Comentários sarcásticos, crítica vitriólica e jornalismo a golpes de martelo por Marcelo Träsel


erramos

Chamei os governantes do Brasil de assassinos por causa do acidente com o avião da TAM em Congonhas. Muita gente criticou o oportunismo da acusação. Tinham razão. Lula e seus assessores não são assassinos, são desumanos, como mostra esse vídeo. Sabe-se que somente seres humanos têm discernimento moral e, portanto, noção de que deixar seus semelhantes morrerem por omissão é assassinato, no fim das contas. Estava errado e peço desculpas.

20 de julho de 2007, 0:36 | Comentários (28)

fim da discussão

Em um exemplo de bom jornalismo, o UOL comprovou que Azeredo prega moral de cuecas. Seu tão querido projeto de lei exige que seja pedida autorização do internauta antes da instalação de um cookie, mas a página pessoal do senador faz isso sem avisar.

Há duas possibilidades:

— Azeredo está tentando passar esse projeto sem saber do que está falando, por isso não se deu o trabalho de adequar sua página a um projeto de Lei que tem tentado emplacar há anos.

— Azeredo sabe muito bem o que está fazendo, mas como o faz apenas para agradar aos seus patrocinadores, não se preocupou em adequar sua página a um projeto de Lei que tem tentado emplacar há anos.

Escolha conforme suas convicções a respeito do senador. De qualquer modo, parece que isso encerra a discussão sobre mais esse projeto inútil proposto por um parlamentar brasileiro.

23 de maio de 2007, 15:08 | Comentários (7)

não aprendem nunca

O projeto do senador Eduardo Azeredo que tipifica os crimes praticados na Internet voltou das cinzas. Para quem não lembra, Azeredo virou motivo de chacota por causa de sua idéia de identificar os navegantes toda vez que praticassem alguma "operação interativa" — mandar e-mails, acessar o MSN, publicar comentários em blogs etc.

A idéia impraticável de identificar os internautas foi retirada do projeto, mas ele continua apresentando um festival de imbecilidades. Por exemplo, cria um amparo legal para "legítima defesa" na Internet, dando licença a "profissionais de segurança da informação" para interceptar dados e invadir redes, caso se sintam ameaçados. Isto é, legitima grampos em correio eletrônico, instant-messengers e outras formas de transferência de dados a pessoas que nem mesmo são policiais. Na prática, os administradores de sistemas ganham o direito de decidir quais redes e indivíduos são criminosos e puni-los imediatamente, contra-atacando.

O projeto também exige que os provedores avisem às autoridades quando notarem indícios de crimes ocorrendo em suas redes. Só não explica quem vai pagar pelos custos dessa vigilância, nem por que a própria polícia não pode investigar os crimes, para variar.

E nem vale a pena entrar no mérito de se criar nomes para crimes no ciberespaço, quando a maioria deles já tem algum correspondente no Código Penal. Roubo de senhas mediante o uso de e-mail falso para tirar dinheiro da conta do cidadão, por exemplo, pode ser enquadrado em fraude, estelionato e/ou roubo. Calúnia, difamação e injúria continuam sendo calúnia, difamação e injúria, seja num jornal ou rádio, seja num blog.

Resumindo: temos um senador da República, eleito pelo povo, propondo a criação de um vácuo no Estado de Direito e querendo jogar a responsabilidade pelo policiamento da rede no cidadão. E isso parte de um sujeito envolvido nas falcatruas eleitorais do Valerioduto e que recebeu doações de empresas ligadas ao setor bancário, o maior interessado em ver um controle maior da Internet.

22 de maio de 2007, 18:27 | Comentários (11)

celebridades adoram enxugar gelo

Roberto Carlos conseguiu proibir sua biografia não-autorizada. A editora, Planeta, preferiu fazer um acordo a defender o trabalho de Paulo César Araújo. Não sei se é uma boa biografia. Não sei se os fatos narrados são exatos ou caluniosos. Na verdade, não dou a mínima para o Roberto Carlos, que é uma versão diluída do Michael Jackson — ex-bom músico que virou cantor brega e tem excentricidades exploradas pela mídia — e, portanto, pessoa irrelevante.

Mas me interesso pela comunicação em redes digitais, daí o caso todo fica muito interessante, porque, apesar de proibido, o livro está disponível na rede. Poucos dias depois da proibição, arquivos variados com o conteúdo completo da biografia pipocavam pela Internet, criados provavelmente usando um scanner em conjunto com um programa de reconhecimento de escrita.

O caso Daniella Cicarelli deveria ter mostrado às celebridades que o melhor na sociedade da informação é ficar quieto sobre assuntos constrangedores. Eu, por exemplo, jamais pensei em ler essa biografia. Agora estou curiosíssimo para ler e descobrir o que incomodou tanto o cantor. E acho que muitos dos meus 500 leitores diários também ficarão.

15 de maio de 2007, 22:58 | Comentários (16)

faroeste

Fazer sociologia barata com o boletim de ocorrência dos outros é refresco, então nada melhor do que um assalto básico para ver até que ponto vão minhas convicções a respeito de como se deve proceder com o problema do crime.

Pois bem: desço do carro de minha mãe para deixar um envelope num prédio, no bairro Auxiliadora. Estou falando ao celular. Quando chego do outro lado da rua, vejo com o canto do olho dois homens se aproximando do veículo. Nesse momento, minha mãe começa a gritar e fico meio abobalhado. Quando consigo me recompor e faço menção de ver o que está acontecendo, um sujeito de boné vermelho me aponta uma arma prateada por cima do carro. A única coisa em que consigo pensar é "como posso impedir esses caras de levarem minha mãe?". Felizmente, não estavam interessados nela. Arrancaram e se mandaram com uma bolsa cheia de documentos e duas ou três sacolas de roupa suja — inclusive algumas camisetas compradas em viagens, das quais sentirei muita falta. Ninguém se machucou, ao menos.

Telefonamos para o 190 e uma viatura da Brigada Militar [vazando litros de óleo do motor] chegou em 15 minutos. Foram atenciosos, mas não deram falsas esperanças. Um dos policiais informou que, dali, a rota mais óbvia seria descer a Terceira Perimetral, pegar a BR e ir para Esteio ou Sapucaia. Disse que em geral eles põem um carro para vigiar a rótula que leva ao aeroporto. Perguntamos se tinham feito isso e ele riu meio sem jeito, contando que a única viatura disponível para isso era aquela em que ele chegou até o local do crime.

Folgo em declarar que minhas convicções seguem intactas. Nenhum sentimento de vingança contra os bandidos. Não sou imbecil, obviamente, e tenho certeza de que eles são lixo humano, mas não consigo achar que são o problema principal. O problema não é dois malandros apontarem uma arma para minha mãe e levarem o carro dela. Não, o problema de verdade é esses e outros malandros ficarem soltos, porque o Estado é inoperante. E o Estado é inoperante porque o brasileiro tem pouca fibra moral, como se dizia antigamente. Ainda por cima, acha que os governantes que deixam as coisas chegarem a esse estado brotaram nos cargos por geração espontânea, a falta de participação política e ignorância grassante não têm nada com isso.

Lidar com o crime com sede de vingança é piorar a situação. A bandidagem só age livremente por culpa do Estado — aliás, falta dele — e da mania de achar que o governo são os governantes, e não o povo que os elegeu. Não há diminuição da maioridade penal e protesto de branco que dêem jeito nisso. Só queimando Brasília, mesmo.

Bem... Certo, certo, eu não tenho tanto sangue de barata assim. Toda vez que algo do gênero acontece comigo ou perto de mim, penso em uma solução mágica para o problema social da violência, não muito melhor do que jurar vingança contra todos os pretos e pobres ou fazer manifestações inúteis: emigrar. Ir morar em Berlim, onde se pode andar na rua a qualquer hora do dia ou da noite sem medo de ser assaltado. E onde mandatários que deixassem as coisas chegarem a esse ponto estariam sendo enforcados em praça pública.

26 de fevereiro de 2007, 1:01 | Comentários (43)

exemplo para o mundo

Lula tem razão, o Brasil tem muito mais a ganhar com intercâmbios Sul-Sul do que Sul-Norte. Pode, por exemplo, transferir tecnologia jurídica para a Índia, cujo governo anda às turras com o YouTube por conta de um vídeo de Gandhi fazendo strip-tease. Ah, sim, Brasil e Índia também poderiam trocar técnicas para eliminação do senso de humor.

14 de janeiro de 2007, 14:00 | Comentários (7)

mea culpa além de burra, mentirosa

Ora, parece que devo desculpas à Cicarelli pelo achincalhe. Já as críticas ao desembargador e à burocracia nacional como um todo seguem válidas.

