Comentários sarcásticos, crítica vitriólica e jornalismo a golpes de martelo por Marcelo Träsel


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blogs informativos têm de ser assinados por jornalistas, diz sindicato

No dia 12 de agosto, o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, José Nunes, deu uma palestra na Unisinos sobre a questão do diploma. Segundo relatos, ele teria sugerido que a manutenção de blogs deveria ser exclusiva de jornalistas. Como bom jornalista formado que sou, enviei uma mensagem solicitando a posição oficial do Sindicato. Segue abaixo a resposta de José Nunes (grifos meus):

O fenômeno dos blogs trouxe à tona uma eterna discussão sobre a liberdade de expressão de cada um, e os limites da atividade jornalística. Sendo o blog, em essência, um texto pessoal sobre qualquer assunto, muitas vezes a própria vida de quem escreve, ele permanece circunscrito às liberdades individuais previstas em lei. Um blog jornalístico evidentemente precisa ser assinado por um jornalista, pois passa a ter um caráter de veículo, tal como um noticiário de rádio ou mídia impressa. Ou seja, muitos profissionais passaram a se utilizar dessa ferramenta até como forma de publicar as informações que apuram, e que no local de trabalho não são aproveitadas, ou não interessam. E há quem tenha sido alçado à fama repentina dentro da possibilidade tecnológica de gerir o próprio canal de comunicação - sendo que a imensa maioria dos blogs continua como diário pessoal, postagem de fotos, links para assuntos encontrados na própria web, distribuição de arquivos diversos, com visitação restrita ao círculo de amigos. Coincidentemente, os blogs de maior destaque, uma pequena parte da blogosfera, costumam trazer apuração jornalística, 'furando' a mídia tradicional com novidade ou provocações, ou são escritos por aficcionados em determinado assunto (cinema, música, quadrinhos, etc), naturalmente trazendo um volume de informação justamente pela afinidade do autor com o tema. Material jornalístico, regularmente assinado por jornalista, independente do meio em si, é a posição do Sindicato. Concluímos então que todo os jornalistas podem ser sim um blogueiro, mas nem todo blogueiro é um jornalista.

Se compreendi bem, portanto, conforme o Sindicato o portal Interney Blogs, que é um veículo de informação, deveria ter todo conteúdo produzido apenas por jornalistas. A Nova Corja deveria expulsar o colaborador Walter Valdevino, que é filósofo, não jornalista. Ou o Merigo teria de contratar um jornalista reponsável para continuar tocando sua revista eletrônica especializada em Publicidade, o Brainstorm #9. Num espírito mais condescendente, poderia imaginar que o Sindicato na verdade está se referindo aos blogs mantidos por não-jornalistas dentro de portais pertencentes a empresas jornalísticas, caso em que de fato existe uma zona cinzenta e espaço para discussão.

Considero a posição lamentável, por pretender colonizar um campo de atividade que, embora se assemelhe ao jornalismo, é diferente. Blogs podem ser informativos, mas não detém o mesmo status da imprensa. Blogs não pretendem ser a palavra final sobre um determinado assunto, mas apenas um grão de areia em uma discussão geral na Web -- o que não impede um blogueiro de, eventualmente, dar a palavra final sobre determinado fato. O público não forma uma opinião lendo apenas um texto em um blog, mas analisando vários textos disponíveis na blogosfera, participando de discussões nos espaços para comentários, acompanhando por longos períodos de tempo determinados autores, até confiarem que eles são honestos.

(OK, existe gente que acredita em tudo que lê na Internet, mas esses também não usam o senso crítico ao ler jornais e portanto estão perdidos para a democracia.)

Por outro lado, o próprio Sindicato admite que a informação produzida por alguns blogs excede em qualidade a produzida por jornalistas. Se algumas áreas estão desatendidas pela imprensa profissional a ponto de serem ocupadas por leigos em jornalismo, não seria por falta de interesse econômico? Nesse caso, a solução melhor não seria deixar que os próprios jornalistas tomem conta desses espaços usando sua qualificação profissional para oferecer ao público informação melhor, em vez de se propor uma reserva de mercado?

Finalmente e mais problemático: os pesquisadores da área estão tentando desde o surgimento dos blogs determinar a linha que divide o jornalismo da simples produção de informação. Até hoje, ninguém conseguiu fazer isso de maneira indiscutível, porque esse tipo de veículo costuma misturar formatos em graus que variam de blog para blog. No caso de se aplicar essa proposta, quem vai definir quais blogs tem caráter jornalístico, quais fazem jornalismo "às vezes" e quais não devem nada ao Sindicato?

A Internet foi arquitetada para evitar o controle centralizado, então qualquer legislação no sentido de cercear os blogs informativos será pouco mais que gasolina para começar flame wars com direito a muito Google bombing.

23 de setembro de 2008, 18:36 | Comentários (30)


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