Comentários sarcásticos, crítica vitriólica e jornalismo a golpes de martelo por Marcelo Träsel


jornalista irado

À moda do Angryjournalist.com, publico o desabafo de um amigo sobre a vida na imprensa:

Fora a espécie em extinção dos repórteres-especiais, caras que podem ficar um mês fazendo uma matéria sem se meter muito com o dia-a-dia, todos os outros que demonstram alguma competência são imediatamente promovidos a cargo de chefia e são afastados da produção de conteúdo. Sistematicamente, as pessoas que produzem bom conteúdo deixam de fazê-lo; sobem hierarquicamente, em cargo mais bem pagos e supostamente de mais responsabilidade. O pior é que seus colegas passam a ser pessoas que nunca produziram nada que preste, que estão naquela pelo jogo corporativo mesmo, se dariam tão bem numa empresa de comunicação ou numa fábrica de salame.

Por que a Eliane Brum ganhou o prêmio Jabuti com um livro compilando matérias da Zero Hora, apesar de estar há quase 10 anos na Época? Porque na Época ela tem que ficar fiscalizando besteiras como o Projeto Generosidade, uma idiotice vendida para meia dúzia de anunciantes que obriga todas as revistas da casa a fazer matérias sobre ONGs durante seis meses e premia com R$ 100.000 o melhor projeto assistencial. Por que o Laurentino Gomes aproveitou o sucesso do 1808 pra cair fora da Abril? Porque lá ele tinha que ficar imaginando projetos caça-níquel para iludir patrocinadores e criar maracutaias de empurrar assinaturas goela abaixo das donas de casa.

Ou o Fabio Massari, o cara que mais entendia de música na geração dele, pedindo demissão para não ter que apresentar game show patrocinado por celular. Aí tu pega uns caras tipo Guilherme Kalil, que nunca parou em redação nenhuma e teve 'Meu Nome Não é Johnny' adaptado pro cinema. O Xico Sá, que desde que 'ó meu deus, foi demitido da Folha' só aumentou o passe e a popularidade dele. Agora não ocorrem tantos nomes, mas fora o Caco Barcellos, os autores dos melhores livros-reportagem dos últimos 15 anos não estavam empregados. São 'writers' no sentido americano da palavra, status almejado por XXXXXX XXXXX e tantos outros. Some-se a isso o fato de que os colunistas, muitas vezes pára-quedistas (sem demérito, sou contra obrigatoriedade do diploma), tipo Contardo Calligaris e Diogo Mainardi, que fazem seus veículos venderem.

E aí tu chega à conclusão de que quem quiser escrever uma grande reportagem, fazer um documentário bala, tem que sair da redação. Deixa a redação pra quem quer aumentar tiragem, audiência, produtividade, eficiência, borderô, quer bolar novas estratégias para marca, criar novos produtos editoriais. A lógica, me parece, é que as empresas se especializem na embalagem, e os frilas no conteúdo. Mas cadê bolas pra testar a teoria?

Retirei um nome próprio que poderia permitir identificar o autor da mensagem, enviada a uma lista de discussão.

3 de maio de 2008, 16:45 | Comentários (16)

chegou aquela época...

...em que toda semana os jornais mancheteiam o "dia mais frio do ano". Com meus poderes sobrenaturais, prevejo que essa tendência se estenderá até no máximo o mês de agosto.

30 de abril de 2008, 9:28 | Comentários (6)

aqui também se elogia

Meus cumprimentos à Zerohora.com por usar links externos nessa matéria a respeito da cobertura da revista The Economist sobre o Brasil.

A maior falha do webjornalismo, especialmente o brasileiro, é não direcionar o leitor para sites e páginas que não sejam de sua empresa proprietária -- exceção para sites do governo, e nem sempre. Alguns portais chegam ao cúmulo de escrever o link na matéria, mas não deixá-lo ativo, obrigando o leitor a copiá-lo e colar na barra de endereços do navegador. É a total capitulação do dever jornalístico de informar às estratégias comerciais mais ignorantes.

Fingir que a concorrência não existe não vai fazê-la desaparecer. Pior, não fornecer links denota total desconhecimento sobre como funciona a Web. As vinculações eletrônicas são a base da arquitetura hipertextual que tornou a Internet útil para toda humanidade, não apenas meia dúzia de geeks.

Se o leitor realmente estiver interessado num assunto, ele vai ao Google e encontra a página cujo link um webjornal está deixando de fornecer. Mas ele ficará mais feliz se o webjornal facilitar sua vida oferecendo um link ativo.

18 de abril de 2008, 16:40 | Comentários (5)

blogs envergonham a imprensa argentina

Aconteceu semana passada em Buenos Aires a Personal Fest, um festival de música patrocinado pela Motorola e Personal, mas de responsabilidade da produtora Popart. Durante o show de Snoop Dogg, na sexta-feira, houve uma briga entre pelo menos três integrantes da platéia. Dois deles foram feridos com uma faca. O entrevero causou uma debandada em um público de 25 mil pessoas. A jornalista Letícia Menetrier estava lá e relata:

leca diz: eu to com um roxo gigante na perna dessa corrida foi punk nem deu pra ver nada....so escutar o barulho das pessoas correndo como loucas na nossa direcao parecia um estouro de cavalos so um troteo ....um estampido e nos abracamos gian e eu e deixamos as pessoas passarem correndo por no s mas depois comecou de novo houve duas corridas master acho que a briga se mudou de lado tipo foram brigando e abrindo espaco mas tinha um cara com uma faca e poderia ser uma arma porque nao te revistavam na entrada como diz um cara no blog....poderias entrar com rambo e chuck norris na mochila que ninguem via hahahahahaah

Um dos feridos acabou no hospital para sofrer uma cirurgia e segundo consta, passa bem. Até aí, seria um caso de potencial desastre que fez o menor número de vítimas possível e terminou sem nenhuma morte. A parte pitoresca mesmo é que a organização e a imprensa se calaram sobre o incidente, com direito a relatos sobre pressão da produtora e dos patrocinadores sobre a imprensa e atitudes esquisitas de muita gente.

O blogueiro Eduardo Fabregat publicou um texto resumindo todo o caso, então não vale a pena entrar em muitos detalhes aqui. Importante é dizer que os jornais não deram nada, ou deram notas minimizando o acidente, que os comentários à nota sobre o assunto na revista especializada em música Rolling Stone marotamente desapareceram, e que o único jornal grande a dar atenção suficiente ao ocorrido foi o Página 12, cujo texto é de autoria do próprio Fabregat.

A imprensa comeu mosca, na melhor das hipóteses, ou fez corpo mole, na pior. As informações se espalham feito rastilho de pólvora na blogosfera argentina. Até um blog dedicado exclusivamente ao incidente foi criado, o Personal Fest: organización desastre. Enquanto isso, os jornalistas passam vergonha.

11 de dezembro de 2007, 16:13 | Comentários (8)

jornalismo verdade

Você sempre quis ler as matérias do inacreditável Diarinho, mas é impedido pela janela de login? Seus problemas acabaram!

Para acessar as notícias mais importantes do litoral catarinense publicadas nesse jornal de Itajaí, clique no link com o botão direito e selecione a opção "abrir em nova aba" no Firefox ou "abrir em nova janela" naquela porcaria do Internet Explorer. Quando aparecer o campo de login, não preencha nada, apenas clique em OK. Abre-te, sésamo!

Não, não precisa agradecer por ter tornado sua vida muito mais feliz.

19 de novembro de 2007, 18:01 | Comentários (23)

"o segredo" é estelionato pseudo-científico

Essa tal de "lei da atração", consubstanciada hoje em dia no livro e no filme O $egredo, é uma enorme picaretagem para tirar dinheiro de otários. Infelizmente, nenhum dos incautos vai saber disso através da mídia, ao menos aqui no Rio Grande do Sul, porque a RBS é uma das empresas que apóiam um seminário sobre o livro. Nem provavelmente qualquer outro veículo brasileiro vá expor essa auto-ajuda travestida de ciência, porque auto-ajuda dá montes de audiência, o que resulta em mais lucros com publicidade. E assim, todo mundo fica satisfeito, né?

Felizmente, existem blogueiros que se dão o trabalho de fazer uma apuração mínima, coisa de 20 minutos, para desmascarar a aura científica disso tudo. Na verdade, esse post partiu de uma curiosidade incontrolável de saber quais eram os pesquisadores sérios emprestando seu nome a um estelionato.

Assim como aquela outra picaretagem chamada Quem Somos Nós, a proposta de Rhonda Byrne pretensamente se baseia nas teorias da física quântica. Muito bem. No dia em que Stephen Hawkings em pessoa der seu aval à lei da atração, será possível começar a pensar em acreditar nela. Até agora, os únicos fí$ico$ quântico$ que deram algum depoimento em favor dessa bobagem foram John Hagelin e Fred Alan Wolf.

Nem é preciso desacreditar o segundo, basta o caro leitor clicar no link e ver por si mesmo o site do homem. Já diz tudo. Hagelin, por outro lado, até parece um sujeito sério, mas não foi possível encontrar menções a qualquer contribuição dele à física quântica em seu próprio currículo, nem em lugar nenhum da Web. Isso que Hagelin trabalhou no CERN. Aparentemente, ele se deu conta de que distorcer os achados de Einstein, Bohr, Heinsenberg e outros dá mais dinheiro do que fazer átomos colidirem e analisar os resultados em equações matemáticas complicadas.

Nem vale a pena averiguar o currículo dos filó$ofo$ e do metafí$ico que emprestam seus argumentos a Rhonda Byrne -- e menos ainda dos especialistas em marketing e administração. Eles podem acreditar no que quiserem. Desde que seu sistema teórico seja coerente e sem contradições, não precisa nem ter qualquer correspondência com a realidade.