A modelo-e-apresentadora e agora atriz pornô praiana Daniella Cicarelli mentiu, seu nome consta no processo contra o YouTube, sim. Ela diz que lembrar do caso é "superdolorido". De fato, fricção na área genital com areia de praia não deve ser nada agradável. Ela também comentou a impagável campanha contra a dengue da Secretaria de Saúde gaúcha.

É muito burra, mesmo. Como achou que, com toda essa publicidade, ninguém acabaria descobrindo? Já este blogueiro é um tanto ingênuo.

10 de janeiro de 2007, 9:58 | Comentários (22)

parabéns, cicarelli

Este post deveria informar aos caros leitores que, devido à premência dos prazos, este blog está em recesso até o depósito de minha dissertação de mestrado. Espero que isso aconteceça antes da data limite, dia 28 de fevereiro.

A premência dos acontecimentos, no entanto, exige que se faça aqui um registro: parabenizamos a senhora Daniela Cicarelli pelos esforços em legitimar todos os estereótipos de modelos-e-apresentadoras como pessoas frívolas e imbecis. Senão, vejamos: primeiro, casa com o pobre Ronaldo em um palácio chamado Chantilly e separa-se apenas 86 dias depois, supostamente recebendo R$ 15 milhões de indenização — o que daria R$ 7.267 por hora. Depois, transa em uma praia da Espanha à vista de todo mundo, inclusive de um papparazzo, e fica irritada quando o vídeo é publicado. Em vez de ficar quieta e deixar o assunto morrer, resolve entrar na Justiça e causar um bloqueio do YouTube para os clientes da BrT. De quebra, incorre na ira dos internautas e consegue, praticamente sozinha, colocar o Brasil na companhia de países inimigos da Internet como Cuba, China e Irã.

Menção honrosa, aliás, para o desembargador Ênio Santarelli Zuliani, que demonstrou incrível ignorância sobre o funcionamento da rede mundial de computadores. Nem vale a pena comentar aqui as conseqüências — ou falta delas — da decisão, porque outros blogueiros já o fizeram muito bem. Ressalte-se apenas que, mais uma vez, a burocracia nacional dá mostras de não estar acompanhando o desenvolvimento da mais importante tecnologia da última década. Pior, parece nem ter feito o exame mais superficial da Internet. Como um entrevistado bem lembrou em um telejornal há pouco, a rede foi criada justamente para impossibilitar o bloqueio de informações. Menção honrosa merecem ainda os assessores da modelo-e-apresentadora, por deixarem que entrasse em uma roubada como essa.

Enfim, é isso aí: uma grande corrente pra frente no sentido de transformar o Brasil em chacota entre os geeks e nerds.

ATUALIZAÇÃO: agora já são muitos mais os bloqueados, informa o Solon.

9 de janeiro de 2007, 0:33 | Comentários (31)

bananão voador

A baderna no transporte aéreo brasileiro já estava ridícula o suficiente quando era apenas o Estado a fazer bobagens. Agora que a iniciativa privada decidiu quebrar o monopólio e investir no caos, a coisa toda está ficando inacreditável. É um nível de negligência só encontrado em lugares como o Brasil. Se a auditoria confirmar o overbooking, TAM pode ficar com danos à imagem mais irreparáveis do que os causados pelos constantes acidentes. De fato, pode ser soterrada sob uma avalanche de processos por danos morais. São uns irresponsáveis. Um diretor apareceu na televisão pedindo desculpas aos passageiros. Eles talvez preferissem que ele cometesse seppuku.

25 de dezembro de 2006, 23:49 | Comentários (22)

encha o saco do seu deputado

Envie um e-mail para todos os parlamentares e proteste contra o absurdo aumento de quase 91% nos próprios salários. Aproveite e também participe deste abaixo assinado.

O ideal seria ir até Brasília queimar o Congresso, mas com o caos nos aeroportos o protesto tem de ser virtual, mesmo.

19 de dezembro de 2006, 10:05 | Comentários (4)

contribuinte morto não paga
Costuma-se dizer que, no Brasil, para cada real arrecadado um outro real é sonegado. É possível que não seja exatamente essa a proporção, mas dificilmente alguém duvidará de que sonegar impostos é um dos esportes nacionais mais praticados. Vamos então supor que essa relação de um para um seja verdadeira e que, por algum milagre, tudo o que, pela lei, de fato deve ser recolhido em impostos, taxas, tributos e contribuições venha a pingar nos cofres públicos de um dia para o outro.

O que aconteceria? Obviamente, a carga tributária dobraria, alcançando monumentais 80% do PIB. Mas isso não significaria um grama de aumento de carga para os que já recolhem e, simplesmente, implodiria o déficit público, com todas as vantagens do equilíbrio fiscal.

Agora, imagine um corte drástico e linear nos impostos diretos e progressivos sobre a renda individual. Isso, num primeiro momento, aliviaria a vida de todos os que ganham o suficiente para não serem isentos de recolhimento do imposto de renda. Mas, é lógico, favoreceria proporcionalmente mais quem ganha mais. O resultado seria um colapso econômico, com estímulo à produção de bens supérfluos e a falência definitiva de serviços públicos tipo segurança, controle ambiental, pesquisas etc.

O economista José Paulo Kupfer combate o festival de besteiras a respeito da carga tributária que tem assolado a mídia. Mostra que na economia, como em qualquer outra área, nada é tão simples assim. Não que qualquer pessoa em sã consciência possa ser a favor de impostos mais altos, mas há tributos e tributos, e alguns são justos.

22 de novembro de 2006, 11:04 | Comentários (10)

moral da educação está baixa

O Ibope fez uma pesquisa sobre educação básica, aferindo seu lugar entre as prioridades do Brasil na visão da população. Ficou em sétimo. Em primeiro lugar está a saúde [43%], em segundo o emprego [41%], em terceiro, fome e miséria [31%]. À frente da educação básica, que ficou no topo da lista para apenas 15% dos entrevistados, ficaram ainda a segurança pública, corrupção e até drogas. Um dado pitoresco é que a cultura vem em 24º lugar, com 1% de votos.

É interessante notar que todos os problemas citados antes da educação poderiam ter seu impacto reduzido significativamente, se os brasileiros tivessem acesso a boas escolas. Qualquer médico pode atestar que muita gente tem problemas de saúde por ser ignorante. Ao mesmo tempo, cada vez mais empresários têm reclamado que não conseguem preencher vagas por causa da má qualificação dos candidatos. Isso tem relação direta também com a miséria. Os problemas sociais evidenciados na corrupção, crime e uso de drogas também podem ser mitigados pela educação, seja garantindo perspectivas e emprego às pessoas, seja ensinando a elas como fazer valer seus direitos de cidadão.

Não que a educação possa resolver tudo, mas note-se que combater de forma isolada qualquer um dos problemas listados nas primeiras posições não necessariamente influencia os outros seis, enquanto a educação é o único que influencia a todos sem sombra de dúvida. O pior dado, entretanto, indica que as pessoas que mais precisam da educação não têm capacidade nem de ajudar a si mesmas:


O percentual de entrevistados que coloca a Educação como prioritária se mantém praticamente inalterado entre os que têm nível de escolaridade até o Ensino Médio. No entanto, entre os que completaram o Ensino Superior, 31% acreditam que a Educação vem em primeiro lugar. A diferença de percepção quanto à qualidade da Educação Básica oferecida às crianças e jovens brasileiros também varia de acordo com o nível de escolaridade e a classe social.

Quanto mais baixas a escolaridade e a classe social, menos importância as péssoas dão à educação. Isso faz com que não apenas desistam de mandar os filhos à escola quando há obstáculos, mas também com que não tenham incentivo para cobrar melhores condições para os filhos ao governo. Por outro lado, a elite educada, embora se preocupe com o ensino básico — até porque a má qualidade a obriga a pagar pelo ensino — também não tem motivos para chiar, pois não manda os filhos para a escola pública. Assim fica difícil melhorar qualquer coisa.

Não é que as pessoas estejam erradas em identificar na saúde, emprego, miséria, corrupção, insegurança e drogas as piores mazelas do país. O problema é ver a árvore e perder a floresta, ou seja, não perceber que os fatores que levam a eles são complexos e têm relação direta com a ignorância.

17 de novembro de 2006, 10:36 | Comentários (12)

brasileiro não desiste nunca

Eduardo Azeredo recuou sobre a identificação de usuários em seu projeto substitutivo sobre o combate aos crimes cibernéticos. No entanto, faz beicinho quanto a isso e ainda tem esperanças de que seja aprovada ao menos a armazenagem dos logs de IP por três anos — o que a maioria dos provedores já deve fazer de qualquer jeito.

Melhor assim. Mas ainda melhor seria se, em vez de criar mais alguns artigos no Código Penal, os deputados se dessem conta de que a maioria dos "novos" crimes cai em alguma das categorias de fraude, estelionato e formação de quadrilha, ou em injúria, calúnia e difamação. Em vez de se preocupar em criar condições para que a Polícia Federal investigue melhor, ou mesmo com a educação dos usuários, o que reduziria muito a eficiência das táticas usadas pelos criminosos, preferem criar uma lei bonitinha para dar a impressão de que algo concreto foi feito.

