Comentários sarcásticos, crítica vitriólica e jornalismo a golpes de martelo por Marcelo Träsel


para os revolucionários de pijama

A chapa está quente no Tibete.

Não custa nada assinar essa petição ao presidente chinês Hu Jintao, para que cesse com a repressão e inicie um diálogo. Se não sabe inglês, os campos são, na ordem: nome, e-mail, telefone, país e CEP. Depois, é só clicar em "send".

18 de março de 2008, 21:05 | Comentários (10)

faroeste gaudério

Alguns dizem que Porto Alegre fica à mercê dos criminosos em janeiro, quando toda a Brigada Militar é deslocada para fazer a segurança dos veranistas no litoral norte. Bobagem. Porto Alegre está à mercê dos criminosos o ano inteiro.

Morei 20 anos em uma rua do bairro Auxiliadora. Nos três ou quatro últimos desses anos, deixamos um carro estacionado todas as noites em frente ao prédio. Nunca nem soou o alarme. De um ano para cá, porém, pelo menos três pessoas relacionadas comigo tiveram carros furtados ou roubados à mão armada, com direito a um seqüestro-relâmpago. Isso sem falar em todos os vizinhos que tiveram problemas dos quais ficamos sabendo. O último caso foi na segunda-feira, quando ladrões arrombaram o carro do meu sogro para levar o estepe. Brabo é que os malandros cortam o cabo da bateria e ainda deixam o cidadão a pé.

Que fazer? Não vale a pena entrar em uma lengalenga sobre a falta de investimento do governo em segurança pública, mas uma coisa é óbvia: alguém compra esses estepes, rádios e carros roubados. Como não existe oferta sem demanda, a solução é evidente, embora talvez não seja simples. É preciso punir severamente os receptadores de objetos roubados.

Não apenas isso. Muitas vezes, nós mesmos fingimos não saber que o pneu baratinho -- e sem nota fiscal, claro -- que compramos provavelmente foi roubado, assim como os vales-transporte oferecidos a preço menor que a passagem de ônibus no centro da cidade. Os cidadãos costumam reclamar que não sabem como fazer a sua parte, mas há uma ação preventiva acessível a todos, que é não colaborar com o crime. Isso inclui desde desconfiar de negócios bons demais até exigir sempre nota fiscal. E, claro, evitar o consumo de produtos contrabandeados, drogas, sonegação de impostos, dirigir alcoolizado, todas essas infrações que as pessoas "de bem" julgam irrelevantes, mas que incentivam o clima de anarquia.

16 de janeiro de 2008, 12:17 | Comentários (31)

não custa nada

O trecho abaixo foi reproduzido do site Avaaz.org:

Depois de décadas de uma ditadura militar repressiva, o povo de Mianmar está se manifestando - e eles precisam da nossa ajuda. Monges budistas deram início a uma marcha pacífica que vem ganhando o apoio de toda a população do país. O número de manifestantes já chega a 100.000 em mais de 25 cidades.

Na última manifestação contra a ditadura em 1988 o governo militar massacrou milhares de pessoas. Não podemos deixar isso acontecer de novo, precisamos e podemos defender os manifestantes. Vamos enviar uma mensagem ao Conselho de Segurança da ONU incluindo a China, o principal apoiador do regime em Mianmar, assim com toda a mídia presente no encontro da ONU essa semana.

Duvido que o Conselho da ONU faça qualquer coisa a respeito, muito menos que isso influencie na política de Rangun — até porque o massacre já começou. Por outro lado, nunca é demais as pessoas deixarem claro aos políticos que são contra a violência estatal.

27 de setembro de 2007, 21:50 | Comentários (1)

retrato do bananão

Estava prestes a enviar um e-mail de desculpas ao governo e a Lula, ao ver a manchete da Veja da semana passada, mas nem o erro cometido pelo comandante do vôo TAM 3054 consegue eximir esse governo da parcela de culpa que se imaginava terem no acidente: a boa e velha falta fiscalização e planejamento. Em resumo, ausência de Estado.

O piloto cometeu um erro durante o pouso, deixando o manete em posição errada e impedindo o avião de frear — ao menos é o que as informações das caixas-pretas sugerem, mas a investigação da Aeronáutica ainda precisa comprovar. Isso já aconteceu duas vezes com o Airbus de mesmo modelo, uma em Taipei, outra em Manila. Nessas duas ocasiões, apenas três mortes. Motivo? Não existe uma megalópole em volta de uma pista curtíssima de aeroporto.

Como o Solon já apontou no caso da queda do avião da Gol, raramente um desastre aéreo acontece por uma causa isolada. Mesma coisa nesse caso. Os fatores envolvidos até agora no acidente parecem ser:

1. Erro do piloto.
2. Preguiça da Airbus em melhorar o sistema de travamento do reverso (se é que isso é possível).
3. Submissão ao lobby imobiliário pelo governo paulista, que permitiu até a construção de um hotel de 50 metros nas cercanias de Congonhas (Kassab, prefeito chegado num factóide, prometeu cassar o alvará).
4. Submissão ao lobby das companhias aéreas, que desviam até vôos Porto Alegre-Buenos Aires para São Paulo, porque é mais lucrativo.
5. Preguiça dos passageiros em pousar em Guarulhos e depois viajar até São Paulo, para evitar o congestionamento em Congonhas.

Onde entra o presidente? Não entra, esse é o problema. É verdade que a situação chegou a esse ponto por décadas de descuido. Mas essa explicação não serve. Se não queria resolver os problemas deixados pelos militares, por Sarney, Collor, Itamar e FHC, que Lula não tivesse se candidatado à presidência. E o governo nem mesmo pode se dizer surpreso com problema, porque o caos aéreo está instalado já há mais de um ano e nada foi feito para resolver.

Pior, quando Lula decidiu se meter, foi para quebrar a hierarquia da Aeronáutica e aprofundar ainda mais o problema com os controladores de vôo. Todas as medidas que foram tomadas pelo governo na semana do acidente deveriam ter sido tomadas há um ano, pelo menos. O fato de se ter resolvido agora desafogar Congonhas mostra apenas que o governo não teve vontade de fazer isso antes, porque não queria contrariar os interesses das companhias aéreas, nem irritar ainda mais os passageiros. Tentou evitar perdas maiores de popularidade. Inclusive, a rapidez com que as medidas foram anunciadas prova que os planos já deveriam existir, mas não foram concretizados sabe-se lá o porquê.

Isso sem falar na escolha de um político, em vez de um especialista em aeronáutica, para dirigir a agência responsável pelo setor, e na manutenção de um ministro da Defesa que se mostrou incompetente para eliminar o problema. Ambos se preocuparam apenas em jogar a responsabilidade um no outro pelas pendências estruturais. Pode até ser que exista um vácuo de responsabilidade hoje no setor aéreo, mas o responsável último pela aviação é o governo federal.

Repito: Lula e seus assessores e ministros poderiam ter começado a fazer algo para resolver a crise aérea há mais de um ano. Não fizeram nada. Agora que mais centenas de pessoas morreram, diz que, para variar, não sabia de nada. Trata-se em minha opinião de um irresponsável cuja única preocupação é se aferrar com unhas e dentes ao poder. Enquanto isso, algumas pessoas afirmam com a maior nonchalance que a mídia está se aproveitando do caso para derrubar o governo. Deve ser por isso que estão se adiantando às investigações e condenando os pilotos, o que livra a cara do governo. Aliás, é preocupante que o vazamento no mínimo impróprio de informações das caixas-pretas, que interessa apenas ao governo, tenha ocorrido em uma CPI cujo relator é do PT.

Para finalizar, dois comentários. Não critiquei a TAM por reconhecidamente adotar práticas selvagens de capitalismo, o que leva a esse tipo de coisa, porque no fim das contas esse é o papel de uma empresa. O papel dos governos é fiscalizá-las e não permitir que os interesses dos acionistas ponham os cidadãos em risco.

Em segundo lugar, engana-se quem diz que essa é uma indignação burguesa, porque só a classe média alta seria prejudicada pelo caos aéreo. Quando negócios deixam de ser fechados, cargas deixam de ser transportadas, investidores começam a procurar outros países porque o Brasil não oferece infraestrutura decente, o proletariado têm menos empregos à disposição.

7 de agosto de 2007, 15:10 | Comentários (11)

o problema do brasil é falta de laço
Para o grupo formador de opinião, mudou o ideal de felicidade, que hoje é o bem-estar corporal, o prazer físico. Além desse ideal de felicidade sensorial, há uma idéia da vida como entretenimento. Ou seja, a pessoa deixa de pensar nas consequências morais do que faz. Quem compra droga simplesmente desliga o botão que avisa qual será a consequência disso. Parece que tudo é uma brincadeira. Multidões de pessoas que deveriam ter responsabilidade agem dessa forma. Na moral do espetáculo, o outro é sempre o responsável pelas mazelas e não eu. Eu estou corrompendo, sou venal, sou leviano, mas o que eu faço não tem nenhuma consequência. O que o vizinho faz com certeza terá. É uma posição típica dessa falta de compromisso.

Bem que o Guy Debord avisou.

O trecho acima, de uma entrevista do psicanalista Jurandir Freire Costa, expressa com toda clareza algo que sempre tentei comunicar, mas nunca consegui, a julgar pelos comentários de leitores aos meus posts sobre política e sociedade. Não se deixe enganar pelo título infeliz que o editor pôs na matéria, não é bem isso que Jurandir diz durante a conversa. Ele diz é que temos de parar de criticar a corrupção, a imoralidade e o egoísmo, apenas para em seguida sonegar impostos, subornar guardas de trânsito e tentar vencer a burocracia com a ajuda de amigos poderosos. Indignar-se e não ser o exemplo do cidadão que se quer para o Brasil é farisaísmo, é cinismo, é hipocrisia.

O Hermano também curtiu a entrevista, mais pelo lado do vácuo de autoridade que tomou conta da cultura brasileira. É outro aspecto importante. Hoje em dia, os pais parece que acham feio educar os filhos. Francamente, acho que as palmadas e castigos que levei, além de bem merecidos, colaboraram muito para que me tornasse uma pessoa útil à sociedade. Não que sejam a melhor forma de se educar alguém, porém não são fonte de trauma algum, se não passarem dos limites. E tem coisas que só na palmada se resolve.

Um sintoma da demência moral, aliás, é termos de agüentar uma campanha contra os castigos físicos protagonizada por ninguém menos que Xuxa, apresentadora de programas infantis famosa por filmar cenas eróticas com crianças e por beliscar os baixinhos mais exaltados em seu auditório.