Pior de tudo, toda essa idéia de lei da atração tem mais de 100 anos. O autor original -- que, diga-se em favor de Byrne, recebe o devido crédito -- é um tal Wallace Wattles, filó$ofo, que escreveu A Ciência Para Ficar Rico. Trecho em que ele explica o princípio de sua teoria, na página 15:

O pensamento é a única força que pode produzir riquezas tangíveis, originárias da substância amorfa. A matéria de que todas as coisas são feitas é uma substância que pensa, e pensando nas formas esta substância as produz.

Na página 18, ele apresenta o leitor o método de pesquisa usado para chegar a essa conclusão bombástica:

Racionalizando sobre os fenômenos da forma e do pensamento, eu cheguei a uma substância original pensante, e raciocinando a partir desta substância pensante, cheguei ao poder das pessoas de causar a formação das coisas que pensa. E pela experiência, eu encontrei o raciocínio verdadeiro. Esta é a minha prova mais forte.

Difícil entender como Wattles não ganhou um Nobel de física com a proposição de que a lei da atração existe porque ele refletiu sobre o mundo e concluiu pela sua existência. Se bem que até faz sentido: se basta pensar em algo para que esse algo passe a existir, o simples fato de Wattles imaginar a lei da atração causou sua existência. E pensar que o pessoal perde o maior tempo tentando entender Kant nos departamentos de filosofia.

De qualquer modo, não é impossível que essa bobajada até melhore a vida das pessoas. Rhonda Byrne provavelmente acredita mesmo que melhorou de uma depressão por conta dessas idéias. Até aí, a Igreja Universal já tirou muita gente das drogas e da bebida, por mais que Edir Macedo só esteja interessado no dízimo. O duro é ver empresas de jornalismo, cujo dever seria desmascarar essas fraudes, apoiando um evento estelionatário no lugar de prestar o serviço público que diz ser seu objetivo maior.

16 de novembro de 2007, 11:23 | Comentários (18)

no japão isso exigiria um seppuku, no mínimo

temakeria.jpg

Abriu um restaurante japonês na Cidade Baixa, o Temakeria. Não, você não se enganou de blog e entrou no Garfada sem querer.

O caso é que o Temakeria veio parar aqui na página policial por causa da foto acima. Ela foi tirada de um táxi na noite de sexta-feira, pouco antes das 23:00, quando voltava do trabalho para casa, dormir o sono dos justos. Desde que abriu esse restaurante, porém, o sono leva um pouco mais de tempo para chegar, porque se forma toda noite um engarrafamento na primeira quadra da Lima e Silva. Culpa do toldo branco que vocês vêem, onde os clientes param em fila dupla para deixar o carro com o manobrista, numa rua em que já é difícil passar normalmente. Cadê a EPTC, cadê a Smic? Principalmente, cadê a civilidade dos proprietários do restaurante?

Se quiser saber como é a comida, leia no Destemperados.

28 de outubro de 2007, 21:31 | Comentários (27)

polícia gaúcha ganha reforço de peso

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OK, OK, o título dessa matéria não está exatamente errado, mas no mínimo dá margem a interpretações erradas e piadinhas, coisa que convém evitar no jornalismo.

1 de outubro de 2007, 14:13 | Comentários (26)

imprensa contra os blogs

Que Estadão que nada! Ataque aos blogs de verdade vem do Diário do Nordeste, jornal de Fortaleza afiliado à Rede Globo — que, aliás, usa muito o formato blog em seus veículos. Em um editorial de agosto, fazem parecer que os blogueiros são responsáveis por todas as mazelas culturais do mundo.

A pretensa democratização da mídia alegada pelos titulares de blogs estaria, pelo contrário, ocasionando o surgimento de nova oligarquia, pela qual inúmeras pessoas, em alguns casos agindo de má-fé, podem usar seu talento de persuadir a favor de causas desonestas. Sobretudo os mais jovens, pela natural falta de experiência característica da idade, tendem a acreditar em tudo aquilo que lêem, principalmente se as mensagens chegam numa linguagem que lhes pareça simpática e envolvente. Essas são as principais vítimas de blogs com intenções indisfarçáveis de fomentar preconceitos e disseminar tendências extremamente perniciosas à sociedade.

Na verdade, o editorialista do jornal cearense parece ter lido mal o livro de Andrew Keen — ou as entrevistas que ele deu à Época ou à Folha — e resolvido macaquear suas idéias para se defender do concorrente, o jornal O Povo, segundo conta Glaydson Lima. O blogueiro — ô raça! — também dá a entender que a publicação, pertencente ao Grupo Edson Queiroz, é pelego do clã Jereissati comprometido com interesses políticos. Sabendo disso, o trecho a seguir do editorial fica até engraçado:

O pior, no caso, é que também se constata a existência de blogs que, aparentando ser de indivíduos, são, na verdade, manipulados por grandes grupos ligados a objetivos inconfessáveis.

É, jornalistas nunca são guiados por objetivos inconfessáveis, não é? Os repórteres de jornais, redes de televisão e rádio ligados a políticos e a grandes grupos financeiros, especialmente, jamais se deixam influenciar por interesses escusos. Nunca os objetivos inconfessáveis de deputados, governadores ou empresários maculam a edição de uma notícia. Só essa plebe sem diploma de jornalismo que de repente tomou conta do espaço público comete erros ou distorce os fatos, pura e simplesmente.

Blogueiros não são piores nem melhores do que jornalistas. Como qualquer outro ser humano, têm seus preconceitos, opiniões e interesses e muitas vezes nem percebem que um texto está sendo guiado por eles. Por outro lado, os blogs são muito diferentes dos jornais e não deveriam representar uma ameaça. Se representam, é porque as empresas de comunicação do Brasil preferiram se restringir à irrelevância cultural do que investir em jornalismo de qualidade. Não estão falando a mesma língua do público. Não mostram os problemas que interessam de verdade aos cidadãos. De fato, em lugar de investir no jornalismo, as empresas têm cada vez mais reduzido suas equipes e as verbas para coberturas internacionais e reportagens longas. Para compensar, dão quinquilharias aos assinantes.

A vantagem dos blogs é poder cobrir as lacunas deixadas pela mídia. Se a Globo não mostra as competições de esgrima do Pan 2007, os que se interessam por esse esporte terão de buscar informação noutros lugares. Se os cadernos de gastronomia de sua cidade só elogiam todo mundo e reproduzem releases, crie um blog dedicado a isso. Se o jornal da sua cidade não dá notícias de seu bairro, publique-as na Web. A imprensa não tem como estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Se o Diário do Nordeste ou o Estadão acham isso ruim, que contratem mais repórteres e cubram todos os assuntos.

21 de agosto de 2007, 10:41 | Comentários (17)

duvido que funcione, mas...

boycott_beijing_03.jpg

...não custa nada divulgar a campanha pelo boicote às Olimpíadas de 2008 na China. Motivos para isso abundam, o governo chinês é uma ditadura e as organizações jornalísticas em especial estão preocupadas com o controle das informações que seus enviados podem sofrer.

Porém, a razão principal por que esse boicote seria muito bom é o fato de a realização de uma Olimpíada sob uma ditadura ser uma excrescência. Um evento que desde os gregos celebra a paz e entendimento entre os homens, incentiva a civilidade, acaba sendo usado para legitimar justamente o contrário desses ideais. Não é a primeira vez e infelizmente não será a última em que as organizações esportivas internacionais prestigiam governos que deveriam condenar.

Alguém aí pode até argumentar que será bom ter montes de repórteres enxameando a China, porque alguma informação pode acabar ganhando a luz do dia. Só há dois problemas nesse raciocínio: primeiro, importante mesmo seria essas informações chegarem aos próprios chineses, mas isso continuará não acontecendo, porque, mesmo se evitar controlar os jornalistas estrangeiros, o governo certamente continuará controlando os chineses. Segundo, mais relatos de ataques aos direitos humanos na mídia internacional farão pouca diferença, notícias sobre isso não faltam por aí e a ditadura chinesa continua firme e forte.

Só resta mesmo é promover um boicote a essas Olimpíadas e às empresas que patrocinam o evento, procurando tirar lucros mesmo sob risco de endossar um governo duvidoso. Se o tilintar das moedas é a única linguagem que entendem, que se silenciem as moedas.

10 de agosto de 2007, 10:22 | Comentários (22)

oh, meu deus! que capa horrenda!

Fui obrigado a arquivar para a posteridade essa inacreditável tentativa do jornal O Sul em parecer inovar a capa, publicando um infográfico da Folha Imagem em sua capa. A manchete — a de verdade, não a coleção de exclamações — num quadro laranja na margem esquerda é um primor em termos de uso do design gráfico para informar o leitor.

3 de agosto de 2007, 10:34 | Comentários (21)

web 2.0 com chimarrão

Entrou no ar esses dias o Eu Acho Que, um site que, segundo seu criador, o jornalista PC Flores, "foi concebido com o objetivo de criar um espaço na internet para que as pessoas tornem públicas a suas opiniões e posicionamentos sobre qualquer assunto". Não é um site de notícias, mas de artigos. Os melhores ganharão destaque na capa, e também há um box para o "mais comentado".

Duro é agüentar o festival de clichês na justificativa para sua existência:

Criado em um momento chave para a comunicação mundial, em que as informações estão, mais do que nunca, fragmentadas, Eu Acho Que entende que este tipo de site tem um caráter agregador, baseado no conceito de conteúdo colaborativo da web 2.0.

Parece um parágrafo saído de um daqueles geradores automáticos de texto que usam qualquer tipo de expressão retardada sobre Web 2.0. (Aliás, nesse quesito nada supera a expressão lounge networking, usada pela organização do Digital Age 2.0 para se refererir à troca de cartões de visita durante o cafezinho.) Mas o grande problema mesmo de mais esse site de mídia cidadã é que não parece ter nenhuma diferença de tantos outros que andam por aí. O Jornal de Debates e o Overmundo são ferramentas muito melhores, por exemplo.