14 de novembro de 2006, 18:40 | Comentários (6)

azeredo for dummies

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Preencha o formulário em três vias indicando seu nome, endereço, RG, CPF, o site para o qual você quer enviar o conteúdo e o comentário que você quer que seja postado online. Não esqueça de assinar.

Saiba como será a nova Internet brasileira, caso a proposta de Azeredo seja aprovada.

9 de novembro de 2006, 10:53 | Comentários (8)

azeredo tem nome manchado mundialmente

O caso do substitutivo de projeto de lei proposto pelo senador Eduardo Azeredo e atualmente em suspenso no Congresso deu no Boing Boing. Agora Azeredo não se elege mais nem para síndico não apenas no Brasil, mas nem mesmo em Burkina Faso.

Não se metam com os nerds, excelências.

8 de novembro de 2006, 9:30 | Comentários (7)

free the internet!

Será que o Láudano está recebendo dinheiro do Marcos Valério? CPI já!

Em outras notícias, o Rodrigo Alvares apurou que o Bradesco, um dos maiores interessados na exigência de certificação digital, financiou a campanha de Azeredo. Haverá fogo na origem dessa coluna de fumaça?

O Senado, por sua vez, retirou da pauta de votação o projeto substitutivo proposto por Azeredo. Ficou para daqui a duas semanas, quando provavelmente ninguém mais se lembrará do assunto e poderão dar uma morte discreta à proposta.

7 de novembro de 2006, 17:27 | Comentários (5)

de véspera

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29 de outubro de 2006, 10:46 | Comentários (1)

abrindo o voto — segundo turno

É duro admitir, mas o melhor para o Brasil seria mesmo que Lula perdesse essa eleição.

Não que fôssemos experimentar um novo ciclo de crescimento, ter reformas importantes na estrutura do Estado ou mesmo ver a corrupção ser defenestrada com Alckmin no Planalto. Nada no governo dele em São Paulo indica que tenha idéias originais sobre como gerir o Brasil, nem os seus companheiros de chapa ou os dois mandatos de FHC são isentos de máculas éticas. Alckmin provavelmente será até pior do que Lula em alguns aspectos, como nos programas sociais. Também promete tragédias na segurança pública e na educação, se levar a Brasília seus coleguinhas Saulo de Castro e Gabriel Chalita.

Alckmin e Lula se equilibram como mandatários de cargos executivos. Cada um tem seus pontos fortes e fracos, mas seguem a mesma linha ideológica. Basta ver os programas de governo e a campanha na televisão. O único candidato que propunha algo diferente nessa campanha era Cristovam Buarque, mas ninguém levou fé nele e... Enfim, deixa pra lá. O importante é que fora algumas diferenças pontuais, os dois candidatos não devem fazer governos que mudem muito a vida das pessoas em geral. Tanto é que não há histeria no mercado, como em 2002. Se o mercado está tranqüilo, é mau sinal para quem ainda acredita na mudança de rumo pelo voto.

A única vantagem de Alckmin sobre Lula é que Alckmin não é Lula.

No fim das contas, Lula traiu a história do Partido dos Trabalhadores ao assumir a presidência após 20 anos e não tentar fazer mudanças profundas no Estado. Votei no PT em todas eleições até agora para ver o circo pegar fogo. Aí, Lula assume, faz as mesmas alianças espúrias de sempre com os mesmos partidos fisiológicos de sempre e ainda por cima aprofunda a política econômica de FHC. Depois, cria um programa assistencialista que, embora tenha sido um grande avanço, fica bem distante dos projetos originais e entusiasmantes que se esperava.

Não apenas isso, como, depois de defender por quase 20 anos que Lula compensava sua falta de formação com inteligência, fui obrigado a engolir minhas palavras. Lula comprovou que é preciso no mínimo conseguir ler um documento sem dificuldade para ser presidente. Portou-se como um parvenu, assumindo um ar arrogante e autoritário e confundindo a presidência com a República, o público com o privado. Foi uma sucessão deprimente de cenas patéticas, como as fotos de seus filhos e coleguinhas na piscina do Alvorada, a estrela plantada por dona Marisa no jardim, o museu com troféus da época de sindicalista no Planalto, o Aerolula e, a melhor de todas, a cidadania italiana requisitada pela primeira-dama. Não dá, simplesmente não dá para ter jecas desse quilate na presidência.

Finalmente, aconteceram os escândalos. Apesar de todo escarcéu da mídia e dos tucanos xiitas, o governo Lula não foi o mais corrupto de todos os tempos, nem de longe. Roubaram na mesma proporção ou até menos, mas ao menos deixaram o procurador-geral e a Polícia Federal trabalharem em paz. Ainda foram burros o suficiente para ser pegos. No entanto, o Walter, o Brust, o Firpo e o Láudano têm razão: votar em Lula, mesmo achando que ele faria um governo melhor, é ruim a longo prazo para o Brasil. É reforçar a idéia de país do "não dá nada", da Lei de Gérson, da impunidade. E esse é o traço mais prejudicial da cultura brasileira, que precisa ser eliminado antes de sonharmos com qualquer desenvolvimento.

A única coisa que atinge um político é perder o poder. É preciso mostrar que esse tipo de bandalheira será punido com a perda do poder, daqui para frente. Ou seja, não votar em Lula.

Ainda assim, votar nos tucanos é impensável. Só existe uma solução para os esquerdistas: abster-se ou anular. Justificar o voto e ir para a praia, ou ficar em casa vendo o Faustão. Qualquer coisa. A vantagem de abster-se é não legitimar essa palhaçada, que impõe aos eleitores uma não-escolha entre o ruim e o pior, entre dois lados da mesma moeda.

Porém, não tenha vergonha de ser pragmático. Afinal, democracia em tese é uma forma de governo pela qual cada um persegue seu interesse, votando neste ou naquele candidato. Por isso, se você ganha Bolsa-Família, é melhor mesmo votar em Lula — embora Alckmin só vá acabar com o programa se quiser cometer suicídio político. Se você é funcionário público, melhor votar em Lula. Se é classe média e lembra com saudades da farra de compras em Miami com dólar paritário, vote Alckmin. Não é feio votar conforme seus interesses mais imediatos.

25 de outubro de 2006, 12:38 | Comentários (33)

elite acha que pobre é burro

Diz a Folha de São Paulo deste domingo que as urnas premiaram o assistencialismo de Lula, dando-lhe votos onde a importância do Bolsa-Família e do aumento do poder de compra do salário mínimo é maior. Distribuição de renda que, aliás, era promessa de campanha, como nota o consultor Celso Toledo: "Tirando o aspecto da corrupção, é impressionante como Lula cumpriu o que prometeu, que era governar para os mais pobres. E o dividendo eleitoral é claro". Como a Folha só entrevistou a Avenida Paulista, mas não o Vale do Jequitinhonha, fica a impressão de que é tudo medida eleitoreira.

O próprio Toledo diz que para distribuir essa renda o governo tirou recursos de quem produz para dar aos pobres, e que isso teria prejudicado o crescimento. Não faz o menor sentido. Em primeiro lugar, ninguém publicou notícia alguma sobre agentes do governo assaltando os caixas de empresas e mandando a grana ao Sertão. Tampouco criou-se algo como uma CPMF do Bolsa-Família. Se tirou dinheiro do setor produtivo, foi em investimentos que poderiam ter sido feitos em São Paulo, mas cujos recursos foram desviados para a distribuição de renda. Porém, a própria matéria da Folha reconhece que "a evolução das vendas nos últimos 12 meses, por exemplo, revela que onde o comércio cresceu mais, a votação de Lula também avançou mais na comparação com seu desempenho no 1º turno em 2002". E de onde vêm os produtos vendidos? Do setor produtivo. Dãã.

Economista Economicista é um bicho estranho mesmo. Acredita no mito do homo economicus, segundo o qual as pessoas sempre agem de forma racional no investimento e consumo de seus recursos, o que conseqüentemente torna o livre-mercado auto-regulatório. Estranhamente, nenhum dos entrevistados pela Folha conseguiu aplicar essa teoria aos beneficiados pela distribuição de renda:

O cientista político Leôncio Martins Rodrigues diz que o resultado da votação vinculado às transferências de renda revela que o eleitor brasileiro ainda não consegue ter "um comportamento político autônomo".

"Como essa grande população é paupérrima, ela continua propensa ao voto clientelístico e a manter sempre a expectativa de receber algo do Estado." Para o sociólogo Antônio Flávio Pierucci, os programas sociais são importantes, mas precisam ser relativizados. "Esse dinheiro vai direto para o bolso, mas toda a encenação do governo Lula é um longo minueto pró-pobres", afirma.