26 de julho de 2007, 11:01 | Comentários (14)

falando em ser bom cidadão...

...incomodar a Net é sempre uma forma de aprimorar a vida em sociedade. Anda rolando por aí um e-mail que fala dos telefones de suporte da empresa de TV a cabo e acesso à Internet. O número que os operadores dão é sempre o 4004-7777 e variações. A questão é que esse é um telefone pago. A tal corrente, em tom de teoria da conspiração, diz que a empresa não divulga o 0800, uma exigência do Procon, mas na verdade ele pode ser encontrado no site.

Em todo caso, está bem escondido e é meio confuso, porque o telefone que dão para a Central de Relacionamento é o 4004, pago -- deve ser por isso que os atendentes deixam você mofando por horas com o fone no ouvido --, enquanto o 0800 está listado como "Telefone Exclusivo NET Vírtua SCM", seja lá o que isso for. Podem não estar fazendo nada francamente ilegal, mas estão dificultando o acesso a um serviço obrigatório. Qualquer pessoa com alguma noção de arquitetura de informação botaria o número logo na página principal, bem grande. Mas também, isso não é exclusividade da Net. Desafio os leitores a encontrarem o 0800 do Terra a partir da página principal, por exemplo.

Enfim, o número grátis é 0800 701 03 58. Se é para fazer o cliente perder tempo, que ao menos eles paguem por isso. Agora, se quer MESMO resolver seu problema, vá direto na ouvidoria.

11 de julho de 2007, 10:41 | Comentários (15)

está começando a ficar preocupante

No dia 20 de abril de 1997, cinco filhinhos de papai brasilienses atearam fogo ao índio pataxó Galdino dos Santos. A idéia era apenas "dar um susto" no pobre coitado que dormia em uma parada de ônibus da capital nacional, mas dois dias depois ele morreu no hospital. De todo o caso, o mais marcante foi a explicação de um dos criminosos: pensavam que era apenas um mendigo.

Sábado passado: três filhinhos de papai cariocas assaltam e espancam uma empregada doméstica. Motivo: pensavam que ela era apenas uma prostituta. É uma maravilha perceber assim de uma forma tão clara o quanto o ser humano pode evoluir em dez anos.

Há dez anos, os pais dos criminosos vieram com um papo de que não era bem assim, os sujeitos eram na verdade bons meninos, mas tinham cometido um erro. Hoje, o pai de um dos espancadores apareceu na televisão dizendo que meninos que estudam, trabalham, NÃO PODEM ficar presos. Enquanto isso, lembro bem do pai de um dos bandidos que matou o garoto João Hélio arrastado no asfalto por quilômetros dizendo que o filho tinha mais é de mofar na cadeia por causa disso. Era um sujeito pobre.

Parece que tem alguma lição sobre o Brasil aí.

25 de junho de 2007, 22:22 | Comentários (20)

embananamento mundial

Se der chance, o Estado não hesita dois segundos em controlar o cidadão e diminuir as liberdades civis. Depois do Brasil, Índia, Grécia e Estados Unidos se juntarem à China, Irã e Cuba na censura à livre expressão no ciberespaço, agora a França, queridinha dos freqüentadores do Fórum Social Mundial, decidiu transformar qualquer cidadão que filme atos de violência ou divulgue os mesmos em criminoso — exceto se ele for jornalista profissional.

Isso quer dizer o seguinte: se um francês filmar um policial descendo a porrada de forma abusiva em cidadãos, por exemplo, e publicar o vídeo ou fotos na Internet, pode ser preso por até cinco anos e pagar até US$ 100 mil em multas. O objetivo principal supostamente é prevenir o que se chama por lá de happy slapping: enquanto um amigo filma, outro vai lá e dá uns tabefes em qualquer transeunte, para deleite dos espectadores. O problema é que essa lei vai proteger bandidos que eventualmente sejam capturados em vídeo cometendo crimes. Outro problema é definir o significado de "ato violento". Um bate-boca entre dois políticos pode ser considerado violento? Ou só quando os protagonistas forem às vias de fato o vídeo estará dentro do espectro dessa lei?

Dica do Láudano.

9 de março de 2007, 11:02 | Comentários (4)

confissão de um ex-comunista

E começou um novo Fórum Social Mundial.

Foi só lá pelo terceiro FSM aqui em Porto Alegre que eu deixei de ser comunista. Tive uma epifania enquanto caminhava pelo "acampamento da juventude". Ao ver todas aquelas barracas torrando no sol de verão, as pessoas bêbadas, descalças e seminuas tocando Raul Seixas e Manu Chao em volta de fogueiras, os banheiros imundos [quando havia algum], a poeira que se grudava em qualquer pedaço exposto de pele, as discussões sobre o calendário maia, a dúvida subitamente me atingiu: "peraí, é essa gente que vai comandar o tal outro mundo possível?".

Prefiro continuar oprimido pelo capital, mas manter o ar-condicionado e o acesso de banda larga à Internet, obrigado. Por isso, virei anarco-financista.

21 de janeiro de 2007, 12:22 | Comentários (44)

trocando seis por meia-dúzia

A Prefeitura quer, definitivamente, acabar com a Cidade Baixa. Por causa da mania de mudar o nome dos equipamentos públicos, muita gente não percebeu que o largo Zumbi dos Palmares, onde está prevista a instalação de um terminal de ônibus, é na verdade o largo da Epatur. Esse largo é famoso pelas feiras livres e por ser local de espetáculos e festividades de Porto Alegre. A Prefeitura não poderia ter escolhido pior.

O principal objetivo do projeto é desafogar o Centro, tirando boa parte da circulação de ônibus na região. Para isso, resolveram afogar a Cidade Baixa. O grande problema é que se trata de um bairro residencial, ao contrário do Centro. Os moradores terão de agüentar ruído de ônibus indo e vindo até altas horas da noite e rafuagem de uma maneira geral. O terminal atrairá camelôs e criminosos e a vida noturna ficará ainda mais lotada. De qualquer modo, o trânsito no bairro será prejudicado.

A idéia fica ainda mais ridícula quando se pensa que há vastos espaços livres perto do Centro Administrativo do Estado. Um bom local para esse terminal seria o espaço entre a avenida Praia de Belas e a Borges de Medeiros, no limite da zona residencial da Cidade Baixa. Ou ainda mais longe, perto do prédio da Receita Federal, conhecido como "chocolatão". Lá não mora quase ninguém. Talvez fosse até uma forma de despovoar a região de todos os moradores de rua e pivetes cheiradores de cola.

21 de novembro de 2006, 12:17 | Comentários (16)

mais uma chance de criar caso

A Secretaria Municipal de Planejamento promove nesta terça-feira, dia 14, uma oficina sobre a revitalização do Centro. Supõe-se que os participantes poderão dar suas sugestões para o programa Viva o Centro. Infelizmente a oficina acontece no horário de trabalho da maioria dos mortais, das 8h30 às 18h, no Hotel Everest — cujo coffee break, por sinal, é muito bom.

13 de novembro de 2006, 10:10 | Comentários (0)

as palavras não valem mais nada
Assim, o antigo aliado dos Estados Unidos foi sentenciado à morte por crimes cometidos quando era o melhor amigo de Washington no mundo árabe.

Sobre a condenação de Saddam Hussein à forca, pouco mais pode ser dito do que a coluna de Robert Fisk reproduzida abaixo. E que qualquer ser humano consciente deveria ser contra a pena de morte, mesmo para — e talvez principalmente — os monstros.

Continue Lendo...

8 de novembro de 2006, 11:12 | Comentários (25)

leitura na escola é um fracasso

O Ibope fez uma pesquisa sobre os hábitos de leitura dos gaúchos e concluiu que o índice no Estado é quase três vezes maior do que a média no resto do Brasil e o dobro da América Latina. Outro ponto interessante é que os livros de auto-ajuda, sempre no topo da lista de mais vendidos, não são os mais lidos. Mas as boas notícias terminam aí.

Os livros religiosos respondem por 24% do total de leitura dos gaúchos. Outros tipos de ficção, como romance, conto e infantil, ficam com 20% cada um. A auto-ajuda soma apenas 9%. Nada contra ler sobre religião, o problema é saber até que ponto este tipo de livro não compreende a auto-ajuda classificada de forma errônea. De qualquer modo, não se pode dizer que todo mundo está lendo Balzac, Dostoiévski, Rosa ou Melville, como o alto índice de leitura poderia fazer pensar. A pesquisa também jogou por terra a idéia de um mercado literário gaúcho, já que somente 32% dos entrevistados costumam comprar livros.

O mais grave, entretanto, é o seguinte dado: "Do público geral da pesquisa, 12% lê para a escola ou universidade, mas a porcentagem aumenta para 35% entre aqueles com até 15 anos, caindo para 21% entre os 16 e 24 anos." Ou seja, depois de ler obras abjetas como Escrava Isaura e Ana Sem Terra ou difíceis como Memórias Póstumas de Brás Cubas, boa parte das pessoas desiste de manter a leitura como hábito. Isso, mesmo com a média relativamente alta de livros lidos por ano. É preciso mudar urgentemente o modelo da disciplina de literatura no ensino médio, se a idéia for mesmo formar leitores.

6 de novembro de 2006, 11:16 | Comentários (19)

essa é para quem gosta de criar caso

A Secretaria Municipal de Planejamento promove na terça e quarta-feira da semana que vem um encontro sobre reabilitação de centros urbanos, com a exposição de experiências feitas em Lisboa, Quito, Córdoba, Bogotá, Santos e Belo Horizonte. O debate vai servir para a redação do plano de revitalização do Centro de Porto Alegre. Ou seja, é uma daquelas raras chances do cidadão ir ao Estado dizer o que pensa sobre as coisas.

20 de outubro de 2006, 11:19 | Comentários (17)

2006: um idiota no espaço

Consistente com sua política de união e entendimento entre os povos, George W. Bush decidiu unilateralmente que vai derrubar as naves espaciais de quem quiser. Assim como invadiu o Iraque, que com suas armas de destruição em massa era claramente uma ameaça ao estilo de vida norte-americano, impedirá qualquer outro país "do Mal" de chegar ao espaço.

Há partes secretas no decreto presidencial que, supõe-se, indicam a estratégia para levar a democracia a Marte, Vênus, Saturno e onde mais norte-americanos conseguirem chegar. Bush também já avisou que nem adianta vir falar com ele, porque não vai nem ouvir propostas de acordo internacional.