A única vantagem que dá para apontar no Eu Acho Que é ter mais assuntos locais. Mas, é claro, isso depende de conseguirem manter o foco à medida que novos colaboradores começam a usar o serviço. Porto Alegre bem que precisa de um site que agregue discussões abertas e troca de idéias sobre os problemas da cidade.

Dica da Helena Kempf.

27 de julho de 2007, 13:50 | Comentários (10)

já era

morte_nominimo.jpg

Mas o anúncio da Piauí promete uma ressurreição. E ao menos os arquivos continuam .

29 de junho de 2007, 1:35 | Comentários (7)

no mínimo a perigo, de novo

Primeiro, foi o Notícia e Opinião, ou NO. O projeto de Marcos Sá Corrêa reuniu ótimos repórteres e articulistas e produziu muita coisa boa, mas não conseguiu se manter sobre as próprias pernas e acabou tendo de firmar uma parceria com o iG [leia-se Brasil Telecom]. Deu bastante certo, o webjornal evoluiu, transformou todas as colunas em blogs com espaço para comentários de leitores e se tornou uma referência no jornalismo. Agora, a BrT resolveu rifar o No Mínimo, que ainda não encontrou nenhum patrocinador.

Quando tinha mais tempo livre, passava boa parte dele lendo os artigos de Pedro Doria, Ricardo Setti, Guilherme Fiúza, Luiz Antonio Ryff, Tutty Vasques, os dois Xicos e Carla Rodrigues, e debatendo com outros leitores e com os próprios autores nos espaços para comentários. O espírito de comunidade que conseguiram criar em torno de conteúdo de qualidade é coisa rara no jornalismo e, a meu ver, o maior patrimônio do No Mínimo. Chega a ser meio ridículo que não consigam um novo patrocinador. Talvez o webjornal até não dê um grande lucro, mas há muitos produtos em portais brasileiros que dão prejuízo e servem apenas para "marcar posição estratégica". Isto é, investimento em imagem. Não vejo melhor cosmético para um portal do que contar com a equipe formada por Marcos Sá.

Um detalhe que deixa a coisa ainda mais triste é o fato de que meu amigo Daniel Galera havia recém começado a publicar a ótima coluna Jogatina.

3 de junho de 2007, 11:48 | Comentários (10)

mais sinais da relevância dos blogs

Fantástica a história do blog americano Engadget, que está sendo investigado pela SEC. Motivo? Uma informação de que o lançamento do iPhone seria adiado, bem como o novo sistema operacional da Apple, causou uma queda nas ações da empresa durante 6 minutos, até que a informação, recebida de alguém dentro da fabricante de eletrônicos de luxo, fosse corrigida. O problema é que a queda foi de US$ 4 bilhões e causou prejuízo a muita gente.

Isso mostra a relevância que os blogs vêm adquirindo no ambiente midiático contemporâneo, para o bem e para o mal. Se uma informação publicada em um blog gera todo esse caos entre os investidores, é preciso levá-los bastante a sério — embora alguém que tome decisões sobre dinheiro baseado em notícias de blogs, fóruns, wikis e quetais mereça é levar surra com um gato morto, até miar. Levanta também uma preocupação: o uso de blogs alfa para manipular a opinião pública. Não seria surpresa se descobrirem que o autor do boato faturou com ações da Apple. Ainda pior, não seria surpresa descobrir que alguém invadiu uma conta de e-mail da empresa para enviar a informação falsa.

Hmmm... Por sinal, vocês sabiam que uma plataforma da Petrobras vai afundar na segunda-feira, assim que abrir o pregão? Se fosse você, leitor, venderia todas minhas ações no primeiro minuto.

19 de maio de 2007, 19:53 | Comentários (9)

melhor jornal de todos os tempos

OSUL.jpg

O aviso acima foi veiculado no jornal O Sul do dia 6 de março. Para quem não conhece, trata-se do periódico mais bizarro já saído de uma rotativa. As matérias, com exceção de algumas notas sobre política regional, são todas copiadas do Estadão e da Folha. A redação é composta por estagiários e alguns funcionários mais velhos, que em geral não agüentam mais de dois ou três meses. As manchetes têm PONTO FINAL. Na capa, a manchete principal nunca tem nada a ver com a foto embaixo. E, durante a crise da Argentina, o jornal saiu com a incompreensível chamada de capa "Não chore, por nós, Argentina". Se alguém entender, favor informar nos comentários.

Imagem descaradamente roubada do G7+Henrique.

11 de março de 2007, 10:32 | Comentários (13)

de como o jornalismo pode não ajudar em nada

Uma jovem de 13 anos e um professor de 31 são encontrados mortos em um motel, em um aparente pacto de suicídio. Deixaram cartas às famílias. Em que a principal rede de mídia gaúcha se concentra? Em discutir os motivos que levam dois amantes a cometer um ato desses? Entrevistar psicólogos, criminalistas? Em tentar descobrir por que os dois se viram em um beco cuja única saída era a morte? Não. Concentra-se no fato de os motéis permitirem a entrada de menores. Assistindo aos telejornais do grupo RBS, tem-se a impressão de que a ida ao motel foi a principal causa da tragédia.

É um grande desserviço. Está certo, os motéis estão infringindo a lei e é papel do jornalismo noticiar infrações e crimes. Mas também é papel do jornalismo colocar as coisas em perspectiva e, nesse caso, a lei é hipócrita e inútil. Motéis servem para pessoas que moram com os pais — ou cônjuges, ou etc. — transarem em paz. A maioria dos adolescentes faz sexo. A maioria mora com os pais. Logo, motéis são úteis para eles. Não apenas isso, como qualquer menino ou menina de 14 anos hoje em dia sabe o que é sexo, se é que já não pratica. Com 16 anos, podem até votar, isto é, são considerados cidadãos responsáveis o suficiente para decidir quem vai foder com o país, mas não para quem vai foder só com eles mesmos. O mais lógico seria que a maioridade fosse reduzida para essa idade. Nem sombra dessa discussão toda nas matérias sobre motéis. Ninguém dizendo "ei, vamos deixar de besteirol, deixem a gurizada trepar em paz".

De todas as outras possibilidades de abordagem do fato, nenhuma daria tanto trabalho quanto visitar cinco motéis da cidade com uma atriz de 14 anos, apenas para mostrar o que todo mundo já sabe: ninguém dá bola para a lei da Criança e do Adolescente. Então não existe a desculpa de falta de recursos, comum para justificar a ausência de reportagem que preste. O único recurso escasso nesse caso talvez fosse capacidade intelectual, mesmo.

Há alguns dias, publicou-se aqui um link para um artigo reclamando de como os jornalistas só usam as declarações mais idiotas de pesquisadores. Agora, o Mojo envia a dica de um blog dedicado exclusivamente às bobagens que se diz sobre resultados científicos, sempre com uma grande ajuda da imprensa:

The constant bombardment of news of hypothetical dangers, and our increased intolerance of risks, contrasts with the reality that we live in a safer world and are healthier than ever. The media could be a positive influence and help us understand complex issues so that we can make health decisions that are best for ourselves. As much as we think we don’t, most of us on some level do believe the health news we see on television and printed in prominent publications. The way that a risk is depicted and how often it is repeated can make a big difference in how serious it seems. Even the most wary of us can be seized by alarming soundbytes. It is easy to scare us in a soundbyte, but impossible to really confer understanding of an issue in a few words.

Por que isso acontece? De uma forma geral, porque os repórteres são ignorantes. A maioria não sabe nada de matemática e estatística e cada vez menos estudantes têm uma boa formação humanista, embasada em história, sociologia e filosofia. Por causa disso, são facilmente enrolados pelas fontes, ou facilmente entendem errado as declarações das mesmas. Isso para não entrar na questão dos salários baixos e carga absurda de trabalho, que realmente pouco incentivam um jornalista a fazer algo além do necessário para enviar a matéria ao editor, atendendo a padrões mínimos de publicação. Quando o repórter é bom, em geral o editor barra suas idéias. E se calhar de ambos serem bons, aí o mais normal é subestimarem o leitor, crendo que não entenderá qualquer texto mais complexo.

A solução seria transformar os cursos de jornalismo em uma especialização, obrigando os candidatos a repórteres a se aprofundar em alguma outra área, como economia, ciência política, história ou mesmo engenharia e biologia, antes de chegar às redações. Na especialização, sim, seriam ensinadas as técnicas de reportagem e algumas noções de teoria seriam fornecidas. Melhoraria bastante a qualidade do que lemos, ouvimos e vemos.

28 de novembro de 2006, 10:41 | Comentários (25)

medo e delírio no festival do anchieta

A minha advogada sefaradi comentou em uma mesa de bar na semana passada que iria ao Festival Interno da Canção Anchietana, ou Fica. Como estava já umas sete doses acima do resto da humanidade, deixei uma onda de nostalgia tomar meu aparelho vocal e pedir a ela que me comprasse um ingresso também. Quando me recuperei da ressaca, era tarde. Só restou ir à antiga prisão de Abu Ghraib* no último sábado, às 16h30.

A idéia na verdade era encher a cara antes de entrar, para que pudesse perder a vergonha de me misturar a adolescentes e pais de candidatos a músicos para ver péssimos shows. Infelizmente, a única droga que posso tomar por algumas semanas são antibióticos pesados. Talvez seja uma boa coisa, já que no fundo o álcool era o culpado por me levar a assistir completamente sóbrio ao Fica. Revoltado com o destino, comprei uma lata de Fanta Uva no posto de gasolina em frente ao Anchieta.

Corante roxo deve ser uma droga forte. Só isso explica ter dado de cara com um bando de pagodeiros na entrada do ginásio. Em 1993 seria impensável uma banda de pagode tocar no Fica. Bandas de reggae costumavam ser recebidas com uma artilharia de latas para Carlinhos Brown nenhum botar defeito. A gurizada da época só aceitava o Metauuuuu — e tolerava o Grunge. Sim, só podia ser alucinação.