Não é chato? Os miseráveis simplesmente não entendem que ter dinheiro depositado em sua conta todo mês vai contra seus próprios interesses. Se esse dinheiro fosse usado para financiar a produção via BNDES ou diminuir o déficit, faria muito mais bem aos pobres. O bolo cresceria e seria dividido, como foi feito por todos os governos até 2002. Aí chega esse Lula, interrompe o ciclo de prosperidade que se via até então no semi-árido e passa a dar dinheiro direto aos miseráveis! Essa gente é muito burra, mesmo. Simplesmente não consegue ver que poder comprar comida é a pior coisa que poderia lhes acontecer.

15 de outubro de 2006, 13:04 | Comentários (21)

sexo na agência espacial brasileira
Que vantagens e desvantagens o espaço oferece para a prática sexual?

Na ausência de gravidade a cada ação corresponde uma reação igual e contrária. Por isso, para se fazer sexo no espaço é preciso um cinturão elástico em torno da cintura dos parceiros, para mantê-los unidos. Mas a ausência de gravidade, que atrapalha um pouco, permite uma série de posições impossíveis na Terra. Isso ainda está sendo objeto de estudos secretos. Secretos porque envolvem a intimidade dos astronautas.

Extraído do FAQ da Agência Espacial Brasileira. Dica da jornalista Fernanda Aldabe.

18 de agosto de 2006, 15:37 | Comentários (5)

nariz vermelho

E pensar que eu passei dez anos agitando minha bandeira vermelha nas esquinas, para o Lula chegar lá e propor uma nova constituinte. Pior é ter de dar razão a todos os familiares com quem briguei, porque chamavam o ex-metalúrgico de ignorante.

Depois criticam quando o sujeito desiste de se deixar fazer de otário e abandona a política partidária.

7 de agosto de 2006, 0:01 | Comentários (19)

mais uma lei babaca

Essa lei banindo a consumação mínima não faz o menor sentido. Tudo bem que venda casada é ilegal e consumação é venda casada, mas pergunte-se a qualquer um na rua se prefere pagar ingresso para entrar em uma casa noturna, ou gastar o mesmo valor em bebida. Pois ingresso é o que vai substituir a consumação.

De acordo com o governo, o objetivo da lei na verdade é diminuir o consumo de álcool pelos jovens. Ah, mas é claro! Os jovens bebem apenas para compensar o valor da consumação. Acham inclusive muito ruim se submeter à embriaguez por causa da ganância de empresários da noite. Sim, sim. A consumação é definitivamente a causa das bebedeiras.

18 de maio de 2006, 20:08 | Comentários (30)

boicote ao cirque du soleil

Se este fosse um país decente, haveria revolta popular e um boicote ao Cirque du Soleil, que fará uma turnê no país em agosto.

O caso é o seguinte: a Companhia Interamericana de Entretenimento conseguiu levantar R$ 9,4 milhões para financiar a vinda do grupo circense através da Lei Rouanet. O banco Bradesco destinou parte de seu imposto de renda devido no ano que vem para preencher este valor. Ou seja, em vez de pagar ao Estado, o Bradesco dá o dinheiro a uma promotora de eventos mexicana, para que ela traga o Cirque du Soleil ao Brasil. Até aí, tudo bem. É justificável que o governo fomente a arte.

O problema é que, por este preço, os ingressos deveriam ser de graça ou, no máximo, ter um valor simbólico. Ou talvez o grupo devesse fazer apresentações especiais para estudantes e pobres de maneira geral. Não vai acontecer. A meia-entrada custará R$ 50. Não bastasse, os ingressos melhores [a R$ 370] foram colocados à venda somente para clientes endinheirados do Bradesco, por enquanto. Tudo isso com o meu, o seu, o nosso suado dinheirinho. Não custa lembrar que o Bradesco é um dos bancos que mais crescem, em um cenário onde todos os bancos têm obtido um faturamento obsceno.

Janer Cristaldo foi mais rápido em comentar o assunto:

Tudo muito simples: você paga para que uma minoria se divirta. Esta minoria, que também é contribuinte, já pagou a produção do espetáculo. E agora paga de novo para assisti-lo.

A única saída decente contra esse patrocínio completamente contrário à Lei Rouanet, que prevê renúncia fiscal apenas em caso de difícil viabilidade comercial, é não assistir ao espetáculo do Cirque du Soleil. Além, é claro, de enviar mensagens de correio eletrônico à CIE, ao Bradesco e direto com o Gil, mandando-os à puta que pariu. Não devolverão nosso dinheiro, mas ao menos vão saber que a valorização da marca Bradesco, objetivo final de toda a palhaçada, foi trincada.

ATUALIZAÇÃO: Lucro do Bradesco cresce 27% e atinge R$ 1,53 bilhão no 1º trimestre. É, eles realmente precisam de recursos da Lei Rouanet para patrocinar qualquer coisa. Coitados.

5 de maio de 2006, 13:03 | Comentários (14)

house music junta 700 "chatôs" em hotel cinco estrelas

A Folha de São Paulo publicou uma excelente reportagem sobre uma festa de playboys no interior de São Paulo e o Gabriel Brust enviou por correio eletrônico. Além do ótimo texto do repórter Paulo Sampaio, faz um retrato da lamentável juventude bem-nascida brasileira. Leiam abaixo e vejam o que as boas escolas e o dinheiro fazem com as pessoas.

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27 de abril de 2006, 16:04 | Comentários (41)

varig, varig, varig
Cerca de cem produtores, atores e diretores de teatro realizaram nesta quarta-feira uma manifestação no Rio de Janeiro pela recuperação da Varig. Muitos nomes de peso da dramaturgia nacional participaram do protesto em frente ao Teatro Leblon. O ator Marco Nanini leu um manifesto. A Varig é patrocinadora de eventos culturais e esportivos do país.

O protesto foi convocado por Gerlad Thomas. Os artistas provavelmente fariam melhor se doassem dinheiro à Varig.

No mais, é triste ver a empresa ir para o buraco desse jeito. Meu avô foi um dos primeiros comandantes da "estrela brasileira" — aliás, aproveite-se a oportunidade para informar aos ignorantes que aquilo é claramente uma rosa dos ventos. Mas o governo não deve enfiar dinheiro público nessa roubada. E digo isso mesmo sabendo que, falindo a Varig, não poderei mais comprar passagens aéreas com desconto de familiar.

Chega de salvar empreendimentos privados depois que as diretorias rapinaram tudo. Os empregados, também, poderiam se preocupar com a situação financeira antes de tudo ir por água abaixo. Muitos deles preferiam, no entanto, roubar latinhas de caviar e bebidas para revender, ou mesmo vender passagens destinadas a familiares, obtidas de graça por sua condição de funcionários.

Por outro lado, o governo já salvou empresas bem menos úteis, como aqueles bancos amigos do ACM na época do Proer.

13 de abril de 2006, 11:47 | Comentários (19)

ok, agora chega. vamos fechar o congresso

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Vocês estão frustrados com a crise política? Estão arrependidos de ter votado em Lula? Já se pegaram nas últimas semanas com vontade de que os milicos retornassem ao poder e levassem todos os congressistas para praticar pára-quedismo sem pára-quedas? Pois então observem bem a pessoa acima. Guardem esse rosto, sobretudo os eleitores de São Paulo. Esta senhora, Angela Guadagnin, deputada federal pelo PT, acaba de dançar sobre nossa frustração. Não é jogo de palavras. Ela não se conteve de alegria com a absolvição do coleguinha João Magno, que recebeu R$ 500 mil do Valerioduto, e dançou durante a votação na Câmara.

Temos sofrido muitas humilhações nos últimos meses, mas essa passa de qualquer limite. A degradação moral do Congresso atingiu o fundo do poço. Estão esfregando em nossa cara a certeza da impunidade e da pouca memória do eleitor. Esta senhora em especial é completamente desprovida de respeito pelo povo. É preciso linchar sua imagem pública sem pena nem compaixão. É preciso transformar sua vida num inferno. O mínimo a fazer é enviar emails para o endereço angela@angelaguadagnin.net mandando-a dançar assim em Cuba, país de que tanto gosta.

Não existem palavras adequadas para descrever algo assim.

Mais informações e achincalhamento no Nova Corja, onde passarei a escrever a maioria de meus textos sobre política.

23 de março de 2006, 16:32 | Comentários (28)

saindo faísca

Está gostoso o debate gerado pelo post anterior. Uma parte dos comentaristas me acusa de conformismo covarde e hipócrita, enquanto prega o voto no "menos ruim", junto com o Cisco, o Solon e o Parada. Francamente, parece-me que covardia e hipocrisia mesmo é legitimar essa patética mise en scéne com um voto no mal menor. Que se gastem milhões com outra eleição. Com duas, com três, quantas forem necessárias. Gasta-se com bobagens muito maiores neste país.