Como contra a estupidez a força é o único argumento, propõe-se aqui uma lei de caráter mundial, a ser aplicada sobretudo pelos residentes nos Estados Unidos: a partir deste momento, é direito e dever de todos negar o acesso de imbecis aos cargos de comando das nações. Qualquer proposta de tratado internacional em favor da idiotice será desprezada. Enfatiza-se, entretanto, que esta política está comprometida com o uso pacífico da inteligência por todas as nações.

19 de outubro de 2006, 10:49 | Comentários (12)

anarco-financismo é o futuro

A esquerda está sem rumo. Governos democratas nos Estados Unidos e social-democratas na Europa se sucedem sem fazer mudanças significativas. Na América Latina, a esquerda não produz nenhuma mudança fundamental nas estruturas sociais, mas limita-se a adotar políticas anestésicas, como a nacionalização dos hidrocarbonetos na Bolívia, ou das reservas de petróleo na Venezuela. Após quatro anos de Lula no Brasil, é impossível acreditar em mudar o mundo pela democracia representativa. O PT passou anos prometendo mudar tudo e fez o contrário.

Os ativistas e bichos-grilos de maneira geral continuam com a mesma estratégia de protestar com ladainhas intermináveis e tentar convencer as pessoas apelando para argumentos racionais ou emocionais. Esqueçam. Isso não adianta mais nada. Em vez de ler Negri e Hardt, Rushkoff, Melanie Klein, Chomsky, deviam é estar lendo a biografia de George Soros. Embora alguns considerem o mega-especulador um vilão pós-moderno, ele é na verdade o maior anarquista contemporâneo. Um modelo que todo ativista devia seguir.

soros.jpg
Nosso amigo se prepara
para foder com mais um bando
de porcos capitalistas.

A estratégia para mudar o mundo em um ambiente ultracapitalista como esse é clara: entrar no jogo, ficar bilionário e usar sua força para impor as políticas que achar adequadas. Um de seus maiores lances foi quebrar a libra esterlina e impor um severo golpe ao imperialismo britânico, ganhando US$ 1 bilhão na jogada. Há ação mais anarquista do que essa?

Não apenas isso, como Soros vem usando o dinheiro para sustentar políticas de esquerda. Contribuiu para tentar tirar George W. Bush do poder e apoiou mudanças de regime na Europa Oriental, ajudando por exemplo Vaclav Havel na República Tcheca e colaborando para derrubar Milosevic na Sérvia. Soros vem fazendo com sua Open Society tudo que os ativistas de esquerda sempre sonharam.

Obviamente, melhorar o mundo não é a preocupação mais importante de Soros. Sua preocupação é encher os bolsos de dinheiro, mas cuidando para manter uma imagem de bom homem. Agora, imaginem se, em vez de se acorrentar a árvores, os ambientalistas fossem ricos o suficiente para comprar a porra da floresta inteira e mantê-la a salvo? Comunistas poderiam usar o dinheiro para fundir dezenas de instituições bancárias, só para depois fechá-las e distribuir o dinheiro aos pobres. Aqueles preocupados com abusos de direitos humanos no Tibete poderiam jogar contra a economia chinesa e tentar enfraquecer o país até que se dispusesse a negociar. Enfim, as possibilidades são infinitas.

A única forma de ser anarquista hoje em dia é se tornar o maior especulador financeiro do mundo.

16 de outubro de 2006, 11:26 | Comentários (23)

pais fundadores se reviram no túmulo

Depois de sancionar o uso da tortura e outros abusos de pessoas detidas na guerra ao terror, os norte-americanos dão mais um passo em sua marcha para descer à categoria de república bananeira: estão tentando impedir a criação de uma lei contra abusos trabalhistas na China. Não, você não leu mal: as multinacionais norte-americanas com negócios por lá querem que os trabalhadores chineses continuem a ser tratados pouco melhor do que se trata escravos.

Difícil entender como essas ações se coadunam com a idéia de exportar a democracia para o resto do mundo.

13 de outubro de 2006, 17:57 | Comentários (11)

golpe baixo

aracruz.jpg

Anúncios como este estão espalhados por todo o Espírito Santo, onde a Aracruz tem problemas com os índios locais. A empresa se sente injustiçada, mas retaliar com mensagens de ódio como essa é fazer um papel muito feio.

11 de outubro de 2006, 10:47 | Comentários (23)

retrato do brasil
O processo é esquizofrênico e hipócrita, bom ressaltar. Provavelmente nenhum brasileiro está mais previamente disposto a corromper o policial da esquina do que o carioca. Mas o tipo de moralidade que cobra – com toda sinceridade – dos políticos, não vale para si. Ele pensa que o sistema é corrupto e que ele, cidadão, só está jogando o jogo que lhe foi imposto. Sujeito complicado este carioca da Zona Sul e Grande Tijuca. Mas ele vota em Fernando Gabeira e em Cesar Maia ao mesmo tempo sem perceber a contradição.

A coluna de hoje do Pedro Doria sintetiza o traço mais irritante do brasileiro: seguir, agora e sempre, a Lei de Gérson. Brasileiro acha que a culpa é sempre dos outros: do governo corrupto, dos pobres que são vagabundos e preferem roubar a trabalhar, dos portugueses que nos colonizaram. A culpa nunca é dos próprios crimezinhos que comete todos os dias, no varejo. Sonega um impostinho aqui — "porque vão roubar mesmo, né?" —, suborna um guardinha ali — "ah, pára, eles não estão preocupados com a lei, querem é fazer caixa às custas do motorista" —, joga um papelzinho na rua lá — "pô, todo mundo joga!".

O projeto político mais importante para o Brasil ainda é mudar a mentalidade do povo. Deixar de ser o país do "não dá nada", como diz a Tainá.

5 de outubro de 2006, 13:12 | Comentários (20)

eleições comprovam que gaúchos são vanguarda

Minha tradicional avaliação das eleições está no Nova Corja este ano.

4 de outubro de 2006, 17:46 | Comentários (2)

perguntinha

Afinal, por que todo mundo está dizendo que o acontecimento do segundo turno entre Lula e Alckmin faz bem seria um avanço da democracia? Se Lula tivesse conseguido votos suficientes para se eleger no primeiro turno, não haveria problema algum. O povo escolheu em quem votar, votou e pronto. A não ser, claro, que democracia seja apenas quando o povo referenda as vontades de um ou de outro.

Considerando que escolher entre Lula e Alckmin — ou Yeda e Olívio no Rio Grande do Sul — é um arremedo de democracia, a vitória de algum deles no primeiro turno ao menos pouparia o cidadão de ser aporrinhado por mais duas ou três semanas de campanha.

3 de outubro de 2006, 23:29 | Comentários (21)


insanus_votenu.jpg

1 de outubro de 2006, 0:00 | Comentários (5)

mais um voto para cristovam

Se a minha opinião sobre o candidato do PDT à presidência não tem autoridade suficiente para lhe convencer, talvez a de Ricardo Noblat tenha. O jornalista foi diretor de redação do Correio Braziliense durante o governo Cristovam. Se ele não sabe de nenhuma falcatrua do candidato, é porque não há mesmo.

Interessante que Noblat faz a mesma avaliação que fiz há um mês sobre Cristovam Buarque: honesto e racional, mas sem perder a capacidade de imaginar projetos, como se espera de um bom político em uma democracia. Ei, Estadão, aceito fazer o mesmo trabalho por metade do salário do Noblat!

28 de setembro de 2006, 10:16 | Comentários (17)

voto aberto

Vejam vocês como são as coisas. O sujeito fica defendendo o voto nulo por alguns meses e acaba se decidindo por votar em todas as instâncias dessa eleição — ainda que em protesto nos cargos executivos. Lembre-se de que os cargos legislativos são muito mais importantes. Apesar das medidas provisórias, quem manda mesmo no país são deputados e senadores. Pense nisso com carinho.

Cristovam Buarque — Foi o candidato que melhor manteve a dignidade nessa eleição. Lula deixou de ser digno durante os últimos quatro anos. Alckmin nunca foi digno de nada além de pena. Já Heloísa Helena quis se mostrar digna demais e acabou pondo tudo a perder na campanha, tornando-se uma mera grasnadora arrogante. Cristovam argumenta racionalmente e tem um projeto, enquanto os outros se limitam a papagaiar clichês. Sem entrar no mérito do projeto e de suas idéias, talvez uma votação expressiva do trabalhista incentive os marqueteiros a investir em um verdadeiro debate daqui a quatro anos. Ou seja, em vez de passar um recado niilista votando nulo, voltei a acreditar na democracia.

Guilherme Giordano — Até votaria no candidato do Partido Verde ao governo do Estado, mas depois da patuscada do vídeo falso é impossível. Além disso, Edison Pereira não sabe fazer o verbo concordar com o sujeito. Meus dedos não digitarão o 13 esse ano, então Olívio está fora, embora seja um dos poucos petistas a ter saído com dignidade quando Lula chamou os vendilhões ao Planalto. Por outro lado, Giordano é o candidato mais divertido, trazendo leveza e humor ao horário eleitoral. Seria triste vê-lo cair fora por conta da cláusula de barreira. E não deixa de ser um voto de protesto, exigindo mais espaço para a esquerda.

Vera Guasso — O PSTU sempre me divertiu com slogans criativos como "contra burguês, vote 16", ou "contra o FHC, o FMI e tudo isso que está aí". Infelizmente não aceitaram minha sugestão de "contra petista, vote comunista", mas tudo bem. Outro partido que merece ficar acima da cláusula de barreira. E Vera Guasso é honesta, conforme averigüado com relações pessoais indiretas. Até votaria em Simon pelo mesmo motivo, se ele não estivesse ameaçando morrer antes de completar o mandato de oito anos, abrindo o caminho para um suplente qualquer. Se quiser me seguir, digite 161 na urna.

Manuela D'ávila — Fiquei bastante bem impressionado ao entrevistá-la para o Nova Corja. Não é nada ranheta enquanto comunista e também parece ser uma boa pessoa, isto é, alguém que não vai roubar. A candidata a deputada federal pelo PCdoB não parece, porém, ter grandes projetos, mas neste momento o importante mesmo é impedir que corruptos voltem ao Congresso. O número é 6565.

Filipe Oliveira — É professor do cursinho Unificado e tem como plataforma combater a depredação arquitetônica das cidades gaúchas pelos interesses econômicos das incorporadoras. Certamente não rouba: conheço-o desde criança, por ser casado com uma tia minha. É o único candidato a deputado estadual em que confio o suficiente para dar um voto. Concorre pelo PV, o que ainda tem a vantagem de colaborar para manter o partido de Gabeira acima da cláusula de barreira. O número é 43010.