Não parou por aí. Os efeitos psicotrópicos da Fanta Uva me fizeram ver os nerds bem vestidos, enquanto os mauricinhos pareciam estar prontos para sentar no sofá e assistir à Sessão da Tarde. Bermudas, chinelos, calças fuzô, malhas de ginástica. Do lado dos nerds, All Star e Adidas, paletós, malhas listradas, acessórios. Apenas uma menina parecia ter se inspirado na Nina Hagen dos anos 80, mas ainda assim parecia ter se preocupado mais com a roupa do que qualquer nerd que se prezasse nos anos 90: basicamente, você se vestia como um pedreiro gótico ou um contador daltônico. Isso para não falar que, enquanto nós tomávamos vodca Walesa ou cachaça Sete Campos antes de entrar no Fica, os rebeldes de hoje compram cerveja no posto de gasolina em frente ao colégio. Maricas!

Para meu alívio, a onda passou quando estava prestes a entrar numa bad trip. É que pareceu que tivesse visto um cabeludo gordinho de óculos — aliás, o fato de que a proporção de cabeludos e normais se inverteu nos últimos dez anos também chamou a atenção — agarrando uma loirinha gostosa. Isso já era demais! Apesar do geek pride, a situação era... Errada! Comecei a ficar paranóico, achando que tinha tomado Fanta Uva demais, mas aí notei que eram apenas irmãos. Ou será que...?

Os shows foram todos lamentáveis até que a banda Spitfire entrasse no palco tocando Aces high. Quase chorei de emoção ao lembrar da minha jaqueta de brim com patches do Sepultura, o símbolo do anarquismo e de meus coturnos. Nem deu para sentir vergonha do vocalista de uns 30 anos que pensava ser o Bruce Dickinson. Ainda assim, não me animei a pogar com a gurizada. Hoje em dia os hematomas levam muito mais tempo para se curar.

A Spitfire tocou bem, mas na minha opinião o prêmio iria para a Gádot, uma banda de pré-adolescentes fãs de NOFX. Tocaram Deus é gaúcho em versão hardcore, mandaram todo mundo tomar no cu e chutaram as latas que povoavam a beira do palco na platéia. Os amigos da banda promoveram uma sessão de violência que não ficou devendo nada aos metaleiros dos anos 90. Quando terminaram suas quatro músicas e a próxima banda já estava no palco, emendaram com a versão do Tequila Baby para Love me do — e nem devem saber quem foram os Beatles. Gurizada responsa.

Depois disso, o Fica tinha acabado para mim. Nem fiquei para ver quem ganhou. Até porque, ao contrário dos anos 90, quando era apresentado por gente como Astrid e trazia bandas como Kid Abelha [é, pois é], Bandaliera e até Rosa Tattooada, se não falha a memória, o festival daquele domingo terminaria com Os Bacanas.

* Lembro especificamente de quando minha mãe foi chamada para conversar com a orientadora pedagógica, sob alegação de que meus textos eram imaginativos DEMAIS.

20 de novembro de 2006, 12:06 | Comentários (19)

a imprensa nunca tem culpa

O filho do casal de idosos morto em São Paulo passou ontem o dia inteiro como suspeito de parricídio. Agora, a polícia voltou atrás e tirou o homem da lista de suspeitos. Além da dor da perda dos pais, o homem ainda teve de agüentar o linchamento moral de ser considerado um dos piores tipos de criminosos, senão o pior. Sua casa amanheceu pichada com palavras como "assassino".

Nem vale a pena entrar no mérito da notícia em si. Crimes passionais ou familiares não contribuem em nada para o interesse público — embora possam ser muito interessantes para o público. Ao contrário de um caso como o da Escola Base, que atingia uma comunidade considerável, esse parricídio não influi em nada fora do círculo familiar. O valor informativo para o cidadão é nulo. Notícias sobre assaltos a banco ou ladroagem de uma maneira geral ao menos permitem conhecer pontos críticos e formas de se proteger. Parricídio é apenas circo.

Como não podia deixar de ser, os jornalistas se apressaram a limpar a própria barra após a lambança. Um repórter do Jornal Hoje perguntou ao delegado se não havia sido uma irresponsabilidade indicar o filho como um dos suspeitos. Este deu uma resposta meio enviesada, sugerindo que não foi irresponsabilidade. E deve ter razão. O mais provável é que tenham falado em diversas linhas de investigação. Os repórteres, obviamente, escolheram a mais saborosa para noticiar. Qual a graça de outro casal de velhos morto por assaltantes? Já um caso de parricídio fornece meses e meses de tragédia grega para narrar, como até hoje demonstra o caso de Suzane Richthofen. No entanto, as matérias sobre o assunto jogam a culpa apenas nas declarações da polícia, não na descontextualização malfadada feita pelos repórteres.

Isso lembra um artigo do blog especializado em neurociência Mixing Memory. O autor, Chris, chocado com as declarações de um colega em uma matéria sobre o assunto, chega à conclusão de que os repórteres escrevem sobre uma pesquisa quando "conseguem fazer o autor dizer alguma bobagem". É triste, mas o blogueiro tem razão na maioria dos casos. Devido aos constrangimentos de tempo e espaço da narrativa jornalística, é preciso fazer com que as fontes simplifiquem o assunto o máximo possível, de preferência em uma frase. Melhor ainda se for uma frase de efeito, que renderá boas "aspas" no texto, vídeo ou áudio. Além disso, repórteres não aceitam "não" como resposta. Enchem o saco do entrevistado até que ele solte alguma declaração. Se ainda assim não diz nada, a pessoa pode contar com toda má vontade do mundo por parte da mídia.

Como se sabe, nada é simples. As coisas são complexas e sempre existem ressalvas, poréns e exceções. O problema é que o jornalismo odeia a complexidade. Contradição é coisa para as ciências e as artes. No jornal, só se tem espaço para um aspecto do assunto ou, no máximo, dois lados de uma mesma questão. É preto ou branco. Todos os 256 tons de cinza existentes na vida real ficam de fora.

O que houve no caso do casal de idosos mortos em São Paulo, portanto, faz parte da rotina jornalística. O delegado falou algo, os repórteres destacaram a informação de seu contexto e publicaram. Infelizmente, dessa vez a coisa andou para outro lado e a descontextualização se mostrou um erro com conseqüências graves. Na maior parte das vezes isso não acontece e alguns repórteres conseguem mostrar a complexidade das questões, mesmo com todos os constrangimentos impostos pelo tempo e pelo espaço. O único problema é que, quando as coisas dão errado, os jornalistas sempre tentam se eximir, dizem que estavam apenas relatando os fatos e deixam a batata quente na mão das fontes que viram suas declarações usadas de forma simplificadora.

Em vez de culpar o delegado Rodolfo Chiarelli, a mídia deveria fazer um mea culpa e pedir desculpas ao pobre sujeito que foi acusado injustamente.

18 de novembro de 2006, 14:30 | Comentários (12)

fenaj, um modelo de ponderação
Petistas que aguardavam Lula em frente ao Palácio da Alvorada agrediram os jornalistas que estavam à porta, fazendo o seu trabalho. Os manifestantes gritavam palavras de ordem contra a imprensa. Um dos democratas agrediu um repórter duas vezes com o mastro da bandeira do partido. Outra jornalista foi empurrada. “Eu prefiro a ditadura do que a imprensa" e "Vamos fechar todos os jornais", diziam entusiasmados. "Se falar de dossiê, vai levar dossiê na cara", ameaçava um outro. Ouvido, um representante da Fenaj — Federação Nacional dos Jornalistas — afirmou que isso acontece porque os jornalistas “provocam”.

Reinaldo Azevedo poderia fazer a gentileza de dar o nome do representante da Fenaj, até para sabermos em quem atirar pedras. Seria interessante saber a opinião da Fenaj sobre estupro. Provavelmente dirão que as mulheres provocam os homens ao andar por aí com decotes e minissaias.

Para quem não lembra, a Federação Nacional dos Jornalistas é aquela instituição que pretendia criar o tal Conselho Federal de Jornalismo — e cobrar mensalidade de todos os jornalistas do país pelo serviço, claro. A Fenaj, aliás, ainda não desistiu do Conselho, mesmo sendo difícil encontrar um repórter empregado que seja a favor da idéia. Temei.

31 de outubro de 2006, 12:54 | Comentários (15)

notícias do mundo

Bem legal esse Mapped Up. Um balão indica diversos pontos no mapa múndi e mostra as notícias daquele local, usando feeds RSS para isso. O slogan é "uma ferramenta indispensável para o viciado em notícias". O balãozinho é interessante de se olhar, mas algo mais útil é o diretório de feeds.

Dica do Láudano.

30 de outubro de 2006, 21:39 | Comentários (1)

dois sinais de inteligência na cobertura das eleições

A cobertura de eleições no Brasil precisa de matérias mais corajosas, como a desconstrução do discurso de Alckmin feita pelo jornal O Estado de São Paulo. Pegaram 14 trechos de uma entrevista com o candidato tucano e mostraram as incongruências com os dados da realidade. Tomara que façam o mesmo com Lula. Fizeram o mesmo com Lula.

Outro bom serviço quem tem prestado é a Folha de São Paulo, com sua série de 20 questões aos presidenciáveis — apesar de eles não se darem o trabalho de listar todas os links anteriores ao final de cada matéria. Serão ao todo 40 perguntas, o que dá uma amplitude suficiente de temas e espaço para que se possa ler melhor nas entrelinhas do costumeiro blablablá eleitoral.

Está certo que a Lei Eleitoral restringe, muitas vezes de maneira estúpida, a liberdade editorial dos jornalistas. É preciso sempre dar o mesmo espaço a todos os candidatos, mesmo que sejam nanicos ou não tenham feito nada digno de nota. Também é preciso evitar juízos de valor como os do Estadão, que podem sempre ser considerados parcialidade. Isso é injusto com os jornais sérios, mas as restrições parecem o menor dos males quando se pensa que ACM tem um jornal em Salvador, ou no que o candidato dono da rádio de Cacimbinhas do Jequitinhonha pode fazer se não houver a possibilidade de sofrer retaliações jurídicas.