Já o Alexandre concorda que tanto faz e sugere simplesmente não votar.

Sigo esperando provas contundentes de que vale a pena votar em algum desses candidatos. Tachar a abstinência eleitoral de covardia hipócrita é um argumento que nem no jardim de infância funcionaria.

16 de março de 2006, 14:36 | Comentários (31)

vote nulo!

Então é isso, Aidimim será o adversário do déspota cachaceiro. O primeiro reflexo é imaginar que vai perder feio, mas após a experiência com Germano Rigotto em 2002 no Rio Grande do Sul, não dá mais para afirmar categoricamente que um político sem a menor graça não tem chances de crescer. Rigotto, aliás, ficou tão animado com o resultado anterior que o olho cresceu.

Sempre votei no PT. Em 1989, quase fui preso por fazer boca de urna junto com um dos meus tios, em Lajeado. Carreguei bandeira em todas as eleições subseqüentes. Em 2002, já estava um pouco deprimido com os rumos do partido e da democracia brasileira em geral, mas ainda assim não resisti a votar no Lula para presidente. Depois de quase 20 anos, o mínimo a fazer era concretizar o sonho de ter alguém realmente do povo no Planalto e verificar o que o Partido dos Trabalhadores podia fazer.

É. Pois é. Arrependi-me logo de não ter anulado a porcaria do voto.

Não vou me arrepender de novo. Nesta eleição, seja lá quem for que esteja com Lula no segundo turno, anularei. O governo petista já comprovou que é tudo sempre a mesma merda. Enquanto isso, no Congresso, a palhaçada progride, já descendo ao nível do deboche. A democracia representativa pode ser a melhor forma de governo encontrada até hoje, em comparação com as anteriores, mas nem por isso se deixou de fazer política como sempre se fez: com conchavos na calada da noite. Nada importante é realmente decidido conforme regras limpas e claras. Pelo menos desde Bismarck, as leis são feitas do mesmo jeito que as salsichas.

O ideal, claro, seria simplesmente não votar, para não legitimar a palhaçada. Por mais que a população não vote, porém, sempre é possível haver um vencedor com mais de metade dos votos válidos. Por isso o melhor é anular, se a idéia é fazer um protesto. Caso 51% dos votos válidos sejam anulados, novas eleições têm de ser marcadas, como mostra o Código Eleitoral:

Art. 224. Se a nulidade atingir a mais de metade dos votos do país nas eleições presidenciais, do Estado nas eleições federais e estaduais ou do município nas eleições municipais, julgar-se-ão prejudicadas as demais votações e o Tribunal marcará dia para nova eleição dentro do prazo de 20 a 40 dias.

Já que o povo brasileiro não gosta de levantar a bunda da cadeira para nada, como diz o nosso presidente, muito menos para ficar gritando e levantando cartazes ou botando fogo nas coisas em frente ao Congresso, pode ao menos apertar uma tecla em vez de outra no dia da votação e anular. De qualquer modo o sujeito teria de perder tempo em um domingo para ir até seção eleitoral. Ao menos que use esse tempo para mandar um recado.

Uma eleição anulada melhoraria alguma coisa? Dificilmente. Mas daria um enorme prazer ver os políticos constrangidos por uma ou duas semanas. Como no caso do referendo sobre a proibição do comércio de armas, mantenho-me aberto e esperançoso para ser convencido do contrário por um projeto de governo realmente bom.

16 de março de 2006, 9:14 | Comentários (50)

cagando lei

Marcos Sá Corrêa pede ajuda para redigir um projeto de reforma política para o Brasil. É domingo, o sujeito não tem nada para fazer, acaba enviando uma idéia:

A TV Câmara e a TV Senado transmitirão o Big Brother Brasília em horário integral. No programa, o contribuinte poderá acompanhar o cotidiano de seus representantes, desde o café da manhã até o copo de leite antes de deitar-se, passando por reuniões, telefonemas e encontros com outros políticos, grupos de interesse e lobistas. Exceção para as visitas ao banheiro, desde que o parlamentar esteja desacompanhado.

12 de março de 2006, 19:06 | Comentários (3)

el supremo
São enormes os poderes do general Francisco Albuquerque, comandante do Exército.

Na Quarta-Feira de Cinzas, ele chegou ao Aeroporto de Viracopos, em Campinas, 15 minutos antes da hora do embarque do seu vôo para Brasília. O funcionário da TAM lhe explicou que o vôo estava fechado e lotado. Ocorrera um overbooking de feriadão.

O avião já ia em direção à cabeceira da pista quando recebeu ordem da torre para retornar ao pátio. Uma escada foi levada para a porta e um casal de passageiros desceu. Subiu o general, com roupas civis, acompanhado pela mulher.

Informação cortesia de Elio Gaspari, reproduzida aqui porque pichar o nome deste tipo de gente não apenas é divertido, como necessário.

5 de março de 2006, 19:12 | Comentários (15)

apressadinho come cru

"No Brasil, não estamos com a pressa de fazer a economia decolar".

Ah, é, Sr. Presidente? Bom saber. Realmente, ninguém está com pressa de ver seu poder de compra retornar e as perspectivas de emprego melhorarem. Especialmente quem não tem trabalho há tempos e já passa fome. Esses definitivamente não têm a menor pressa. Duvido ainda que os empresários vejam problema em perder o bonde de crescimento mundial que está passando agora. Para que crescer, se já somos um país tão bom quanto El Salvador ou Colômbia para se investir? Quem pede crescimento é fracassomaníaco e gosta de nhenhenhém.

A Economist publicou a transcrição completa.

3 de março de 2006, 15:23 | Comentários (15)

política aqui e lá

O curso de alemao que estou fazendo aqui inclui seminários sobre literatura, política e "comunicacao intercultural". Nosso professor, Herr Westerhoff — aquele que sofreu uma revista proctológica pela polícia — é bastante interessado no assunto e em geral passa metade da aula nos fazendo perguntas sobre a política em nossos países. Em uma destas ocasioes comentou-se sobre o mensalao.

Herr Westerhoff entao lembrou de um caso igual ocorrido na Alemanha. O ex-chanceler Helmut Kohl recebeu dinheiro de alguma fonte privada para o seu partido, a Uniao Crista Democrática [CDU]. Eram uns trocados, coisa de poucos millhoes de euros. Pois bem, quando o caso foi descoberto, o parlamento pediu explicacoes a Kohl. Ele admitiu tudo, mas se negou a revelar a fonte do dinheiro, dizendo que havia °dado sua palavra" quanto a manter sigilo. Com isso, teve de pagar os impostos cobrados sobre doacoes privadas a partidos, algo como € 600 mil. Até hoje todos se perguntam quem ressarciu o ex-chanceler, que depois de tudo isso ainda ficou mais 14 anos no poder. O SPD, social-democrata e oposicao ao CDU, ameacou investigar a fundo o caso, mas voltou atrás quando os conservadores prometeram investigar casos parecidos na esquerda.

A licao é: política é igual no mundo inteiro. Nao precisamos continuar com nossa síndrome de vira-latas. A política no Brasil é feita como no primeiro mundo.

Aliás, a política é tao parecida nos dois países, que aqui na Alemanha também existem partidos tao imbecis quanto o PCO ou o PAN. Meu preferido é o Partido dos Cristaos Fiéis à Bíblia. Ou entao o Partido dos Nao-Votantes. E, claro, o Partido Anarquista, cujo slogan é Arbeit ist Scheisse [Trabalho é uma merda].

14 de fevereiro de 2006, 10:13 | Comentários (14)

falta de respeito

Daslu impede estacionamento em via pública. Aí está uma notícia que ilustra bem a consciência social da elite brasileira. A Daslu foi criada e é freqüentada por integrantes desta elite, então pode ser um bom termômetro. Primeiro, da profunda falta de gosto, basta ver a arquitetura do prédio. Segundo e principalmente, da confusão entre público e privado. Quem tem dinheiro neste país sempre acha que tem mais direitos — e o pior é que muitas vezes tem mesmo, pois o Estado concede, seja por submissão, seja por corrupção. Quem tem dinheiro acha, por exemplo, que não precisa pagar impostos, nem respeitar as vias públicas, já que rico não vai preso.

22 de dezembro de 2005, 14:14 | Comentários (7)

renan calheiros, inimigo do povo

Em boa parte, a convocação extraordinária do Congresso foi obra e graça de Renan Calheiros. Rebelo estava um tanto indeciso sobre a questão e o presidente do Senado, vendo nisso uma manobra do governo para esvaziar as CPIs, prometeu forçar a convocação, caso o presidente da Câmara não o fizesse.