27 de setembro de 2006, 11:19 | Comentários (20)

como dar um jeito no brasil

José Paulo Kupfer dá a receita para trazer desenvolvimento econômico e social ao país. A solução é tão simples quanto difícil de ser posta em prática: educação de qualidade e reforma agrária. Diz o economista que nenhum país de alto IDH chegou onde está sem tratar dessas duas questões. Faltou comentar se uma funciona sem a outra.

Reforma agrária e educação parecem estar bastante ligadas. A primeira melhora a vida das pessoas aqui e agora, dando-lhes de onde tirar o sustento. Mas propriedades pequenas são inviáveis a longo prazo, porque à medida em que o proprietário vai gerando herdeiros, ela corre o risco de acabar dividida até um tamanho improdutivo. Assim, é preciso investir em educação para que ao menos alguns dos filhos dos pequenos agricultores encontrem um meio de vida em outras áreas e aliviem a pressão sobre o pedaço de terra da família. Caso contrário, ou a terra acaba estilhaçada em micropropriedades, ou a família se vê obrigada a aumentar seu lote, contribuindo para um retorno da concentração no futuro.

Interessante constatar que, fora da esquerda folclórica, ninguém fala em redistribuição de terras nessa campanha à presidência.

21 de setembro de 2006, 17:53 | Comentários (39)

visões do centro

Participei nesta segunda-feira de um grupo focal sobre o Centro de Porto Alegre, organizado pelo professor Walter Nique, da Escola de Administração da UFRGS. Fui convidado por ser morador do bairro e, suponho, blogueiro. Conversando com o professor Nique, sujeito simpático e aparentemente entusiasmado com a vocação, descobri que a iniciativa foi dos alunos, que em sua cadeira devem produzir uma pesquisa em marketing a cada semestre. No site da disciplina pode-se baixar PDFs com todas as pesquisas já feitas. Uma boa fonte de informação sobre a cidade.

Entre os colegas, o major Maciel, da 1ª Companhia do 1º Batalhão da Brigada Militar, responsável pelo policiamento da região, Cláudio Klein e Fortunato, da associação dos concessionários do Mercado Público, Clarissa Ciarelli, editora dos cadernos de Bairro da Zero Hora, e Maria Erni, arquiteta da secretaria de Planejamento. Foi uma boa oportunidade de ter uma idéia do que se pensa sobre o Centro. A discussão girou em torno principalmente da questão da segurança e da deterioração dos aparelhos públicos.

O major Maciel certamente foi corajoso em comparecer. Era óbvio que ele teria de se defrontar com a ira dos cidadãos presentes. A maioria parece compreender que o comando da BM não tem tanta culpa pela falta de efetivo para policiar o Centro da capital, mas isso não aliviou as reclamações. Eu, por exemplo, comentei com o major que é inaceitável não se ver um só PM durante quase dois anos de trajeto diário pela praça Argentina. Todos os dias passo lá e todos os dias há vidro de carro quebrado no chão ao longo do meio-fio. Ou seja, até os minerais sabem que se rouba um monte de carros lá. Por outro lado, o major afirma que já prendeu um mesmo sujeito 60 vezes. Em todas ele foi liberado pelo Judiciário. Assim, realmente, fica difícil trabalhar.

Major Maciel trouxe algumas estatísticas interessantes: o Centro tem 42 mil moradores e 8 mil pontos de comércio regular. Suspeita-se que existam mais 2 mil pontos de comércio irregular, além dos camelôs. Há mais ou menos 1400 moradores de rua adultos, além de 300 que dormem em um abrigo perto da rodoviária e durante o dia "vão para onde podem conseguir dinheiro e comida", ou seja, furtam ou cometem pequenas trapaças. Há também um abrigo para 50 menores. Uma das campanhas do major é para que esses abrigos sejam mandados para outra área da cidade, o que diminuiria os problemas no Centro, onde há pouco efetivo. Também reclamou que as delegacias da Polícia Civil ficam na Riachuelo, fora do miolo mais populoso, e na Ramiro Barcelos, longe demais. Isso sobrecarrega a BM com a necessidade de redigir boletins de ocorrência. Para piorar, gente que mora na periferia faz os boletins no batalhão do centro, porque o Tudo Fácil fica na Borges. Essa gente, por não saber como funciona o sistema policial, diz que foi roubada no Centro, quando na verdade o crime ocorreu em outros bairros, o que infla as estatísticas. Conforme dados das associações de transportadores e Trensurb, o Centro tem uma população flutuante de 600 a 800 mil pessoas por dia.

De qualquer modo, a percepção geral é que no Centro há poucos crimes violentos. Em geral ocorrem furtos e estelionatos. Os próprios moradores não se sentem muito ameaçados, embora certamente não andem tranqüilos por aí.

O maior atrativo do centro parece ser mesmo a grande diversidade comercial, cultural e social. Pode-se comprar desde DVD pirata no camelô a roupas de grife, pode-se comer cachorro-quente a R$ 1 com três salsichas ou bacalhau no Gambrinu's, pode-se falar com a elite política ou com mendigos. Cláudio Klein, da Banca 43 do Mercado Público, perguntado sobre sua percepção do Centro, respondeu: "se for pedir para o meu cliente responder em uma palavra, ele vai dizer que é uma esculhambação". Meio que se arrependeu quando, na minha vez, peguei sua definição e disse que a tal esculhambação é justamente o charme do bairro. Como tem um cargo político, deve ter achado que pega mal. Mas penso que ele tem toda razão. O Centro certamente parece uma esculhambação para muita gente. Há quem goste de diversidade, porém. Tanto que a editora dos cadernos de bairro, Clarissa Ciarelli, identificou uma tendência crescente de artistas e intelectuais de ocupar o Centro. No fim das contas, todos os participantes mais ou menos concordaram que o Centro reflete todas as vantagens e desvantagens da situação cultural e social do Brasil. Ou seja, resolver o problema do Centro exige resolver os problemas não apenas de Porto Alegre como um todo, mas também da Região Metropolitana.

Outra questão levantada foi da falta de higiene. Com poucas lixeiras e 1400 moradores de rua, além dos camelôs, fazendo suas necessidades nas calçadas, as ruas ficam uma porcaria. O problema é que, no Mercado, por exemplo, as pessoas levavam até torneiras e lâmpadas, antes de começarem a cobrar uma taxa pelo uso dos banheiros. Sugeri que se instalassem vespasianas, como as que existem em Amsterdam.

Na verdade, fugimos um tanto do objetivo do grupo focal, que era levantar categorias de percepção do Centro de Porto Alegre entre seus moradores e freqüentadores. Falou-se mais na questão da segurança, mesmo, e os representantes de instituições pareciam estar falando de palanques. Os dados recolhidos serão usados na criação de um questionário, a ser aplicado entre os habitantes da cidade toda. Pretende-se descobrir o que pensam do bairro. Os resultados serão publicados no site da disciplina ao final do semestre.

------------

Este texto foi republicado no Palegre, blog sobre a capital editado pelo jornalista e webdesigner Solon Brochado.

19 de setembro de 2006, 17:23 | Comentários (13)

11/9 visto por bush

O repórter Matt Lauer encosta Bush na parede quanto aos casos de tortura contra suspeitos de terrorismo, praticada em bases secretas da CIA ao redor do mundo. O presidente norte-americano não apenas admite que existe, como se coloca bastante a favor. Perguntado se não há preocupação em se transformar naquilo que tentam combater, Bush apenas assegura estar tentando proteger as famílias norte-americanas.

15 de setembro de 2006, 16:17 | Comentários (6)

abaixo o seqüestro do futebol

Certamente esse assunto já foi discutido na mídia e em outros blogs e mesas de bar por aí. Ainda assim, vale martelar um pouco mais em cima. É um absurdo o seqüestro do futebol pelos interesses comerciais no Brasil. Os pobres não têm mais como assistir aos jogos de seu time legalmente.

A Globo sempre compra os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro apenas para veicular os jogos do Flamengo, mesmo que sejam contra o Santa Cruz ou a Ponte Preta, e outros jogos de times do eixo Rio-São Paulo. Grêmio e Inter só passam na televisão jogando contra algum desses times, ou se a partida cair no mesmo horário. Caso contrário, os torcedores têm de agüentar a novela Sinhá Moça ou o Faustão no lugar.

A Globo jamais se atreveria a fazer isso, não fosse a invenção do cabo. Assim, pode fechar o sinal dos jogos que interessam à maior parte do Brasil e cobrar pelo acesso. É claro que muita gente vai ficar de fora da brincadeira. Mas só as pessoas que não interessam aos anunciantes: aquelas sem dinheiro para gastar. O pior é que nem aos clubes esse povo deve interessar, já que não tem como pagar ingresso e muito menos comprar os produtos anunciados em todos os cantos do estádio.

Isso obriga quem não tem dinheiro a ir a algum boteco assistir. Difícil aferir quantos desses botecos realmente pagam pelo acesso ao pay-per-view. É certo que muitos aderem ao sistema GatoNet, assim como grande parte das pessoas. Não deixa de ser uma boa vingança contra toda a palhaçada dos clubes e da mídia, mas é ilegal. Irônico que a Globo trabalhe contra si mesma nesse caso.

Aí vão dizer que é preciso "profissionalizar" o futebol, para pagar os salários nababescos exigidos por um bando de analfabetos. O problema é que essa espiral de aumentos de salários começou, justamente, por conta da necessidade de agradar aos patrocinadores. Como jogador mais talentoso atrai mais atenção, passaram a ganhar mais. E os times tiveram de atraí-los com salários maiores, para atrair mais patrocinadores. E assim vai. Mas isso não é problema só do futebol, o mundo inteiro hoje funciona nesse sistema de celebridades. Para quem se pergunta o quanto a mercantilização de tudo e a publicidade podem prejudicar o mundo, aí está um bom exemplo.

Alternativas existem. A Globo poderia, por exemplo, usar no Rio Grande do Sul a TVCOM para a transmissão dos jogos em horários de novela. Seria até bom para o Ibope da emissora, que hoje é um traço. Freqüências vazias também poderiam ser usadas. Ou, como sugeriu um leitor do Impedimento, os próprios clubes poderiam ter emissoras e negociar direto com quem quisesse transmitir. Quem sabe, a Band, "o canal do esporte", ou a Record. Ou até mesmo a Rede Pampa.