Nada disso impediria, porém, os jornais de se debruçar sobre programas de governo, entrevistando possíveis secretários e ministros, e fazer reportagens extensas sobre as idéias dos partidos e dos candidatos. Ou melhor ainda, mandar repórteres atrás dos parentes, da professora do primário, ex-colegas de trabalho, enfim, todo mundo que tenha tido contato com o candidato, e publicar perfis o mais completos possível. Poderia-se inclusive dedicar um caderno com essas informações a cada concorrente, saindo um por semana.

De qualquer modo, não se deveria tomar as declarações dos candidatos pelo valor de face, como acontece hoje, com honrosas exceções. No geral, prefere-se poupar dinheiro e trabalho e tratar a eleição como se fosse um Fla-Flu.

26 de outubro de 2006, 14:17 | Comentários (5)

Novo mercado para jornalistas

Jornalista é um bicho muito chato. Vive reclamando que o mercado de trabalho está ruim, que os chefes são malas, que nas redações hoje em dia a carga de tarefas é insana. Pois agora há todo um novo mercado de trabalho esperando por ser colonizado: a agência Reuters abriu um escritório no mundo virtual de Second Life. É aquele tipo de idéia "como não pensei nisso antes, caralho?".

Muita gente tem dificuldade em compreender que "virtual" e "real" não são termos opostos. Entidades virtuais não estão separadas do mundo concreto. A prova disso é que as ações em mundos virtuais têm conseqüências sobre o mundo concreto. O Second Life é um exemplo muito bom para perceber essa relação, já que tem uma economia própria com influência sobre o mundo concreto, tanto que o governo norte-americano andou pensando em criar impostos sobre transações virtuais. Isso sem falar em pessoas que morrem por jogar dias seguidos.

18 de outubro de 2006, 18:36 | Comentários (14)

hein?
Para a crônica do dispositivo de mídia do professor Berzoini: É muito provável que Freud Godoy esteja na história do ervanário petista como Pilatos no Credo. Preso, Gedimar Passos quis livrar o cacique a quem se reportava (Jorge Lorenzetti) e deu o nome de uma figura discreta, de nome esquisito. Não sabia de quem estava falando. Algo como se a bomba de Hiroshima tivesse o detonador ligado na descarga da privada do japonês da piada.

Alguém aí consegue entender a referência à piada do japonês nessa nota de Elio Gaspari, publicada no último domingo? Por favor explique nos comentários. Na coluna do mesmo dia há uma nota sobre o vídeo da Cicarelli, que mistura Jackie Onassis e Larry Flint sem chegar a lugar algum. Não são os primeiros e não serão os últimos casos de textos completamente incompreensíveis do articulista político, que já foi muito bom, mas ultimamente está cada vez mais chato — isso quando se consegue entendê-lo. Enfim, talvez seja esse o segredo de tanto sucesso: escrever piadas internas para meia dúzia de colegas sediados em Brasília.

29 de setembro de 2006, 11:12 | Comentários (9)

a marcela vai dizer que odeio ricos, mas...

A Folha de São Paulo deu uma página inteira neste domingo para Eliana "Daslu" Tranchesi ficar se fazendo de vítima. Gilberto Dimenstein se prestou ao papel de ouvir uma suspeita de sonegação — ou seja, roubo — dizer que as acusações acabaram com sua vida e lhe causaram um câncer de pulmão.

Quando a Polícia Federal prende camelôs por acusações que podem ser reduzidas a sonegação, a mesma Folha não dá uma página inteira para eles se explicarem. Ninguém se preocupa se os pais deles morreram de desgosto, nem com o que seus filhos pensam ao ver os pais na cadeia, nem os permitem dizer que estão "deixando abruptamente o Beto Carrero World" que era a vida deles até então.

OK, OK. Concedo que Eliana Tranchesi é muito mais noticiável do que um pé-rapado qualquer. Certamente o público se interessa em ver uma rainha decaída se fazer de vítima em um relato de cortar o coração. A Folha é um empreendimento comercial e precisa de audiência, tudo bem. Que se dê aos abutres a carniça, então. Que se pergunte a alguém doente como encara o medo da morte, assim como se pergunta a um sujeito como se sente após perder a família, a casa e até o cachorro num incêndio.

A única desculpa para a Folha nesse caso é que a matéria seja algum tipo de piada. Uma forma de ironizar Eliana Tranchesi. Mas provavelmente não é. Tranchesi e Otávio Frias Filho devem freqüentar os mesmos restaurantes e clubes. Aliás, OFF talvez até seja cliente da Daslu. Deve ser uma suposição paranóica. Porém, como se sabe, não basta que a mulher de César seja honesta. Ela tem de parecer honesta também.

Lá pelas tantas, ela diz que "até então, eu imaginava a vida como uma grande brincadeira". Só se for polícia e ladrão.

24 de setembro de 2006, 17:33 | Comentários (25)

visões do centro

Participei nesta segunda-feira de um grupo focal sobre o Centro de Porto Alegre, organizado pelo professor Walter Nique, da Escola de Administração da UFRGS. Fui convidado por ser morador do bairro e, suponho, blogueiro. Conversando com o professor Nique, sujeito simpático e aparentemente entusiasmado com a vocação, descobri que a iniciativa foi dos alunos, que em sua cadeira devem produzir uma pesquisa em marketing a cada semestre. No site da disciplina pode-se baixar PDFs com todas as pesquisas já feitas. Uma boa fonte de informação sobre a cidade.

Entre os colegas, o major Maciel, da 1ª Companhia do 1º Batalhão da Brigada Militar, responsável pelo policiamento da região, Cláudio Klein e Fortunato, da associação dos concessionários do Mercado Público, Clarissa Ciarelli, editora dos cadernos de Bairro da Zero Hora, e Maria Erni, arquiteta da secretaria de Planejamento. Foi uma boa oportunidade de ter uma idéia do que se pensa sobre o Centro. A discussão girou em torno principalmente da questão da segurança e da deterioração dos aparelhos públicos.

O major Maciel certamente foi corajoso em comparecer. Era óbvio que ele teria de se defrontar com a ira dos cidadãos presentes. A maioria parece compreender que o comando da BM não tem tanta culpa pela falta de efetivo para policiar o Centro da capital, mas isso não aliviou as reclamações. Eu, por exemplo, comentei com o major que é inaceitável não se ver um só PM durante quase dois anos de trajeto diário pela praça Argentina. Todos os dias passo lá e todos os dias há vidro de carro quebrado no chão ao longo do meio-fio. Ou seja, até os minerais sabem que se rouba um monte de carros lá. Por outro lado, o major afirma que já prendeu um mesmo sujeito 60 vezes. Em todas ele foi liberado pelo Judiciário. Assim, realmente, fica difícil trabalhar.

Major Maciel trouxe algumas estatísticas interessantes: o Centro tem 42 mil moradores e 8 mil pontos de comércio regular. Suspeita-se que existam mais 2 mil pontos de comércio irregular, além dos camelôs. Há mais ou menos 1400 moradores de rua adultos, além de 300 que dormem em um abrigo perto da rodoviária e durante o dia "vão para onde podem conseguir dinheiro e comida", ou seja, furtam ou cometem pequenas trapaças. Há também um abrigo para 50 menores. Uma das campanhas do major é para que esses abrigos sejam mandados para outra área da cidade, o que diminuiria os problemas no Centro, onde há pouco efetivo. Também reclamou que as delegacias da Polícia Civil ficam na Riachuelo, fora do miolo mais populoso, e na Ramiro Barcelos, longe demais. Isso sobrecarrega a BM com a necessidade de redigir boletins de ocorrência. Para piorar, gente que mora na periferia faz os boletins no batalhão do centro, porque o Tudo Fácil fica na Borges. Essa gente, por não saber como funciona o sistema policial, diz que foi roubada no Centro, quando na verdade o crime ocorreu em outros bairros, o que infla as estatísticas. Conforme dados das associações de transportadores e Trensurb, o Centro tem uma população flutuante de 600 a 800 mil pessoas por dia.

De qualquer modo, a percepção geral é que no Centro há poucos crimes violentos. Em geral ocorrem furtos e estelionatos. Os próprios moradores não se sentem muito ameaçados, embora certamente não andem tranqüilos por aí.

O maior atrativo do centro parece ser mesmo a grande diversidade comercial, cultural e social. Pode-se comprar desde DVD pirata no camelô a roupas de grife, pode-se comer cachorro-quente a R$ 1 com três salsichas ou bacalhau no Gambrinu's, pode-se falar com a elite política ou com mendigos. Cláudio Klein, da Banca 43 do Mercado Público, perguntado sobre sua percepção do Centro, respondeu: "se for pedir para o meu cliente responder em uma palavra, ele vai dizer que é uma esculhambação". Meio que se arrependeu quando, na minha vez, peguei sua definição e disse que a tal esculhambação é justamente o charme do bairro. Como tem um cargo político, deve ter achado que pega mal. Mas penso que ele tem toda razão. O Centro certamente parece uma esculhambação para muita gente. Há quem goste de diversidade, porém. Tanto que a editora dos cadernos de bairro, Clarissa Ciarelli, identificou uma tendência crescente de artistas e intelectuais de ocupar o Centro. No fim das contas, todos os participantes mais ou menos concordaram que o Centro reflete todas as vantagens e desvantagens da situação cultural e social do Brasil. Ou seja, resolver o problema do Centro exige resolver os problemas não apenas de Porto Alegre como um todo, mas também da Região Metropolitana.