E o óbvio aconteceu: ninguém comparece às sessões. Sem falar que as atividades da comissão de Ética foram suspensas até 15 de janeiro. Cabe lembrar que os deputados recebem mais dois salários e pacotes de subsídios por causa da convocação.

Incrível o quanto essa gente está divorciada da realidade. Deve faltar contato com o povo no isolamento de Brasília, pois parecem não perceber o quanto esse tipo de acontecimento contribui para passar uma impressão de completa inutilidade dos deputados e senadores.

Só queimando o Congresso, mesmo.

21 de dezembro de 2005, 10:47 | Comentários (7)

sai daí, zé

Além de mau-caráter — nunca contou que era outra pessoa e ainda largou a ver navios a mulher com quem casou e teve filho quando estava na clandestinidade —, José Dirceu ainda é marxista de mesa de bar.

20 de dezembro de 2005, 0:21 | Comentários (1)

otávio germano transcende a mera incompetência

Alguém levou uma ruim aqui na André da Rocha nesta madrugada. Só dava para ouvir os gritos de "socorro" e sons de punhos e pés encontrando partes mais macias do corpo humano. Da última vez em que isto aconteceu, quem gritava por ajuda era um ladrão que estava tomando um corretivo da vítima. Em todo caso, dá o que pensar. Os marginais trocaram a avenida Goethe e o Bom Fim pela Cidade Baixa. A PM resolveu policiar as principais ruas, ou seja, onde aparece. Resultado: mais marginais na André da Rocha, que costumava ser calma.

Talvez seja mesmo hora de tirar o passaporte da gaveta.

8 de dezembro de 2005, 1:02 | Comentários (1)

o estranho mundo de lula

Alguém mais aí também acha um absurdo um governo ser incompetente até para gastar dinheiro? Quer dizer, sempre pareceu que o objetivo dos governantes era gastar o máximo possível em obras, úteis ou inúteis. As constantes notícias de verbas não usadas fazem suspeitar que, como denunciava a oposição, o PT jamais teve projeto de verdade para o Brasil.

6 de dezembro de 2005, 0:46 | Comentários (2)

spam da semana
Prezado(a) Senhor(a),

Temos uma proposta séria para um novo Brasil, um país mais digno para nossos filhos. Ficaremos honrados com sua visita. Venha conhecer nossos objetivos.

Com os nossos agradecimentos.

http://www.brasilimperial.org.br

3 de dezembro de 2005, 15:02 | Comentários (8)

sonegadores versus prostitutas

A Daslu quer proibir o Daspu, nome escolhido por uma confecção dirigida por prostitutas. O argumento dos advogados é que o nome poderia gerar confusão entre as duas marcas. De fato. Aquelas peruas oxigenadas exibindo um bronzeado artificial e argolas do tamanho de calotas nas orelhas em fotos da loja de luxo paulistana podem facilmente ser confundidas com trabalhadoras da Daspu assim, à primeira vista. Ao menos o gosto pela vulgaridade é o mesmo.

3 de dezembro de 2005, 0:52 | Comentários (5)

grandes momentos da política gaudéria

O ex-governador Amaral de Souza costumava chegar dormindo aos eventos em cidades do interior. Acordava com o foguetório do povo e já saía do carro abanando.

Pois certa feita o pneu do carro estourou. Amaral acordou com o barulho e a parada brusca do carro. Ainda um tanto desorientado, provavelmente, abriu a porta e saiu abanando. Quando percebeu que estava no meio do nada, soltou:

— Porra, vaca não vota!
— Ainda, seu Amaral — retrucou o motorista.

2 de dezembro de 2005, 10:21 | Comentários (4)

fristão! fristão!

O Walter se deu o trabalho de gravar e publicar uma galeria de fotos das bengaladas no José Dirceu.

Finalmente o povo brasileiro toma alguma atitude.

30 de novembro de 2005, 7:53 | Comentários (39)

bem coisa de comunista — 2

Se o projeto de gravar todos emails dos brasileiros proposto por Delcídio Amaral [PT] for sério, é o maior absurdo já pensado desde o fim da ditadura no Brasil. O Charles Pilger publicou a íntegra do projeto de lei. Também aponta o fato de que os criminosos usam servidores estrangeiros, então a medida acabaria pegando mais é gente honesta mesmo.

Pior é o presidente da Associação Brasileira de Provedores de Acesso de Serviços e Informações da Rede de Internet, Antônio Alberto Tavares, ter informado que "os provedores têm interesse em ajudar no trabalho da Justiça, por isso a associação chegou a assinar convênio com o Ministério Público Federal a fim de facilitar o acesso e a busca de informações nas investigações". Já o coordenador do Comitê Gestor da Internet do Brasil, Marcelo de Carvalho Lopes, disse que "devemos consolidar uma legislação e sair na vanguarda do controle". O que é isso, companheiros? As entidades que deveriam defender os direitos dos usuários arriarem as calças assim tão fácil, sem nem gritar, é o fim do mundo.

21 de novembro de 2005, 11:49 | Comentários (10)

cai fora, zé

Ricardo Kotscho entrevista José Dirceu. Entrevista entre compadres, claro:

Às vésperas do teu julgamento pela Câmara, como você se sente? Em que tem pensado nos poucos momentos em que fica sozinho?

Eu me sinto profundamente reconfortado pelo apoio que venho recebendo. Evidentemente, estou triste, mas não amargurado, por tudo o que aconteceu. E eu tenho feito uma reflexão profunda sobre os erros que nós cometemos e como posso ajudar a superar esta situação. Minha vida pessoal não mudou. Faço exercícios todos os dias, acabei de ler “A Aventura de Miguel Líttin Clandestino no Chile”, de Gabriel Garcia Marques (a história de um cineasta que consegue escapar do fuzilamento nos anos Pinochet) e agora estou lendo “O Diário de Nina”, de Nina Lugovskaia (o terror stalinista nos cadernos de uma menina soviética). Já li mais de dez livros nesta crise. Vejo filmes em casa, vou à Câmara, cuido da minha defesa. E durmo razoavelmente bem para a situação que estou vivendo.

As leituras mostram que não, José Dirceu não se recuperou ou arrependeu. Das duas uma: ou está lendo estes livros para se inspirar em um movimento de vingança stalinista, ou então os citou apenas como forma de provocação a seus acusadores, querendo indicar que se sente como perseguido político em um período de totalitarismo.

20 de novembro de 2005, 1:17 | Comentários (4)

lula é gente como a gente

— Tem dias que eu não agüento mais eu mesmo.

Lula, juntando-se ao povo brasileiro em entrevista do programa Roda Viva. O presidente já não agüenta mais seu próprio falatório. Ele fala, fala, fala, fala, fala, fala, fala, fala. Parece o coelhinho da Duracell. Fazer, que é bom, até agora fez muito pouco. Na verdade, o governo, que já era meio lento, está paralisado desde o início das denúncias.

Isso tudo cansou. Lula cansou. O Congresso cansou. O Marcus Valério cansou. Ainda bem que 2006 é ano eleitoral e promete, senão uma nova esperança, ao menos alguns momentos garantidos de diversão. Será hilário ver os candidatos se esforçarem em provar que não têm rabo preso nem usam caixa dois.

No mais, chama a atenção outra uma vez a arrogância do presidente. Defeito que ele sempre criticou em FHC. Mas enquanto este demonstrava soberba por conta de sua pífia contribuição à ciência econômica, Lula se acha dono da verdade por conhecer o lado miserável da vida. Fala com a certeza de ter todos os seus pecados redimidos de antemão por conta dos sofrimentos na juventude. Ora, francamente: vá se foder.

7 de novembro de 2005, 22:09 | Comentários (6)

brasileiro é um povo criativo

O Partido Progressista do Rio Grande do Sul acaba de inventar a reação progressista. O Estado, definitivamente, está na vanguarda do pensamento político mundial.

25 de outubro de 2005, 15:14 | Comentários (6)

o recado das urnas

A caseira da propriedade da família em Garopaba anulou o voto. É alfabetizada e consegue escrever alguns bilhetes, mas nunca lê jornais ou revistas. Não se interessa quase nada por política. Mas é esperta o suficiente para construir um certo patrimônio com o pouco que ganha. Pode-se considerá-la uma brasileira média, sem dúvida. Pois a caseira considerou o referendo uma "perda de tempo", por isso anulou.

Então, é isso: venceu o "não" com quase dois terços dos votos válidos. A abstenção de cerca de 20% é considerada normal. Por incrível que pareça, somente 3% foram brancos e nulos — possivelmente porque as pessoas nem sabiam da possibilidade de anular; até mesmo gente letrada como os leitores deste blog. Muitos dos votos "não" talvez fossem nulos, com um melhor esclarecimento deste ponto. Vá saber. Seja como for, "não" era o voto pela manutenção de tudo como está.