Certo é que o povo quer futebol. Tanto é assim que, quando o Grêmio faz promoções de trocar um vidro de Nescafé por um ingresso, pagando meros R$ 5, o estádio enche. Vê-se que os capiaus nas ruas ficam animados dias antes, comentando que já fizeram a troca. Afinal, quem é dono dos clubes, a torcida, os patrocinadores ou a Globo?

13 de setembro de 2006, 11:18 | Comentários (13)

para achar bin laden, tente os camelôs de peshawar
The merchandise hidden under the glass counters, however, caters to a different kind of thrill. For a discreet inquiry and 75p, the smiling traders offer a wide selection of jihadi DVDs. Slickly edited footage shows beheadings of alleged collaborators, bombs that flip American Humvees into the air, and the last words of suicide bombers. And then there are the images of the lanky Saudi tycoon's son with a bad back, a scraggly beard and a placid, dead-fish glare. "I've sold about 100 since Friday," says Abdul at one of the stalls, sifting through a stack of discs. "Some ask for [Afghan militant] Gulbuddin. Some ask for Taliban. Some ask for Osama."

The sheikh, the director, the emir, even "the Samaritan" - Bin Laden violently changed the course of our world in 2001, and then began his own audacious flight from justice. Six days after the twin towers folded into Manhattan, while dazed Americans fumbled for meaning, President George Bush promised to lasso in the al-Qaida leader, Texan style. "There's an old poster out west, as I recall, that said, 'Wanted: dead or alive'," he told a press conference at the Pentagon. The order went down the line. Cofer Black, the CIA's counterterrorism chief, later told a subordinate, "I want Bin Laden's head shipped back in a box filled with dry ice." Yet five years on, a pokey video stand on the Pakistani frontier is about as close as anyone has got.

Reportagem de Declan Walsh faz um balanço da caça a Bin Laden, que promete se tornar um dos maiores fiascos da história da espionagem. Uma invasão militar e milhões e milhões de dólares para nada.

12 de setembro de 2006, 10:23 | Comentários (14)

11 de setembro

luto.gif

11 de setembro de 2006, 11:13 | Comentários (8)

revendo o voto

Há um mês, quando abri meu voto, a campanha na televisão ainda não havia começado. Nenhum debate fora transmitido. Nesse tempo, Heloísa Helena cada vez mais passou demonstrar péssimos sinais. Isto é, sinais de lulismo. O primeiro foi a forma arrogante como se comportou no Jornal Nacional e em outras situações de conflito, típica de nosso presidente. A candidata do P-Sol também adotou uma imagem "paz e amor", lembrando sempre que pode sua condição de mãe derretida e católica fervorosa. Nada disso combina com uma líder socialista, desculpem, nem aliás com a própria senadora, sempre combativa. Dá uma impressão muito densa de jogada publicitária. Nesse caso, Heloísa Helena estaria desistindo antes mesmo de começar. Lula ao menos perdeu três vezes, antes de trair seus ideais.

Cristovam Buarque, por outro lado, supreendeu em sua entrevista ao Jornal Nacional e continua surpreendendo. O ar de coitado combina com ele e isso o faz ao menos parecer honesto, se é que não o é mesmo. Por outro lado, tem sido ponderado em seus pronunciamentos, mas sem se deixar intimidar. É um sujeito racional, o que hoje em dia significa quase um suicídio político. Como se não bastasse, o brasileiro parece ter gostado de seu projeto para a educação, porque todos os outros candidatos andam martelando sobre esse assunto. Não admira. É o único a realmente ter algum projeto. Pode-se argumentar que seja imbecil, ou gostar, mas que Cristovam tem um projeto de Brasil, isso tem.

Criou-se o impasse. Por um lado, votar em Heloísa Helena seria uma boa maneira de lembrar o PT pragmático que ainda existem pessoas cujos ideais de esquerda restam intactos. Uma votação expressiva sua talvez chamasse o partido à consciência. Por outro lado, ela tem cada vez mais deixado transparecer semelhanças com os piores aspectos da esquerda, não os melhores. Por um lado, Cristovam pertence ao PDT, um partido com tendências caudilhescas e responsável por muitas desgraças no Rio Grande do Sul. Por outro lado, o P-Sol é um partido tão ruim quanto, embora por outros motivos. Votar em uma esquerdista duvidosa e dar um recado ao PT, ou então em um político divorciado da realidade, mas incentivar as boas práticas da racionalidade e ponderação no Brasil? Inclino-me a cada dia mais para Cristovam.

31 de agosto de 2006, 10:11 | Comentários (25)

stalinismo na banca de revistas

O jornaleiro e estudante de história Fábio Marinho, de Porto Alegre, parou de vender as revistas Veja, Época e a falecida Primeira Leitura. A gota d'água foi uma reportagem do semanário da Abril sobre Hugo Chávez em que " tudo era escrito num tom muito ofensivo, sem o menor respeito por um presidente de Estado, de uma nação soberana, eleito pelo voto popular". O semanário da Globo e o do PSDB foram barrados por "perseguir" o governo Lula. A parte mais educativa da entrevista é a seguinte:

Isso não pode prejudicar o seu trabalho, visto que a Veja é uma das publicações mais vendidas e que, portanto, gera grande retorno à banca?

Sobre perder vendas, bem, entre ganhar dinheiro com a Veja ou perder algumas vendas e contribuir para que os meus clientes descubram a Caros Amigos, a CartaCapital, a Reportagem, fico com esta segunda opção, sem falar no componente ético que em mim é muito forte.

É isso aí. Como todo bom estudante de história, Marinho é comunista. E como todo bom comunista, pensa saber o que é melhor para os outros. E pretende fazer com que o tenham, gostem ou não. Mas, evidentemente, os clientes da banca são pobres alienados, incapazes de decidir por si mesmos qual revista faz o melhor jornalismo, não é? O pior de tudo é ver gente que deveria proteger a pluralidade no jornalismo apoiando essa bobagem. Na praça em Berlim onde uma placa lembra a queima de livros de judeus e "escritores decadentes" pelos nazistas, há ao lado uma frase do poeta Heinrich Heine: "lá, onde se começa a queimar livros, ao final se está queimando homens".

22 de agosto de 2006, 22:08 | Comentários (41)

a arte da guerra ao crime
Uma das exigências dos seqüestradores da equipe da TV Globo em SP era aparecer na televisão. No vídeo eles fazem uma série de exigências, mas seqüestram o jornalista pedindo em troca a exibição do vídeo. A partir dessa constatação, gostaria de perguntar se a sociedade está se dividindo entre pessoas e não-pessoas, entre visíveis e invisíveis?

– Não, mas estamos nos dividindo entre aqueles que têm uma vida para viver e os que não têm. Na economia contemporânea é o contrário do capitalismo industrial clássico. No capitalismo contemporâneo, que se move à velocidade do sinal eletrônico e que aplica intensa, ininterrupta e sucessivamente tecnologia à produção da riqueza material, criou-se uma nova categoria que é o refugo humano. O velho Marx falava em exército industrial de reserva, mas o exército industrial de reserva acabou. Não existe mais. O exército industrial de reserva eram as pessoas que não estavam alocadas na divisão social do trabalho, mas que iriam ser integradas, mais cedo ou mais tarde, ou poderiam vir a ocupar um lugar na divisão social do trabalho. O refugo humano é gente que não ocupou, não ocupa e não ocupará lugar nenhum na divisão social do trabalho. Isso acontece no Brasil, assim como na Ásia, na África e nos demais países da América Latina. Com a presença do terceiro mundo no primeiro mundo, também vai acontecer no primeiro mundo. O último filme do Costa Gravas, O Corte, trata dessa questão, só que ao nível dos executivos. Aquilo é a insegurança com o emprego, o efeito daqueles que estiveram empregados no mundo do desemprego estrutural.

O sociólogo Luiz Carlos Fridman explica, sem mostrar aliás nenhuma simpatia pela bandidagem, por que as políticas de segurança pública baseadas APENAS na repressão estão todas fadadas ao fracasso. Quem não tem vida própria, não valoriza a vida dos outros. Os criminosos não têm nada a perder e, como já ensinava Sun Tzu, quem combate esse tipo de inimigo sempre sai perdendo. Por outro lado, Fridman dá alguma esperança ao dizer que esse "refugo humano" sem vida própria não precisa necessariamente entrar para o crime. Está disposto a qualquer coisa, desde ir para a igreja a entrar em uma oficina de artesanato ou música. Só é preciso que alguém ofereça uma alternativa. Ou seja, para vencer essa guerra, é preciso dar ao inimigo algo a perder.

19 de agosto de 2006, 12:41 | Comentários (8)

estamos cercados de idiotas

Norte-americanos conhecem melhor Krypton do que planetas do nosso sistema solar. Além disso, 74% conseguem lembrar dos nomes dos três patetas — Larry, Curly e Moe —, mas só 42% sabem quais são os três poderes — Judiciário, Legislativo e Executivo. E lá as escolas públicas são boas. A pesquisa também mostrou que mais norte-americanos conhecem Harry Potter do que Tony Blair, mas isso faz bastante sentido, já que Blair não influi diretamente em suas vidas. Os outros dados, porém, são preocupantes. Sobretudo porque essa gente controla bombas nucleares e o maior aparato militar da Terra.

A suposta ignorância dos norte-americanos é sintoma de um mundo em que conhecer o sistema solar ou compreender o sistema político não faz a menor diferença. A posição de Mercúrio, afinal, só influi na vida de quem acredita em astrologia. Por outro lado, saber que é o planeta mais próximo ao Sol não faz tanto sucesso nas reuniões sociais quanto lembrar o planeta do Super-Homem ou saber toda a cosmogonia de Harry Potter. As pessoas vão ao cinema, lêem livros ou assistem à televisão quase todos os dias. A política aparece só de dois em dois anos, quando são chamadas a eleger seus representantes. O conhecimento emancipador do iluminismo não faz mais parte da vida do ser humano comum. Aliás, nunca fez.

Isso é bom? Nem um pouco. Mas é compreensível.

16 de agosto de 2006, 10:20 | Comentários (23)

o lado bom

Por incrível que pareça, o seqüestro de um repórter da Globo pelo PCC pode ser um bom sinal. Os criminosos queriam a divulgação de um vídeo em que reclamam do Regime Disciplinar Diferenciado. Isso significa que o RDD funciona e realmente está atrapalhando a vida dos bandidos. Não o suficiente para impedir ações como essas, mas já indica um caminho a seguir pelo governo, caso queira dar um jeito na situação.