Outra questão levantada foi da falta de higiene. Com poucas lixeiras e 1400 moradores de rua, além dos camelôs, fazendo suas necessidades nas calçadas, as ruas ficam uma porcaria. O problema é que, no Mercado, por exemplo, as pessoas levavam até torneiras e lâmpadas, antes de começarem a cobrar uma taxa pelo uso dos banheiros. Sugeri que se instalassem vespasianas, como as que existem em Amsterdam.

Na verdade, fugimos um tanto do objetivo do grupo focal, que era levantar categorias de percepção do Centro de Porto Alegre entre seus moradores e freqüentadores. Falou-se mais na questão da segurança, mesmo, e os representantes de instituições pareciam estar falando de palanques. Os dados recolhidos serão usados na criação de um questionário, a ser aplicado entre os habitantes da cidade toda. Pretende-se descobrir o que pensam do bairro. Os resultados serão publicados no site da disciplina ao final do semestre.

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Este texto foi republicado no Palegre, blog sobre a capital editado pelo jornalista e webdesigner Solon Brochado.

19 de setembro de 2006, 17:23 | Comentários (13)

fazendo a américa

Consegui passar pelo crivo da comunidade e publicar um artigo na página principal do Kuro5hin. Foi escrito às pressas e apenas como exercício para analisar o funcionamento do webjornal, que estou pesquisando no mestrado. Ou seja, por favor relevem a falta de argumentação mais sólida e o estilo pobre. Seja como for, ganhou os 70 votos necessários dos colaboradores do K5, que agora se dedicam a discutir a política externa dos Estados Unidos nos comentários.

Brazil is a largely pacifist country in South America. Our last war was fought against Paraguay in the 19th century, when we pretty much leveled the then enemy country, once the most developed in the region, today a haven for contrabandists and counterfeiters. There were also some internal conflicts througout brazilian history, a bloody conservative dictatorship in the 20th century - though not as bloody as in Argentina or Chile - and today we witness a daily struggle between police forces and drugs and arms dealers, robbers and the like in big cities. That said, most brazilians wouldn't ever imagine our country going to war nowadays. It's just... Not brazilian!

The september 11 attacks on World Trade Center and the Pentagon were a shock for all of us, as it was for most people in the world. Everything stopped as we held our breath in front of our TV sets. Friends called each other asking "Did you see it? I can't believe!". Most people felt compassion for the dead, their families and all americans. On the other hand, many people did not.

Foi uma experiência interessante. O pessoal ajudou muito a corrigir erros de inglês durante o período de avaliação. Os inevitáveis trolls apareceram, mas a maior parte dos comentários se preocupou em ajudar, ou em questionar de forma argumentativa minhas posições. Os comentários editoriais são escondidos dos leitores não-cadastrados, mas de forma geral, posso dizer que o artigo foi aceito mais para movimentar a capa do K5 do que por seus próprios méritos. Os comentários mais entusiasmados saudaram o fato de ser uma visão diferente, não os fatos narrados em si.

14 de setembro de 2006, 15:28 | Comentários (23)

stalinismo na banca de revistas

O jornaleiro e estudante de história Fábio Marinho, de Porto Alegre, parou de vender as revistas Veja, Época e a falecida Primeira Leitura. A gota d'água foi uma reportagem do semanário da Abril sobre Hugo Chávez em que " tudo era escrito num tom muito ofensivo, sem o menor respeito por um presidente de Estado, de uma nação soberana, eleito pelo voto popular". O semanário da Globo e o do PSDB foram barrados por "perseguir" o governo Lula. A parte mais educativa da entrevista é a seguinte:

Isso não pode prejudicar o seu trabalho, visto que a Veja é uma das publicações mais vendidas e que, portanto, gera grande retorno à banca?

Sobre perder vendas, bem, entre ganhar dinheiro com a Veja ou perder algumas vendas e contribuir para que os meus clientes descubram a Caros Amigos, a CartaCapital, a Reportagem, fico com esta segunda opção, sem falar no componente ético que em mim é muito forte.

É isso aí. Como todo bom estudante de história, Marinho é comunista. E como todo bom comunista, pensa saber o que é melhor para os outros. E pretende fazer com que o tenham, gostem ou não. Mas, evidentemente, os clientes da banca são pobres alienados, incapazes de decidir por si mesmos qual revista faz o melhor jornalismo, não é? O pior de tudo é ver gente que deveria proteger a pluralidade no jornalismo apoiando essa bobagem. Na praça em Berlim onde uma placa lembra a queima de livros de judeus e "escritores decadentes" pelos nazistas, há ao lado uma frase do poeta Heinrich Heine: "lá, onde se começa a queimar livros, ao final se está queimando homens".

22 de agosto de 2006, 22:08 | Comentários (41)

notícias do exílio em moscou

Agradeçam a Daniel Pellizzari por ter descoberto a Exile, uma publicação feita por norte-americanos residentes em Moscou. Apesar do foco na Rússia e suas relações com os Estados Unidos, os artigos são muito bons e interessam aos geeks em geral. America needs Thorazine!, apesar de antigo, continua válido e é um bom exemplo do humor dos redatores. Lendo a versão eletrônica, descobre-se que a campanha do Dove, que se pretende um prêmio de consolação para a "miss simpatia", deu errado por lá também. E qual jogador de War nunca quis saber como é Vladivostok? Especialmente interessante também é War Nerd, uma coluna sobre guerra escrita por Gary Brecher.

12 de agosto de 2006, 12:09 | Comentários (12)

morde e assopra

A mídia costuma fazer um carnaval em torno de crimes que envolvam a Internet de alguma forma. Se torcidas combinam confrontos pelo Orkut, o foco recai no Orkut, não nas causas da guerra entre fãs de futebol. Se uma mulher é assassinada pelo namorado que conheceu via site de relacionamentos, a ênfase é nisso, deixando-se de lado o fato de que muitas mulheres são mortas por homens que conheceram no mundo "concreto". Não é o caso da reportagem sobre o adolescente gaúcho que se suicidou com ajuda de um fórum online.

É um dos poucos casos em que o uso da Internet parece de fato ter influenciado de forma decisiva no desfecho. O adolescente era depressivo e talvez planejasse se suicidar de qualquer modo, mas no tal fórum contou com incentivo de outros participantes. Descreveu todos os seus passos até o momento da morte. Ninguém tentou demovê-lo da idéia. Pode-se inferir que, se fosse tentar obter as mesmas informações e incentivos com amigos na rua, não teria conseguido. Teria soado um alerta entre as pessoas de sua relação e talvez pudesse ter sido salvo. Mas talvez não.

Por outro lado, o próprio fato de usar um fórum gerou uma tentativa de salvação: uma canadense viu as mensagens e avisou a polícia de Toronto, que avisou a Brigada Militar em Porto Alegre. Infelizmente, muito tarde. A matéria é equilibrada ao apontar este fato e ao lembrar que na rede há de tudo, coisas boas e más. Evita a histeria dos pais, garantindo que o rapaz era doente. Nenhuma das entrevistas com psiquiatras propõe a restrição da liberdade de navegação a todos os jovens, mas apenas àqueles doentes. Parabéns ao repórter Carlos Etchichury.

10 de agosto de 2006, 16:12 | Comentários (14)

menos é mais

Para não dizerem que aqui só se critica, mas não se elogia: o jornal está dando um baile na RBS, e em especial na Zero Hora, com sua cobertura do escândalo nas licitações para o DMLU. De fato, quem se interessa pelos assuntos da política municipal só tem o pequeno jornal de Elmar Bones para recorrer. A RBS até noticia, mas sem profundidade. Talvez porque o prefeito Fogaça seja da turminha de Antônio Britto, ídolo político dos Sirotsky. Aliás, desistam também de ler sobre desmandos imobiliários nas páginas de Zero Hora e telejornais da RBS, porque a família está ligada a uma incorporadora, a Maiojama.

10 de agosto de 2006, 10:35 | Comentários (16)

sindicato dos jornalistas não existe

Sinto-me compelido a responder em público à circular do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, pedindo apoio a um projeto de lei completamente idiota, que exige diploma até de cinegrafistas. Francamente, um cinegrafista vai aproveitar como as aulas de Estatística ou Teoria da Comunicação? E quem vai se dispor a fazer faculdade por quatro anos para ganhar a merreca que um cinegrafista ganha, esmola ainda mais ofensiva do que o piso dos jornalistas? Quem sabe, o pessoal da Fenaj.

O projeto também exige diploma dos comentaristas. Ou seja, enquanto deveriam estar aprendendo sobre alguma coisa qualquer, para poder comentá-la depois, os especialistas terão de passar quatro anos aprendendo a redigir reportagens, editar uma página de jornal ou revista, produzir um telejornal. Salta aos olhos a utilidade deste conhecimento para quem só pretende dar uma opinião embasada sobre coisas que os jornalistas não têm tempo de entender, porque estão preocupados em editar páginas, redigir suas matérias ou produzir um telejornal. A Fenaj diz que o projeto prevê a figura do colaborador, especialista que poderia fazer os tais comentários. Mas então, qual a importância disso, se fica tudo na mesma?

Finalmente, o projeto exige diploma de professores de técnicas jornalísticas. Isso implica que professores de fotografia, cinegrafia, edição de audiovisual, diagramação, deverão todos ser formados em jornalismo. Infelizmente, muitos dos profissionais mais talentosos nessas áreas não são jornalistas e provavelmente não têm motivo algum para tirar outro diploma. Os prejudicados serão os alunos, óbvio, que poderão ser privados de aprender com bons técnicos. Não apenas essa determinação promete trazer prejuízos à formação dos repórteres — cuja melhora é o objetivo principal do projeto — como atenta seriamente contra o debate de idéias na universidade e, enfim, contra qualquer visão esclarecida do que seja a educação.