As duas informações acima poderiam sugerir que o povo entendeu muito bem o significado deste referendo. Em primeiro lugar, sua completa inutilidade. Isto já foi discutido em outros posts, então não merece muito mais digitação.

Em segundo lugar, a absoluta incompetência que cercou todo o processo. Desde a redação confusa do estatuto até a péssima defesa por parte da frente do "sim", que nunca explicou nada direito. Talvez porque, devido à incompetência do Congresso, ninguém possa explicar. Mesmo sendo prevista a possibilidade de compra de armas e munição por certas pessoas, com proibição e tudo, a forma como isso se daria só seria decidida após o referendo. Palhaçada. Como se pode decidir algo sem saber direito como vai funcionar?

É bonito pensar que tenha sido um protesto contra a irrelevância e a incompetência dos nossos governantes: "em vez de perderem tempo e dinheiro decidindo essas mesquinharias, concentrem-se em solucionar as causas reais da violência, sem tentar nos enrolar com medidas cosméticas".

O governo Lula comprou a briga pelo "sim". O próprio presidente escreveu um artigo defendendo a opção. Até que ponto se pode considerar o "não" um protesto contra o governo em si? E até que ponto se pode considerar um protesto contra as campanhas apelativas com artistas globais, contra a irracionalidade no debate político? O povo não é tão burro quanto se costuma pensar.

Provável é que no fim das contas seja apenas a troca de uma irracionalidade por outra. Em vez de ir atrás dos artistas da Globo, vai-se atrás do terrorismo oportunista da frente do "não". Se os votos nulos e brancos fossem mais altos, até se poderia pensar em um protesto contra a palhaçada em geral. Não é o caso, aparentemente. Pena. Os dois lados foram totalmente imbecis.

A imprensa, para variar, ficou devendo muito. Nenhuma reportagem explicou decentemente como funcionaria o estatuto, sobretudo os aspectos que seriam decididos após o referendo. Nada digno de nota sobre os integrantes de cada frente e seus financiadores, ou mostrando quem coordenava cada campanha. Nada sobre quem pagou a campanha do "sim", muito superior à do "não". Isso sem falar na Veja, que mais uma vez arrastou o jornalismo na lama, publicando uma matéria de capa apenas com argumentos contra a proibição.

23 de outubro de 2005, 23:31 | Comentários (25)

referendo imbecil

votenulo.gif

Falta pouco tempo, mas ainda dá para copiar o gif acima, botar como imagem em seu MSN ou ficha do Orkut e participar da campanha.

21 de outubro de 2005, 17:23 | Comentários (22)

treinadores de prestadores de vestibular

O Parada já comentou, mas esta entrevista é tão boa que merece toda repercussão possível. Trechos:

As escolas são lugares abandonados do ponto de vista intelectual. Nisso a escola privada e a escola pública não têm diferença significativa. A estratégia do abandono dos alunos da escola pública tem a sua contrapartida na teatralização da escola privada. Em ambas, pouco de inteligente se constrói.

[...]


As escolas privadas são a cara da elite brasileira. Fazem parte do seu "pacote existencial": academia, shopping, condomínio fechado, escola privada. Elas vendem aquilo que a elite quer: uma farsa com fachada de excelência. O processo de desinstitucionalização escolar, que na escola pública assume a forma de deserção, na escola privada confirma-se como fraude pedagógica.

[...]


Estamos cercados desses repetidores midiáticos, como o Gilberto Dimenstein. Gente que prega o "aprender a aprender", "aprender a fazer", "aprender a ser" etc. Clichês que pouco significam quando confrontados com a prática escolar. A educação exige uma certa solidez clássica. E não me venham dizer que as novas gerações não estão interessadas nisso. Elas são a cara do que a gente oferece para elas. Damos alfafa e reclamamos da falta de massa crítica.

21 de outubro de 2005, 10:26 | Comentários (10)

o assunto é irresistível

Paulo Roberto Pires defende o voto nulo no referendo. A cada dia que passa, parece a opção mais sensata.

19 de outubro de 2005, 10:39 | Comentários (24)

da arte de desperdiçar tempo e dinheiro

Como os leitores já sabem, meu voto é pelo não. No fundo, a questão que temos de nos fazer é a seguinte: proibir o comércio de armas de fogo para pessoas físicas civis vai diminuir o número de homicídios? Ser a favor ou contra a existência de armas, achar ou não que ter arma em casa deixa as pessoas mais seguras, acreditar no direito dos cidadãos de possuírem pistolas e revólveres, nada disso vem ao caso — ao menos, se o sujeito estiver preocupado menos com questões morais e mais com meios práticos de diminuir a violência. E o mais provável, corta o coração admitir, é que nada vai mudar, ou até pode piorar.

No fim das contas, o que incomoda mesmo é a irrelevância do processo todo. Gastou-se centenas de milhões de reais — entre R$ 250 e R$ 700 mi, dependendo da fonte — para se tomar uma decisão que, na prática, não vai influenciar em quase nada. Por que não votar "sim", então, e parecer muito mais simpático aos leitores, sem falar na vantagem de ficar em paz com a própria consciência e não se enfileirar junto à laia de bárbaros ignorantes que nem mesmo deveriam ser autorizados a andar nas ruas?

O motivo principal é que, como provam as drogas, como provou a lei seca nos anos 1920 nos EUA, qualquer proibição acaba criando tráfico, que gera violência. Sem se atacar as causas da demanda, de nada adianta proibir coisa alguma. Muita gente nas fileiras do "não" é maluca o suficiente para ir até o Paraguai, ou subir o morro, para adquirir uma arma. Ilegal por ilegal, provavelmente ainda vai comprar uma arma mais pesada, de uma vez. Tendo de lidar com marginais, o sujeito se expõe à violência, ou mesmo a entrar na criminalidade. Sem falar no patrocínio a operações de tráfico de drogas, assaltos e seqüestros.

Outro aspecto é a deterioração ainda maior da polícia e dos burocratas, inevitável com o aumento do contrabando de armas. Desde policiais vendendo armas apreendidas — como já fazem com drogas —, ou as da própria polícia, até agentes da alfândega recebendo propinas — ou tiros — para deixar uma carga de pistolas passar. Propinas também vão rolar para superar os entraves burocráticos e poder comprar uma arma de forma "legal". O Brasil definitivamente não precisa disso.

A proibição também não deixa de ser manobra diversiva do governo. Em vez de investir em fiscalização efetiva, depuração dos quadros da polícia e neutralização das causas principais da violência por meio de investimento em educação e pela distribuição de renda, faz-se um referendo, finge-se proibir o comércio de armas e gera-se a impressão de que alguma coisa foi feita.

Certo, então a proibição do comércio vai poupar algumas dezenas de vidas por ano. Isso não se discute. Porém, tenho a firme convicção de que os efeitos perversos da proibição vão superar os efeitos benéficos. Só por isso voto "não". No entanto, espero até o último momento algum argumento que me permita votar "sim" e ficar parecendo uma pessoa bem melhor aos meus próprios olhos. Este post estava planejado para sábado, mas resolvi publicar antes para receber as repercussões a tempo. No fim, talvez fosse melhor anular, ou simplesmente não ir votar, para não legitimar mais essa palhaçada.

A seguir, desconstruo alguns dos argumentos reunidos durante este mês inteiro de discussão no insanus.org:

Continue Lendo...

17 de outubro de 2005, 23:11 | Comentários (35)

um nulo

Hefestus faz uma das melhores análises sobre o referendo até agora — procure pelo post "referendum", já que não há permalinks.

16 de outubro de 2005, 19:54 | Comentários (0)

um sim meio não

A deputada federal e ex-juíza Denise Frossard, cuja opinião é muitíssimo respeitável, votará "sim" no referendo. No entanto, não deixa claros seus argumentos. O artigo inteiro dá a entender um voto no "não".

16 de outubro de 2005, 10:42 | Comentários (2)

ainda o referendo

A irracionalidade domina as campanhas para o referendo, tanto do lado do "sim", quanto do lado do "não". Uns fingem que impedir o comércio vai impedir quem realmente quer uma arma de adquiri-la. Outros batem na tecla do direito a andar armado, como se adiantasse alguma coisa contra bandidos. Ambos fazem puro terrorismo com a população.

Alguns números podem jogar luz sobre as coisas. Como o Alexandre já comentou, finalmente foi feita alguma pesquisa sobre o uso de armas legais em crimes. Mostra que em 33% das ocorrências policiais as armas eram registradas. Número bastante significativo. As tabelas por tipo de crime, no entanto, indicam uma presença de armamento registrado em número maior: quase metade dos casos. Se alguém entendeu, por favor explique nos comentários.