ATUALIZAÇÃO: Leia aqui a íntegra do comunicado do PCC, pedindo respeito à lei no trato com prisioneiros. Embora a reação instintiva seja pensar "ora, ladrões e assassinos exigindo direitos que não dão às suas vítimas!", o caminho não é esse. Se o Estado quer ver os cidadãos cumprindo a lei, tem de cumpri-la ele mesmo.

13 de agosto de 2006, 20:42 | Comentários (16)

votar nulo é direito. ponto.
A patrulha do bem tem uma característica inconfundível: se move sempre com a certeza de carregar a verdade absoluta. Daí o feitio quase religioso de suas cruzadas. Os virtuosos estão em campo de novo, agora para mostrar aos distraídos que o voto nulo é ruim para a democracia. Não ouse discordar. Você será tachado de alienado, ignorante ou agente involuntário da corrupção.

Votar nulo está errado, avisam os éticos. E não fique chateado, eles só querem o seu bem. Você é um sujeito distraído que não sabe o que é bom para você, mas para sua sorte tem alguém que sabe. E que vai lhe dizer o que fazer.

Nem sempre dá para concordar com o Guilherme Fiúza, então é bom aproveitar. Essa é dedicada aos leitores que criticam a opção pelo voto nulo.

6 de agosto de 2006, 12:16 | Comentários (20)

revendo o voto nulo

Agora que as candidaturas estão formalizadas e o cenário eleitoral mais ou menos definido, é uma boa repensar a proposta de anular tudo. Em março, dizia que era uma boa opção usar o voto nulo como forma de transmitir um recado aos políticos. Isso continua valendo. Por outro lado, o boato de que 50% de nulidade levaria a novas eleições não se confirmou. Embora o artigo 224 do Código Eleitoral preveja que "se a nulidade atingir a mais de metade dos votos do país nas eleições presidenciais, do Estado nas eleições federais e estaduais ou do município nas eleições municipais, julgar-se-ão prejudicadas as demais votações e o Tribunal marcará dia para nova eleição dentro do prazo de 20 a 40 dias", ele só faz sentido quando cotejado com o artigo 220, que descreve o conceito de nulidade:

É nula a votação:

I - quando feita perante mesa não nomeada pelo juiz eleitoral, ou constituída com ofensa à letra da lei;
II - quando efetuada em folhas de votação falsas;
III - quando realizada em dia, hora, ou local diferentes do designado ou encerrada antes das 17 horas;
IV - quando preterida formalidade essencial do sigilo dos sufrágios.
V - quando a seção eleitoral tiver ido localizada com infração do disposto nos §§ 4º e 5º do Art. 135.

Ou seja, nada a ver com o voto nulo. Falta agora explicar por que ele tem esse nome. Em todo caso, anular perde muito da graça. A questão dos Sanguessugas também se impôs neste período de quase seis meses. Um quinto do atual congresso está comprometido e muitos dos suspeitos são também candidatos. Não se pode arriscar que sejam reconduzidos ao Congresso. A Câmara e o Senado são muito mais importantes do que presidentes e governadores para os rumos do país. Afinal, apesar da aberração das Medidas Provisórias, são essas casas que decidem o que pode ou não ser feito, e como deve ser feito. Se fosse composto por gente mais honesta e trabalhadora, o Executivo seria naturalmente posto nos eixos. Só para dar um exemplo, se os parlamentares trabalhassem de verdade, as votações seriam mais rápidas e as MPs perderiam muito de sua utilidade.

A proposta, então, é a seguinte: votar a sério apenas para cargos legislativos e anular os votos para cargos executivos. Assim, une-se o útil à agradável sensação de levantar o dedo médio para toda essa corja.

O problema, é claro, é definir quem é honesto e trabalhador entre os candidatos. Comecemos pela deputância federal, que é mais fácil. Aqui, abro meu voto em Manuela d'Ávila, do PCdoB. Em primeiro lugar, ninguém do partido está envolvido em qualquer escândalo. Claro que, quando se é um partido sem poder, ninguém quer corromper seus quadros, mas a curto prazo o PCdoB pode ser considerado honesto. Em segundo lugar, a própria Manuela é honesta, até onde se pode perceber em duas horas de conversa ao vivo e pelas avaliações de outras pessoas que a conhecem. Finalmente, ela não apresenta a principal desvantagem da maioria dos comunistas: a tacanhice. Na entrevista para o Nova Corja, mostrou ter mente aberta e criticou a esquerda sectária. Difícil saber se vai fazer algo digno de nota na Câmara, propor Leis interessantes, mas mesmo que não faça nada por quatro anos, não se corromper já é suficiente. Outra opção é esperar que o Transparência Brasil adicione logo dados de gaúchos a seu dossiê.

No caso do Senado, a situação se complica. Os únicos candidatos com chances reais são Pedro Simon, do PMDB, e Miguel Rosseto, do PT. O primeiro até é honesto, mas infelizmente está metido em um partido mais sujo que pau de galinheiro. O segundo não está num partido muito melhor, mas pertence a uma tendência menos dada a meter a mão no dinheiro público. Porém, Rosseto é um imbecil. Jogo duro. A melhor escolha, por incrível que pareça, seria Vera Guasso, do PSTU. Motivo? Honestidade, aferida com base em relacionamentos pessoais. O partido tem os melhores slogans. Além disso, são grandes humoristas, a galera do PSTU. Seria bastante divertido. Enfim, o ideal seria pesquisar o comportamento legislativo de Simon e Rosseto, mas é proibitivo se afundar naquele lamaçal de salamaleques que são os dados à disposição. Por outro lado, não se pode contar com nossos valorosos jornalistas, que deveriam fazê-lo, para fazê-lo. Quanto a Simon, é preciso notar que seu suplente, ao menos agora, é Hermes Zanetti. Quem é esse cara? Simon está velho, afinal. Como não há mais muita diferença entre PT e PMDB, ou Simon e Rosseto, vou de Vera Guasso.

Restam os candidatos a deputado estadual. Em geral, os deputados que aí estão são todos um lixo. É o caso de se escolher um partido para votar, já que são 499 candidatos e é difícil obter informações, mas hoje em dia nenhum partido merece a distinção do voto na legenda. Nem os próprios sites dos partidos ajudam nesse sentido. Estou aceitando sugestões de bons candidatos.

Na eleição para presidente, no primeiro turno, votarei em Heloísa Helena, só para encher o saco do PT e mostrar que ainda há quem flerte com as idéias de esquerda nesse país, gente insatisfeita com o governo tucano de Lula. No caso trágico de ela ir ao segundo turno e ter reais chances de vencer, é tapar o nariz e votar no outro candidato. Senão, o melhor caminho é o litoral catarinense e a abstenção.

4 de agosto de 2006, 20:46 | Comentários (25)

cada eleição tem os fatos que merece

É impossível ficar entediado nesta vida, entre outras coisas, porque o mundo vive ironizando a si mesmo. Em 1993, Lula comandava a Caravana da Cidadania, visitando os cafundós mais perdidos do Brasil para conhecer a realidade das pessoas. Em uma chicana da direita, imagens externas foram proibidas no horário eleitoral gratuito, e por isso o candidato então de esquerda ficou sem seu melhor material.

2006. A mesma Globo, no mesmo Jornal Nacional que detonou as chances de Lula com uma matéria distorcida sobre o debate final em 1989, faz a sua própria Caravana pelo Brasil. O objetivo é mostrar os anseios dos brasileiros em todos os cantos. Comanda a empreitada o mestre de cerimônias, poeta esportivo e jornalista áulico Pedro Bial. O primeiro texto dele dá o tom do que está por vir:

Alô, alô, segura aí as últimas, ou melhor, as primeiras da “Caravana Rolidei”! Eu sei que certo povo de língua grande, excitável como só, prefere chamar nossa expedição de “Priscilão”, tudo certo, cada um dá o que quer, inclusive o apelido que bem lhe apraz. Prefiro citar o belo filme de meu sogro Cacá Diegues, “Bye Bye Brasil”, pois naquela história de ficção o Brasil se reconheceu – ou melhor não se reconheceu, e se surpreendeu...

Sim, continuaremos suportando poeminhas como aquelas narrações em câmera lenta da Copa. Interessante que não há em lugar algum menção à Caravana da Esperança. Talvez a Globo não queira deixar tão patente a reapropriação marqueteira da idéia. Reapropriação que não é condenável em si. As reportagens inclusive são muito boas, quando o Bial fica de boca fechada. Só é triste ver que a esperança de um país melhor pela via política se tornou um carnaval midiático inócuo, em que as celebridades televisivas substituem os representantes do povo.

31 de julho de 2006, 20:38 | Comentários (17)

cotas raciais ou sociais?

Quando o sujeito se pega concordando com Ali Kamel, contra Elio Gaspari, algo está muito errado. Mas o diretor de redação do Globo tem toda razão em ser contra as cotas para negros nas universidades — ou para índios, judeus, maoris, seja lá o que for. Até reproduziria alguns trechos de sua coluna, se a versão digital do jornal permitisse copiar texto, ou ao menos gerasse páginas estáticas para as colunas. Pelo jeito, estão em guerra contra os blogueiros. Em todo caso, o argumento principal é que nem todos os excluídos brasileiros são negros. Por isso, as cotas deveriam ser dadas conforme a renda, não conforme a cor.

É verdade. Quem mora no Rio Grande do Sul sabe que no Vale do Taquari, por exemplo, há descendentes de alemães tão pobres quanto os negros. Dar benefícios a uns e não a outros é, no mínimo, imoral. Por outro lado, reforça as diferenças baseadas na cor da pele, quando o objetivo é ter o efeito contrário. Outro problema, no Brasil ao menos, é definir onde começa e onde termina a negritude. Se meu pai fosse negro e minha mãe branca, e eu fosse um pouco moreno, teria direito a cotas? O avô do ruivo Cardoso é negro. Ou seja, ele é 1/4 negro. Teria direito? Aliás, negros e brancos não têm DNA igualzinho, exceto por um gene ou dois em meio a trilhões? Então, tecnicamente, todo mundo é negro, ou ninguém é. Outra questão é a diferença entre os Estados. Uma pessoa considerada branca no Rio de Janeiro ou Salvador poderia virar mulata ao chegar em Porto Alegre.