O Sindicato fez circular uma mensagem em que pede aos jornalistas e "simpatizantes" que encaminhem com seu nome ao presidente da República, à Casa Civil e a outros órgãos do Governo Federal. Carta que aliás continha um erro, o verbo "apoio" sem acento na primeira pessoa do singular. Já se vê o quanto o diploma ajudou esse pessoal. A íntegra está abaixo, citarei só os melhores momentos:

Chegou a hora dos verdadeiros jornalistas se mobilizarem.

Assim, verdadeiros tipo os aspones que mamam na porcentagem cobrada sobre o salário de cada jornalista empregado do Estado, em troca de arriar sempre as calças para os patrões?

Trata-se de uma antiga reivindicação da categoria no sentido de avançar em sua organização e atualizar sua regulamentação profissional.

Nunca precisei de nada disso para conseguir emprego.

...longo processo de discussão e luta da FENAJ, dos Sindicatos de Jornalistas de todo o país e dos profissionais que se organizam em torno deles.

Ninguém me perguntou nada. E eles têm meu email. Poderiam ter feito uma consulta antes de sugerir essa carta aberta.

Passou por todas as instâncias de debates e deliberações destas entidades.

Ou seja, foi aclamada pelos "verdadeiros jornalistas" acima, como forma de aumentar a amplitude da mamata, incluindo fotógrafos, cinegrafistas e comentaristas.

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18 de julho de 2006, 10:33 | Comentários (23)

aviso aos navegantes

Na segunda-feira passada, uma mocinha informava a um cliente que o AeroGuion, cinema do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, só apresenta o filme caso haja ao menos três pagantes. Infelizmente, isso não é informado no jornal. Sugere-se telefonar antes de se abalar até o aeroporto: 3358-2620. Por telefone, a atendente confirmou que ao menos o cinema abona o estacionamento, caso o filme não seja apresentado.

17 de julho de 2006, 17:56 | Comentários (4)

determinismo tecnológico

Os jornalistas adoram eleger alguma tecnologia para culpar pelos problemas da humanidade. Primeiro foi a televisão, depois os videogames os responsáveis por atos de violência cometidos por jovens. Agora, é o Orkut.

Um sujeito do interior de São Paulo estava inconformado com o fim do namoro. Decidiu matar a ex-namorada. Para levar o plano adiante, foi pedir conselhos sobre armas em uma comunidade da rede de relacionamentos. Isso foi descoberto e começaram as matérias do tipo rapaz que matou namorada pediu informações no Orkut.

Será que se ele tivesse se informado em uma biblioteca, ou comprado um livro, ou mesmo usado o Google, renderia uma reportagem? Os editores criariam um fórum perguntando o que as pessoas acham da existência de livros sobre armas? Entrevistar um psicólogo ou psiquiatra, é claro, nem pensar. Afinal, eles provavelmente diriam que o problema está no rapaz, claramente um psicopata, não no Orkut, na televisão ou nos videogames.

4 de julho de 2006, 9:51 | Comentários (5)

plágio em carta capital?

No dia 26 de setembro de 2001, a revista Carta Capital publicou uma capa em que George W. Bush era retratado como Alfred E. Neuman. O problema é que a revista The Nation publicou a mesma capa pelo menos antes de fevereiro do mesmo ano, como uma busca por "cover" e "neuman" comprova.

Compare:

nation_vs_carta.jpg

A revista de Mino Carta ganhou diversos prêmios por esta capa, um deles recentemente. Em abril foi enviado um email à redação, questionando a semelhança. O prêmio recente o trouxe de volta à memória e no dia 24 de junho outro email pedindo explicações foi enviado à revista. Ambos foram ignorados.

30 de junho de 2006, 15:59 | Comentários (10)

celular novo

parada_chuva.jpg

Estudantes de Odontologia se protegem com guarda-chuvas do inevitável banho quando algum ônibus encosta na parada do Instituto de Educação, na Osvaldo Aranha. Os Viamão sempre encharcam, os da Carris costumam ser mais educados. Em todo caso, por que a Prefeitura não usa concreto nos corredores, material que não cria valetas em dois dias de uso, como o asfalto?

27 de junho de 2006, 10:46 | Comentários (8)

se passaram

Alguém mais achou uma baita sacanagem o pessoal do Fantástico de hoje botar surdos a fazer leitura labial do Parreira?

Em primeiro lugar, as declarações não foram concedidas em entrevista ao programa. Registrar declarações de alguém sem esta pessoa saber, sem dar chance de cuidar do que diz, é, no mínimo, pouco educado. Se fosse de interesse público, até se poderia apelar para este tipo de expediente policialesco, mas não é o caso. O que o técnico da Seleção diz em campo não faz a menor diferença. Ou seja, não há justificativa jornalística. Totalmente anti-ético.

Em segundo, imaginem se o técnico pára de falar o que tem de falar em campo, com medo de ser traduzido novamente? Pode até prejudicar o time, vai saber. O Parreira é um sujeito muito discreto. Se fosse o Felipão, ele não ia dar a menor bola. Aliás, dificilmente se meteriam a fazer algo assim com ele: não teria medo de revidar.

26 de junho de 2006, 0:18 | Comentários (19)

malditos terroristas infames

Galvão Bueno e Ana Maria Braga discutindo futebol na noite de domingo. Isso não seria motivo suficiente para cassar a concessão da Globo? Nessas horas, o pessoal do Quem financia a baixaria é contra a cidadania não se apresenta. Nem a ONU, aliás. Juntar esses dois apresentadores certamente é crime previsto na Convenção de Genebra.

19 de junho de 2006, 0:17 | Comentários (2)

palhaçada tem limite

Alguém precisa dar um jeito na revista Veja.

17 de maio de 2006, 14:58 | Comentários (3)

jornalista que não se comporta vai pro inferno

No primeiro círculo, os superficiais são condenados a escrever coisas sem sentido pela eternidade. Os inexatos tateiam no escuro através dos éons. Os tendenciosos gritam "sim" ou "não" uns para os outros. Os arrogantes, que se crêem intocáveis, ficam pendurados tentando alcançar o teclado. Os sensacionalistas gritam em altos decibéis. Os pelegos ficam ao sabor do vento. Os carreiristas, perseguem notas de dólares como os burros fazem com as cenouras. Conheça o inferno dos jornalistas.

Dica do Láudano.

9 de maio de 2006, 13:00 | Comentários (0)

duplipensar no final de domingo

O Fantástico deste domingo trouxe uma novidade incrível para os espectadores: estreou um quadro de reportagem! O jornalismo havia sido mandado para a geladeira do programa há algumas décadas, mas parece que a Rede Globo decidiu dar uma nova chance a esta prática anacrônica de preencher as ondas eletromagnéticas com conteúdo. De repente, é mais barato botar o Caco Barcellos com alguns focas indo atrás de pichadores, do que comprar matérias de agências internacionais ou criar pseudo-acontecimentos. Claro que, como se trata do Fantástico, todas as focas do quadro Profissão repórter são gostosas.

O quadro na verdade fez sua estréia em um Globo Repórter especial. Programa no qual, aliás, o jornalismo foi trocado por documentários do Discovery Channel há coisa de uma década.

8 de maio de 2006, 10:25 | Comentários (6)

house music junta 700 "chatôs" em hotel cinco estrelas

A Folha de São Paulo publicou uma excelente reportagem sobre uma festa de playboys no interior de São Paulo e o Gabriel Brust enviou por correio eletrônico. Além do ótimo texto do repórter Paulo Sampaio, faz um retrato da lamentável juventude bem-nascida brasileira. Leiam abaixo e vejam o que as boas escolas e o dinheiro fazem com as pessoas.

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27 de abril de 2006, 16:04 | Comentários (41)

desistam, escritores
This is not a vote in favour of the sort of literary navel-gazing that Mr Wolfe condemned. But it is a warning that it is almost impossible to outdo reality in a country as richly bizarre as the United States. Perhaps writers should leave those unfinished novels locked up in the drawer and content themselves instead with the humble craft of journalism.

É como sempre respondo quando perguntam se nunca mais vou escrever ficção. Jornalismo é muito mais divertido. Não se pode competir com a bizarrice do real.

Obrigado pela dica, Gallas.

15 de abril de 2006, 9:49 | Comentários (4)

o tempora! o mores!

Evidência da péssima educação e falta geral de interesse em cultura hoje em dia é o fato de os jornalistas se referirem às balaclavas como "toucas ninja". Ninguém é obrigado a saber que Balaclava é o nome de um lugar na Criméia, onde essas toucas foram usadas em batalha, mas poderiam ao menos se dar conta de que os ninjas não usam toucas.

13 de abril de 2006, 20:08 | Comentários (12)

lá onde a imprensa não vai

Mais um blog aparece para cobrir um buraco da imprensa. O Mordomia Futebol Clube fiscaliza a vida noturna de jogadores cariocas. Diz onde foram vistos, o que comeram, beberam ou fumaram. Obra de um torcedor do Flamengo, indignado com o desempenho pífio deste e de outros times, que levou o Madureira à final do campeonato estadual. Já teve reflexos na mídia, como se pode ver no blog.

Indicação do Depósito de Neuras.

7 de abril de 2006, 10:14 | Comentários (3)

i know what i like and i like a lot of it

Por que os norte-americanos são gordos.

31 de março de 2006, 10:06 | Comentários (6)

brasileiro tem memória curta

Não custa lembrar: em abril de 2005 o Parada revelou em seu antigo blog um outro caso de entrevista montada, com Woody Allen, na mesma IstoÉ, pelo repórter Osmar Freitas Jr.

30 de março de 2006, 12:31 | Comentários (2)

como se fazem as salsichas

Se alguém tinha alguma dúvida de que a IstoÉ deixou de fazer jornalismo — ou ao menos jornalismo sério —, deve ler a carta aberta do ex-editor de política da sucursal de Brasília a um tal José Carlos Marques, diretor editorial. Nela, Luiz Cláudio Cunha expõe a cozinha infestada de ratos e baratas da revista que já teve Mino Carta na chefia. São acusações graves de montagem de fotos, esquentamento de coletivas e até mesmo atribuição de frases a um ex-presidente da república.

