Perfume". Lembro de ter gostado deste livro quando li, acho que vou voltar a ele antes do filme chegar aqui. Patrick Suskind, nunca mais se ouviu falar.

Depois de vinte e quatro horas voando e esperando por vôos, chegamos em casa. Fui dormir às duas da manhã, depois de folhear o 49ers do Alan Moore que chegou pelo correio. Não dormi no avião porque fiquei zelando o Santiago, tinha medo que ele caísse do banco. Geralmente durmo bem em aviões. Como estava dizendo, fui dormir às duas da manhã. Ás cinco, o Santiago, no fuso europeu, acordou, mas acordou MESMO, querendo brincar. Brinquei.

Passei o dia inteiro de ontem como um zumbi, no trabalho. Tinha a sensação de que o chão se mexia o tempo todo, como se estivesse num barco. No espelho do elevador da minha casa, ao meio-dia, alucinei um pouquinho, achando que a minha cara estava deformada. Talvez estivesse mesmo.

Na noite seguinte fui dormir às oito. O Santiago dormiu umas três horas antes disso, entre uma garfada e outra do lanche da tarde. Apesar de todo o desgaste, o melhor desta viagem foi ter passado longos períodos com ele e com a minha mulher, sem que a nossa convivência fosse interrompida pelos afazeres do dia-a-dia.

Ele segue no fuso errado, porque acordou às cinco e meia da manhã de novo.

Ficamos construindo com blocos de madeira até amanhecer de vez.

11/10/2006 08:33 | Comentários (18) | TrackBack (0)