As cotas sociais são baseadas no currículo escolar e, por isso, precisas. Não há espaço, salvo fraude, para discussão. Quem cursou escola pública ganha pontos e pronto. Inclusive, incluiria um mecanismo para levar em conta a renda familiar e impedir que filhinhos de papai entrassem em uma escola pública no último ano de ensino médio, bem como para diferenciar os remediados, que poderiam fazer cursinho, dos miseráveis. A Unicamp vem usando cotas sociais com muito sucesso. Em geral, os alunos são muito mais disciplinados e motivados que os outros. Claro que, ao propor cotas sociais, o governo admite que não cuida direito de suas escolas. Melhor faria destinando mais recursos a elas. Mas levaria tempo até consertar toda a lambança que se instaurou, então, ao menos por enquanto, dar um empurrãozinho aos mais pobres é a melhor opção.

Raramente aparece nestas discussões o argumento de que, em termos raciais, o vestibular é uma das seleções mais igualitárias existentes. O computador que analisa as folhas óticas com respostas não sabe se o candidato é branco ou negro, muito menos teria capacidade de discriminar uns ou outros. A lógica das cotas raciais é que, como são discriminados desde a infância, como seus pais tiveram menos chances por ser negros e por isso não puderam lhes dar maiores confortos e educação em escolas particulares, os candidatos negros teriam direito a preferência. Mas isso é cota social, não racial, mesmo que a causa mais anterior da pobreza seja a discriminação. Outro objetivo seria aumentar a representatividade dos negros na formação superior, já que são metade da população. No entanto, como em geral fazem parte também da metade mais pobre, acabariam recebendo preferência de qualquer maneira. E os brancos pobres do Vale do Taquari não teriam motivos para detestá-los.

A Raquel Recuero lançou há um tempo a pergunta sobre como fazer quanto ao ingresso em mestrado e doutorado. Seriam necessárias cotas? Não. Em tese, quem já passou por uma universidade e se graduou está no mesmo nível dos outros candidatos, seja qual for a cor. Inclusive, quem se formou em universidade pública tem vantagens, ao contrário do que ocorre no ensino básico. Este argumento fecha a questão por si mesmo, mas há mais.

Uma pós-graduação pressupõe um tipo de relação diferente entre a instituição e o aluno. O comprometimento das duas partes é muito maior. Um aluno da graduação pode abandonar o curso quando quiser e o problema é dele. Se um mestrando ou doutorando não defende sua tese, porém, a instituição é penalizada. O candidato precisa se adequar às linhas de pesquisa, aos projetos do orientador e, pode ser chato dizer isso, mas é preciso haver uma relação de simpatia entre um e outro. Não se passa dois ou quatro anos trabalhando com alguém com quem se antipatiza. Uma seleção para pós-graduação não pode ficar refém de um mecanismo que a obrigue a aceitar um aluno sob qualquer outro critério que não o de uma união de conhecimento, carisma e histórico que podem ser sintetizados na palavra competência.

29 de julho de 2006, 20:32 | Comentários (47)

não existe vida fora da banda larga

Graças a uma operadora de telemarketing imbecil, ainda estou sem banda larga em casa. Porém, dois assuntos exigem comentários imediatos.

  • Não é preciso ler o site da Fenaj e dos sindicatos, ou a Carta Capital, para saber que vão acusar Lula de ter se dobrado aos interesses da "grande mídia" ao vetar a lei que ampliava o leque de atividades que exigiriam diploma de jornalista. Talvez. Por outro lado, ainda não encontrei nenhum bom jornalista que defendesse a idéia.

  • Se ataque "inteligente" de Israel acerta até prédios da ONU, mesmo com diversos alertas das forças de paz, imagine-se o quanto conseguem separar os civis inocentes dos terroristas.

    Porém, existe esperança nessa vida.

    ATUALIZAÇÃO: Quem diria, nem o Mino Carta. De fato, nenhum bom jornalista defende a proposta.

    26 de julho de 2006, 21:18 | Comentários (22)

    façam o que eu digo

    Então, fica combinado assim: quando palestinos matam civis israelenses, é terrorismo. Quando Israel bombardeia alvos civis no Líbano, mesmo longe da área de concentração do Hizbolá, é legítima defesa.

    14 de julho de 2006, 13:34 | Comentários (64)

    guerra civil

    Até que ponto deverá chegar o caos em São Paulo, para que se declare Lei Marcial e invada as ruas com o exército? Vinculada a isso está outra questão: até que ponto colocar os direitos dos presos acima da segurança nacional? Todos sabem quem são os comandantes dos ataques. Seria possível colocá-los em um isolamento ainda maior do que já estão no regime restritivo. Ou mandá-los para alguma cadeia de localização desconhecida.

    Quem diria que o Brasil teria de lidar com os constrangimentos da guerra ao terror um dia? Por um lado, dar poderes de exceção à polícia e ao exército é sempre perigoso. Por outro, estão queimando ônibus e prédios públicos e matando gente à pampa.

    14 de julho de 2006, 10:29 | Comentários (15)

    tempos difíceis

    Anda difícil manter o otimismo com toda a idiotice que corre solta pelo mundo. Harold Bloom que o diga, em entrevista ao Polzonoff:

    PPJ: O senhor faz declarações muito interessantes sobre as distinções entre Javé, Jesus e Jesus Cristo, que seria um outro personagem. Fico aqui me perguntando: o leitor comum é capaz de compreender seus argumentos? Será que este tipo de leitor, que cresceu lendo autores vulgares, está capacitado para discutir suas idéias?
    HB: Realmente, as pessoas não estão preparadas. Elas não querem… É complicado, porque é um livro que exige educação. Não quero impor nada. É um livro de idéias. Não sei como anda a educação no Brasil, mas tenho a impressão de que a educação no mundo como um todo tem piorado. Vivemos na Era da Informação, pessoas conseguem informação que querem a todo o momento, vivem na frente do computador. Mas não tenho certeza se isso se traduz em educação. Se elas estão abertas a discutir idéias, se conseguem compreender. Vivemos tempos estranhos…

    PPJ: Há quem diga (eu digo), que vivemos uma segunda Idade das Trevas. Vivemos tempos obscurantistas...
    HB: Acho que é uma boa definição. Vivemos, sim, numa Idade das Trevas. Obscurantistas, sem dúvida.

    Bloom também diz na entrevista que Harry Potter e qualquer outra literatura do gênero, ao contrário do que se diz, não é a porta de entrada para a boa literatura. É a porta de entrada para Stephen King.

    Faz sentido. Os livros do aprendiz de feiticeiro certamente não são literatura com L maiúsculo. São entretenimento. Bom entretenimento, mas tão somente. É provável que apenas mantenham as crianças acostumadas a se anestesiar, como faz a televisão. Por outro lado, comecei a vida de leitor com diversas porcarias e acabei chegando a bons livros, de algum modo. O livro que realmente me fez gostar de ler foi Vinte mil léguas submarinas, de Júlio Verne, que embora seja muito divertido, é literariamente pobre.

    15 de junho de 2006, 17:37 | Comentários (11)

    vale a pena ver de novo

    Reproduzido aqui o texto publicado no Nova Corja, porque o assunto é importante:

    Ligue 0800-619619. Não digite nada. Espere para falar com uma atendente. Diga que é para votar a favor do cancelamento da taxa de telefone fixo, que custa R$ 37,02. A Lei é a nº 5476. O assunto não está sendo veiculado na TV ou rádio porque as empresas não têm interesse neste tipo de divulgação. O telefone é da Câmara dos Deputados. Mesmo se não for você quem paga o telefone da sua casa, exerça seus direitos. As ligações são aceitas de segunda à sexta-feira, das 08h às 20h.

    As ligações são rápidas. É necessário informar apenas seu nome completo, a cidade onde mora e o número do telefone fixo de sua residência. Quando a lei entrar em vigor, quem estiver cadastrado só pagará pelas ligações efetuadas. Este projeto está tramitando na Comissão de Defesa do Consumidor na Câmara. Quanto mais pessoas ligarem, mais fácil será para o projeto ir à votação.

    Pode ser que as ligações fiquem mais caras para aqueles que usam todos os minutos oferecidos no plano básico. Seria lógico para as empresas tentar compensar a perda da assinatura básica com alta na tarifa. Para aqueles que jamais passam de 15 minutos ao telefone todo mês e só instalaram a porcaria do aparelho por causa da banda larga — o que aliás configura crime de venda casada, mas parece que só a consumação nos bares incomoda —, o projeto é essencial.

    25 de maio de 2006, 12:38 | Comentários (6)

    epifania no churrasco de domingo

    Sempre fui a favor do parlamentarismo. Sobretudo depois de conhecer o sistema de governo alemão. No entanto, basta lembrar de como a Câmara elegeu Severino Cavalcanti, para apoiar com todas as forças o presidencialismo.

    23 de abril de 2006, 23:03 | Comentários (17)

    mais um se junta às fileiras

    O 10 anos a 1000 se junta à campanha pelo voto nulo. O vídeo tem péssima qualidade, mas dá para se ter uma idéia do que foi a distribuição de dinheiro com "vote nulo" carimbado, no que parece ser a Avenida Paulista. Os dados do autor dizem que ele é head trader de um banco de investimentos, o que coincide com o local de trabalho e a abundância de recursos para a campanha.

    Há uns anos, influenciado por Hakim Bey, costumava escrever coisas como "você é o que consome?" e "quanta felicidade você pode comprar com esta nota?". Acho que é o momento de retomar o terrorismo poético, agora com objetivos políticos.

    Dica do Charles Pilger.

    20 de abril de 2006, 17:23 | Comentários (25)

    nuke the hippies

    Um ambientalista defende a energia nuclear. Os argumentos de Patrick Moore são bastante razoáveis:

  • O custo é comparável ao da força hidrelétrica ou termelétrica;
  • são relativamente seguras, quando se seguem as regras — o que não foi o caso em Chernobyl;
  • o lixo nuclear decai em apenas 40 anos e já existem tecnologias para reaproveitá-lo;
  • é verdade que o lixo pode ser usado para fabricar armas nucleares, mas para evitar isso também já existe tecnologia e, de qualquer modo, quase toda tecnologia é perigosa.

    O principal argumento, no entanto, é a possibilidade de substituir as 600 termelétricas norte-americanas, responsáveis por nada menos que 10% das emissões globais de dióxido de carbono. Problema muito mais urgente do que qualquer uma das possíbilidades trágicas da energia nuclear.

    Sugestão do Gabriel.

    17 de abril de 2006, 21:09 | Comentários (15)

    perguntar não ofende

    Por que um bando de estudantes franceses pode pôr fogo em tudo devido a um projeto de lei, mas muçulmanos que tiveram seu mais importante símbolo religioso avacalhado em um cartum sacrílego não podem pôr fogo em embaixadas? Por que se aplaude a ação de uns e se condena a de outros? Vendo bem, o motivo por trás das duas badernas é o mesmo: ameaças ao imaginário, religioso num caso, político no outro.