É uma rara oportunidade de ver como são feitas as salsich... — perdão! — as reportagens. O caso da revista de Domingo Alzugaray é extremo, mas vícios como os descritos por Cunha, em especial os executivos ignorantes que posam de jornalistas, estão presentes em todos os veículos. Na melhor das hipóteses, é preciso conviver com repórteres que, como qualquer ser humano, em certos momentos estão cansados, doentes ou sem saco de trabalhar, o que leva a erros involuntários. Como diz meu amigo Daniel Gallas, existe um tripé de problemas sempre encontrável nas redações: chefes malucos, falta de dinheiro e má administração dos recursos.

Obrigado, Brust.

29 de março de 2006, 18:15 | Comentários (7)

o bom de ser velho é poder fazer o que quiser

Lima Duarte comanda a vala em entrevista à Folha de São Paulo — reproduzida na íntegra abaixo, caso o jornal resolva fechar o conteúdo ou tirar do ar. Aos 76 anos, deve ter decidido que era hora de dizer tudo o que sempre quis, antes de morrer. Não tem muito que a Globo possa fazer contra ele, nem ninguém mais. Tem dinheiro suficiente para o resto da vida e consegue emprego onde quiser.

Os melhores trechos:

O Fantástico transforma qualquer opinião em merda, a edição é calamitosa. A da Globo de modo geral.

[...]

Odeio Lula porque faz uma glamourização da ignorância, contra o que tenho lutado a vida toda. Também sou "analfa", fui criado como ele na roça, mas, puxa vida, descobri o encanto por trás da palavra escrita, a magia. Num país carente de conhecimento, ele não pode ter esse procedimento. É um imbecil, um idiota, um ignorante. Quando ia ao cinema, ia com o cachorrinho no colo. Para quê?

[...]

Faço esse do Whiskas [ração para gato]. Mas pagam muito mal ao ator, é mixaria. Faço um também com a Irene Ravache, aquele de pele. Ah é, Natura. É uma porcaria proporcionalmente ao que ganho. Não gosto, é meio aviltante, não? Contraria seu personagem, tem de pegar direito, virar o rótulo para a câmera. E fica lá a garota do merchandising dizendo como fazer a cena. Pergunto: "Não é o diretor que manda?". E os diretores ficam quietos.

[...]

Cheguei a SP num caminhão de manga. Tinha 15 anos, meu pai disse: "Atimbora", como Guimarães Rosa. Percebeu que eu estava pronto. Nas primeiras noites, dormi embaixo do caminhão. Até que um amigo me convidou para ir à zona. Eu: "Mulher, a coisa propriamente dita?!". Era acostumado com bananeira, bezerro, esses negócios da roça.

[...]

Na reinauguração do Cristo Redentor, fui apresentar a cerimônia. Com uns 90 anos, o doutor Roberto tinha quebrado a perna. A Globo armou uma liteira com quatro negros para carregá-lo.

A entrevista confirma muita coisa que se diz por aí sobre a maneira como são feitas as salsichas na maior emissora do país. Interessante sobretudo este último trecho, muito eloqüente sobre a visão de mundo dos chefes. Em favor do doutor Roberto, diga-se que se recusou a subir na liteira.

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27 de março de 2006, 10:59 | Comentários (15)

ê, provincianismo

Ele foi o primeiro empresário de comunicação do país a fazer a regionalização. Além disso, se preocupava com a comunidade. Sabia que a educação era a única forma de ajudar as crianças carentes — Cristina Ranzolin.

Faz falta aquela presença amiga, boa-praça, que trazia alegria para onde quer que fosse — Paulo Sant'anna.

Está de fato comovente a rasgação de seda pelos 20 anos da morte do "jornalista" Maurício Sirotsky Sobrinho, fundador da RBS. Nada menos que metade do Jornal do Almoço foi gasto nisso. Dá vergonha pelos jornalistas que trabalham lá.

24 de março de 2006, 12:40 | Comentários (14)

napalm neles!

Outro crítico que realmente critica é o Paulo Roberto Pires.

21 de março de 2006, 10:45 | Comentários (5)

mais uma boa revista termina

O Semana 3, infelizmente, chegou ao fim, informa o Parada. Lá tive uma ótima experiência como jornalista: a obrigatoriedade de preencher um espaço fixo com prazo determinado. Incentivou meu interesse pela gastronomia, que levou inclusive à criação do Garfada.

Os motivos que nos levaram a interromper a publicação são vários, mas o fator principal que nos impede de continuar tocando é, claro, o financeiro. Não há publicação de qualidade que resista sem um monte de dinheiro por trás, isto é, bons e fiéis anunciantes. Ponto.

É dose. Tivemos o mesmo problema com a falecida Type. Como no caso da revista campinense, não faltavam repórteres e colunistas com bom texto e pautas interessantes. Faltaram foi leitores, problema de qualquer revista no Brasil, e anunciantes capazes de apostar em uma publicação nova.

20 de março de 2006, 12:22 | Comentários (4)

chega de artista boêmio!
Quaaaaaaaaaaaaantas conversas perdidas em projetos mirabolantes e nunca colocados em prática? Um dia ainda vão descobrir que o maior inimigo das grandes obras são as mesas de bar. Lá tudo é discutido, tudo é pensado e articulado, mas absolutamente nada é feito porque em vez do cara ir fazer, no outro dia ele tá de volta na mesa do bar.

Tá bom, estou desconsiderando toda uma tradição de artistas boêmios que se reuniram em mesas de bar para revolucionar seu tempo. Mas talvez a diferenças entre os grandes aristas e nós é que eles voltam bêbado pro atelier e trabalham enquanto a gente cai bêbado na cama preguiçosamente.

Uma vez o professor Paulo Seben, ex-alcoólatra, comentou em uma entrevista sobre a influência do álcool no processo criativo: "Se tal artista não bebesse, provavelmente seria ainda mais genial". Na verdade, Mini, não é que eles cheguem em casa e trabalhem: é que, como qualquer publicitário, jornalista ou metalúrgico, um artista também tem seus momentos de preguiça e muitas vezes os dedica ao álcool. E isso só não o impede de se tornar um artista importante quando ele é realmente genial.

Durante as entrevistas para esta matéria publicada na revista Aplauso, alguém comentou que a maconha também não funciona muito bem, acrescentando: "já tentou tomar uma decisão sob efeito de maconha?". Não entrou na redação final.

Indicado pelo Firpo.

14 de março de 2006, 15:44 | Comentários (5)

às vezes cabe elogiar

A Zero Hora até que está fazendo um bom trabalho na cobertura do março vermelho. Só seria legal se fizessem o mesmo esforço de reportagem para explicar ao cidadão se, afinal, as terras invadidas em Coqueiros do Sul são produtivas, ou não, caso em que a invasão teria ao menos um bom motivo.

Ao contrário, por sinal, da destruição das instalações da Aracruz por mulheres da Via Campesina. Essa foi definitivamente um tiro no pé. Talvez a partir deste evento a maneira como as pessoas enxergam os movimentos de sem-terra no Brasil sofra uma inflexão no sentido negativo. Até agora, ainda havia quem simpatizasse com o movimento, ou ao menos reconhecesse algum fundo moral nas ações, devido ao centenário problema de exclusão social no Brasil. Após ver a pesquisadora responsável pelo laboratório depredado chorar em frente as câmeras após perder o trabalho de 20 anos, porém, é impossível manter qualquer traço de simpatia pelo MST, Via Campesina, ou qualquer coisa do gênero.

Foi um tiro no pé a ação, porque finalmente há um mártir para o lado dos produtores rurais e empresários. Os movimentos de camponeses sempre tiveram heróis mortos em batalha para exibir à mídia e ao menos quebrar um pouco da má-vontade da população, notoriamente sensível ao mais fraco no Brasil. Agora, há uma cientista, pessoa produtiva da sociedade, com a vida destruída. E como Billy Wilder ensinou em A montanha dos sete abutres, mil chineses mortos valem menos que um rosto reconhecível preso em uma caverna.

13 de março de 2006, 22:42 | Comentários (38)

plano de dominação mundial avança

O Garfada é um dos casos citado em uma reportagem da Zero Hora de hoje sobre pessoas que produzem conteúdo na WWW. É preciso se cadastrar gratuitamente para ler.

Está bastante boa a matéria, dá um apanhado amplo dos recursos que a rede mundial de computadores oferece a quem tem algo a dizer. Duro é ver um guri de 12 anos dar uma declaração melhor sobre os motivos para publicar um blog do que um mestrando na área: "Quando a gente vai pesquisar algum assunto na Internet, é bom que tenha site com o conteúdo que procuramos. Fazendo o nosso próprio site, é uma forma de contribuir com isso." Meu orientador ficará decepcionado.

14 de dezembro de 2005, 10:29 | Comentários (3)

de bonner para homer

Deixando-se de lado o fait-divers irônico de que William Bonner se refere ao espectador presumido do Jornal Nacional como Homer, este artigo de um tal Laurindo Lalo Leal Filho, da ECA/USP, é de uma covardia sem tamanho. Reclama do jornalismo feito pelo JN, mas tem um dos piores vícios do jornalismo: tirar as coisas de contexto.

Se há uma crítica bem feita, é a de ninguém contestar as decisões editoriais de Bonner nas reuniões de pauta do telejornal. É papel de cada editor defender as idéias em que confiam até a morte. No fundo, a culpa da apatia é mais deles do que do chefe. No entanto, quando o doutor enxovalha Bonner por defenestrar uma pauta sobre a venda de combustíveis da Venezuela aos pobres dos EUA com a frase "o Homer não vai entender", está errado. Sobretudo porque compara esta pauta com a do juiz que mandou soltar criminosos condenados em Minas Gerais. Prova não ter jamais pisado em uma redação. Se pisou, não aprendeu nada.

As decisões no jornalismo são tomadas de forma