Enquanto isso, a Veja faz terrorismo — é duro agüentar certas companhias na fileira do "não" —, mas traz alguns dados interessantes:

O país produz em torno de 200.000 armas por ano e exporta 70% delas, sobretudo para os Estados Unidos e para a Indonésia. Uma parte é vendida aqui diretamente às Forças Armadas e à polícia. Chegam às lojas em torno de 20.000 armas. A maioria é adquirida por empresas de segurança e 3.000 são compradas por pessoas comuns para uso particular. Os defensores da proibição do comércio legal desses artefatos argumentam que as armas acabam nas mãos de bandidos, roubadas em assaltos a residências ou nas ruas. Em vista das pesadas restrições que cercam a venda de armas no Brasil, todo o mastodôntico referendo foi criado, em última análise, para decidir sobre um reles arsenal de 3.000 revólveres e armas de caça vendidos por ano.

[...]

O governo federal gasta, por ano, 170 milhões de reais com segurança pública. Isso é menos do que os 270 milhões de reais que serão gastos com o referendo. Com esse dinheiro seria possível comprar 10 500 viaturas e 385 000 coletes à prova de bala para a polícia.

Com alguns dados, pode-se começar um debate mais produtivo. Lembrando sempre que, a rigor, o comércio continuará existindo, por causa da polícia, caçadores, praticantes de tiro ao alvo e empresas de segurança privada, todos com direito a comprar armas. E que o referendo é só sobre comércio, não sobre desarmamento, como andam dizendo por aí.

4 de outubro de 2005, 10:10 | Comentários (68)

otávio germano quebra recorde de incompetência

Depois a Brigada Militar reclama que não tem o respeito dos cidadãos. Crianças são pisoteadas por culpa de seus comandados e tudo o que o secretário de Segurança Pública do Rio Grande do Sul consegue dizer é que não sabia de nada. E há poucos dias, eles mataram um sindicalista.

3 de outubro de 2005, 10:31 | Comentários (7)

não se mate

Algum cretino decidiu denunciar o NAO-Til por incentivo ao suicídio, devido a este texto. Fim do mundo. Não existe mais humor neste país.

2 de outubro de 2005, 9:59 | Comentários (7)

mais um voto pelo não no referendo

Guilherme Fiúza também é contra a proibição do comércio de armas no Brasil. Levanta uma questão interessante a respeito:

A desonestidade da campanha do plebiscito é fazer crer que o voto "não" é necessariamente contra o desarmamento, ou a favor do "direito de cada um defender-se como quiser" etc. A pergunta é: o que acontecerá com a vida brasileira depois de proibida a venda de armas? De saída, uma rápida observação: é permitida a venda de fuzis americanos AR-15 à população civil brasileira? Evidentemente que não. Por que, então, o Rio de Janeiro está coalhado de fuzis AR-15, nas mãos de qualquer um que puder pagar por eles? Porque essas armas existem, foram inventadas um dia pela mente humana, são fabricadas regularmente e os fabricantes fecham os olhos, fazem o sinal da cruz, pedem desculpas a Papai do Céu e entregam-nas aos contrabandistas.

É bom sempre explicar que não é preciso gostar de armas, ou achá-las úteis, para votar "não". Uma coisa nada tem a ver com a outra, porque elas continuarão a ser usadas no Brasil; não será como na Inglaterra, onde nem a polícia anda armada. O sim no referendo vai apenas criar um novo tipo de tráfico no país. Se a polícia não consegue combater a venda ilegal de drogas, por que achar que vai combater a venda ilegal de armas?

Quem não acredita que a proibição do comércio só vai piorar as coisas, pode dar uma olhada neste FAQ sobre o estatuto. Chama a atenção que somente a "população comum" será proibida de adquirir armas e munição. Agentes de segurança privada terão acesso a elas, bem como policiais.

Ora, já se cansou de ver tanto policiais quanto agentes de segurança privada envolvidos em crimes. As empresas de segurança não são fiscalizadas decentemente pela Polícia Federal e não vai levar dois meses para que comecem a fazer chicanas e vender suas armas a quem quiser pagar o preço.

Os artigos já aprovados do estatuto dão mais poderes ao Estado para prender e processar infratores. O porte de armas já é proibido e virou crime inafiançável. Ter arma sem registro em casa já é proibido. Comprar uma pistola ou revólver já está mais difícil. Agora, basta fiscalizar direito.

29 de setembro de 2005, 13:07 | Comentários (34)

apolônio de carvalho se revira no túmulo

É duro agüentar os cristãos-novos do PPS, entre eles o inacreditável Cézar Busatto, Paulo Odone e Clênia Maranhão, falando na propaganda obrigatória que seu novo partido "não faz qualquer coisa para chegar ao poder" — ao contrário do PT, é de se imaginar.

Acontece que estes três, mais o atual prefeito de Porto Alegre, o arremedo de compositor José Fogaça, traíram o PMDB depois de décadas e tomaram de assalto o PPS, sigla então nanica no Rio Grande do Sul. Não apenas fizeram tudo e mais um pouco, como, para manter o poder, ainda por cima traíram os outros traíras, causaram um racha no partido e até andam ameaçando jornalistas.

Mas cobrar coerência a argumentos racionais de políticos é pedir demais, não é? Ainda mais quando eles militaram no MR-8 de Orestes Quércia, como Busatto. Que ninguém se engane: o cara de fuinha é o prefeito de facto de Porto Alegre.

28 de setembro de 2005, 22:04 | Comentários (8)

abertura revisada do voto pelo não

Dar opiniões sem ler com mais atenção o estatuto do desarmamento é temerário. Uma breve análise, com algumas correções ao post anterior:

  • Prevê-se a posse de espingardas para "caçadores de substência", desde que comprovem a necessidade e a moradia em zona rural [Artigo 27]. Aparentemente, não se poderá ter armas para proteção — ao menos, se o sujeito quiser cumprir as disposições legais. Um convite à avacalhação.

  • Colecionadores, caçadores e atiradores terão de passar por mais burocracia, mas poderão ter armas assim mesmo [Capítulo III, Seção II].

  • Não fica claro afinal se o comércio será proibido. A pergunta no referendo é se o cidadão é a favor da proibição do comércio, mas o estatuto prevê que algumas lojas poderão vender armas a quem tiver autorização para comprá-las [Capítulo I, Seção IV]. Serve para quê mesmo esse estatuto?

    A leitura também permitiu uma grave descoberta. Os agentes de segurança privada terão acesso a armas de fogo. Ora, macacos me mordam, mas se até policiais e soldados vendem suas armas a criminosos, imagine-se o pessoal da segurança privada. São de maneira geral um bando de bestalhões analfabetos, a maioria com tendências criminosas. Basta ver nos jornais a quantidade de seguranças — de policiais também, por sinal — envolvidos em assaltos e assassinatos. Se essa camarilha vai portar armas, nada muda.

    A maioria das medidas previstas no estatuto pode muito bem ser tomada sem a proibição do comércio. Proibir a venda de armas de fogo no país só deixa o tráfico mais interessante, na medida em que o preço das pelas ilegais subir. Um bom incentivo ao aumento da violência a longo prazo, já que os prejuízos para a organização que não proteger suas cargas serão bem mais altos.

    17 de setembro de 2005, 19:09 | Comentários (8)

    abrindo o voto contra o desarmamento

    A idéia da proibição da aquisição de armas pela população civil brasileira é, à primeira vista, simpática. Sobretudo para quem sempre foi de esquerda e pacifista, nem gosta de caçar. No entanto, algum período de reflexão leva o sujeito a mudar de idéia, justamente por causa dos ideais liberais que sempre defendeu.

    O principal argumento para ser contra o desarmamento é o mesmo que os defensores da legalização das drogas levantam: enquanto houver demanda por armas, haverá oferta. A diferença é que, proibindo-se a posse, muita gente vai ter de lidar com contrabandistas e outros criminosos para adquirir armas e munição.

    Para quem mora em centros urbanos pode parecer uma bobagem ter arma em casa, mas os camponeses que residem em lugares isolados realmente precisam de uma. É a única forma de se defenderem, caso assaltantes invadam suas fazendas. Isso para não falar em animais selvagens, como javalis e onças. O estatuto prevê a posse de espingardas para "caçadores de substência", desde que comprovem a necessidade e a moradia em zona rural. Aparentemente, não se poderá ter armas para proteção — ao menos, se o sujeito quiser cumprir as disposições.

    A título de ilustração, quem mora no Rio Grande do Sul sabe muito bem que todo mundo na fronteira tem armas ilegais contrabandeadas da Argentina e do Paraguai. Mesmo sendo permitida a posse de certos tipos, o pessoal compra pistolas 9mm, rifles e até uzis.

    Outros argumentos pelo "não" no referendo são a caça e o tiro ao alvo. São esportes. Tem gente que gosta de matar animais ou alvejar pratos. O Brasil tem medalhas olímpicas na modalidade. É injusto proibir atletas e caçadores, que em geral respeitam as leis, de fazer o que gostam.