    31 de março de 2006, 19:03 | Comentários (18)

    somos todos gérson

    Pesquisa mostra que 75% dos brasileiros cometeriam atos ilegais. Foi feita pelo Ibope. Conforme os dados, os brasileiros mais honestos são os menos instruídos e mais pobres. A classe média já aceita muito melhor dar uma gorjeta para o guarda esquecer a multa, sonegar impostos ou empregar um parente em cargo público.

    Ainda mais interessante, as pessoas mostraram uma tendência a condenar os atos, mas praticá-los mesmo assim. Assim, 78% acham inaceitável fazer trem da alegria com parentes em viagens oficiais. Mas só 57% disseram que não fariam isso. Outra boa:

    40% dos entrevistados nunca compraram produtos que copiam os originais de marcas famosas, mesmo sabendo que são falsificações. Mas eles dizem que apenas 11% dos seus conhecidos tiveram o mesmo comportamento. E acreditam que míseros 2% dos brasileiros nunca fizeram algo parecido.

    Os dois conjuntos de dados acimam só podem ter um significado: o brasileiro tem tendência a mentir em pesquisas. É óbvio que todo mundo já comprou produtos piratas, ou fez gato na TV a cabo. Só que mentem ao responder aos questionários, talvez por medo de represálias. Ou para não encarar a própria falta de ética.

    Por outro lado, indicam também o quanto esse é um país de merda. O sujeito tenta garantir o seu porque nunca sabe como será o futuro. Tem consciência de que determinadas atitudes são erradas, mas no contexto em que vive, sabe que é preciso ser desonesto às vezes. A isso se chama sobrevivência. Por que pagar impostos se vão ser roubados e poderiam financiar uma boa parte da escola das crianças? Ou multas? É chato botar meu irmão como meu assessor, mas por outro lado o mercado de trabalho está difícil... Estou orgulhoso do brasileiro. Essa pesquisa mostra que é completamente realista.

    Claro que, enquanto continuar assim, o país também não melhora. Se toleramos a corrupção no cotidiano, é natural que o Congresso ainda esteja em pé depois de tudo o que rolou por lá nos últimos meses. Fosse em um país onde a transgressão não vale a pena no dia a dia, já estaria em chamas. Só toleramos o que se parece conosco. O problema é que uma mudança de atitude viria só a longo prazo e a maioria das pessoas, aliás muito sabiamente, não pretende ser trouxa sozinha até que a massa crítica se forme.

    Isso é um trabalho que fica para gente idealista.

    29 de março de 2006, 10:07 | Comentários (10)

    cagando lei

    Marcos Sá Corrêa pede ajuda para redigir um projeto de reforma política para o Brasil. É domingo, o sujeito não tem nada para fazer, acaba enviando uma idéia:

    A TV Câmara e a TV Senado transmitirão o Big Brother Brasília em horário integral. No programa, o contribuinte poderá acompanhar o cotidiano de seus representantes, desde o café da manhã até o copo de leite antes de deitar-se, passando por reuniões, telefonemas e encontros com outros políticos, grupos de interesse e lobistas. Exceção para as visitas ao banheiro, desde que o parlamentar esteja desacompanhado.

    12 de março de 2006, 19:06 | Comentários (3)

    proud to swim home

    Para quem anda se perguntando como andam as coisas em Nova Orleans, Idelber Avelar faz um excelente relato com olhos de morador.

    11 de março de 2006, 16:31 | Comentários (1)

    rio 40 graus

    O que deu nos traficantes cariocas? Em geral esses fuzis roubados do exército apareciam rapidinho, assim que os militares ameaçavam chegar perto das favelas. Desta vez, estão deixando o Rio virar zona de guerra. Não é preciso ser o Delfim Netto para saber que isolar os morros e cortar o fluxo de drogas é ruim para os negócios. Os clientes, afinal, estão na praia. E não é preciso ter servido para saber que os milicos vão encontrar essas armas, nem que tenham de jogar napalm nas favelas.

    Chega-se a duas possíveis conclusões: ou os chefões do tráfico não sabem quem roubou as armas e assim não podem entregá-las ao exército junto com um cadáver, ou então eles têm muito mais poder de fogo do que imaginamos aqui fora. De qualquer jeito, fica o risco de as pessoas gostarem da idéia de ter os militares patrulhando a cidade permanentemente. Daqui a pouco, vão começar a achar que a ocupação deve se estender ao Planalto.

    8 de março de 2006, 14:48 | Comentários (10)

    o que é bom para a itália é bom para o brasil

    — Senhor Berlusconi, como o governo pode ajudar um trabalhador a ganhar pelo menos 1500 euros ao mês?
    A resposta de Berlusconi, o empresário, é... tentem ganhar mais.

    Taí. Esse conselho tem tudo para resolver as mazelas sociais do Brasil também. Ainda bem que existem homens como Berlusconi no mundo.

    7 de março de 2006, 10:57 | Comentários (10)

    política aqui e lá

    O curso de alemao que estou fazendo aqui inclui seminários sobre literatura, política e "comunicacao intercultural". Nosso professor, Herr Westerhoff — aquele que sofreu uma revista proctológica pela polícia — é bastante interessado no assunto e em geral passa metade da aula nos fazendo perguntas sobre a política em nossos países. Em uma destas ocasioes comentou-se sobre o mensalao.

    Herr Westerhoff entao lembrou de um caso igual ocorrido na Alemanha. O ex-chanceler Helmut Kohl recebeu dinheiro de alguma fonte privada para o seu partido, a Uniao Crista Democrática [CDU]. Eram uns trocados, coisa de poucos millhoes de euros. Pois bem, quando o caso foi descoberto, o parlamento pediu explicacoes a Kohl. Ele admitiu tudo, mas se negou a revelar a fonte do dinheiro, dizendo que havia °dado sua palavra" quanto a manter sigilo. Com isso, teve de pagar os impostos cobrados sobre doacoes privadas a partidos, algo como € 600 mil. Até hoje todos se perguntam quem ressarciu o ex-chanceler, que depois de tudo isso ainda ficou mais 14 anos no poder. O SPD, social-democrata e oposicao ao CDU, ameacou investigar a fundo o caso, mas voltou atrás quando os conservadores prometeram investigar casos parecidos na esquerda.

    A licao é: política é igual no mundo inteiro. Nao precisamos continuar com nossa síndrome de vira-latas. A política no Brasil é feita como no primeiro mundo.

    Aliás, a política é tao parecida nos dois países, que aqui na Alemanha também existem partidos tao imbecis quanto o PCO ou o PAN. Meu preferido é o Partido dos Cristaos Fiéis à Bíblia. Ou entao o Partido dos Nao-Votantes. E, claro, o Partido Anarquista, cujo slogan é Arbeit ist Scheisse [Trabalho é uma merda].

    14 de fevereiro de 2006, 10:13 | Comentários (14)

    paranóico é alguém com uma vaga noção da realidade

    — Você já parou para pensar em como os habitantes da Cidade do Kuwait, após serem mantidos reféns por sete longos e dolorosos meses, foram capazes de conseguir bandeiras norte-americanas — aliás, de outros países da coalizão também?

    Bem, agora sabe-se a resposta: era parte do trabalho de John Rendon, do Rendon Group. A revista Rolling Stone tem uma extensa e profunda reportagem sobre como Rendon ajudou a criar as condições para a invasão do Iraque na opinião pública norte-americana e, em menor extensão, mundial. A matéria mostra ainda como os grupos com poder político e econômico influenciam a mídia de forma sutil, um trabalho chamado de "gerenciamento de percepção".

    Rendon considera seu trabalho como um ajuste das "impressões erradas sobre a realidade" que os jornalistas passam à sociedade em seu afã pelo furo:

    Although his work is highly secret, Rendon insists he deals only in "timely, truthful and accurate information." His job, he says, is to counter false perceptions that the news media perpetuate because they consider it "more important to be first than to be right." In modern warfare, he believes, the outcome depends largely on the public's perception of the war — whether it is winnable, whether it is worth the cost. "We are being haunted and stalked by the difference between perception and reality," he says. "Because the lines are divergent, this difference between perception and reality is one of the greatest strategic communications challenges of war."

    É, pois é. Burroughs talvez tivesse razão, mesmo.

    17 de dezembro de 2005, 16:31 | Comentários (3)

    para onde ir

    O Canadá tem as melhores cidades para se visitar, segundo a revista The Economist. Visitar a negócios, bem entendido, muito embora isso provavelmente signifique que são boas de morar, também. O Brasil conseguiu apenas um 87º lugar para o Rio de Janeiro, atrás de Bucareste, na Romênia, e até de Asunción, no Paraguai. Provavelmente devido à violência, fator que contou muito na pesquisa. Aliás, fizeram a gentileza de publicar a metodologia.

    Nesta mesma edição com previsões para 2006, Philip Eden sugere que nos próximos 20 anos o clima será mais quente e seco na maioria dos lugares, enquanto as tragédias como furacões e inundações provavelmente serão mais freqüentes e terão maior duração. Além disso, Emerson fala sobre o futuro do futebol. Infelizmente, boa parte do conteúdo é fechada para não-assinantes.

    17 de dezembro de 2005, 12:18 | Comentários (1)

    o que fazer com os criminosos?

    O Cisco e o Solon quase têm razão sobre a lenga-lenga em volta da execução de Tookie Williams. Apesar de ele ser péssimo garoto-propaganda para os contrários à pena de morte, o debate gerado em torno do tema tem seu mérito. De qualquer modo, sua execução serve até melhor na luta contra a pena capital, até porque comprova que esta tem a ver somente com vingança, não com benefícios à sociedade, já que hoje em dia o condenado era militante contra a violência e valia mais vivo.

    Por outro lado, a grande verdade é que, no fundo, nenhuma pena de reclusão tem em vista benefícios à sociedade. Trata-se sempre de mera vingança. Qualquer um que conviva duas semanas com detentos descobre logo que é muito difícil alguém se regenerar ali. Cadeias são apenas um depósito de lixo para a escória de que a sociedade quer se ver livre. Neste sentido, talvez fosse mais útil enviar todos os condenados a uma ilha no meio do oceano, como se fazia antigamente. Ou para trabalhos forçados em minas de carvão. Ou ainda para seminários evangélicos isolados. Por incrível que pareça, somente as seitas evangélicas mostram ter algum poder de regeneração sobre os criminosos. Nem tão incrível, pensando bem: praticam a boa e velha lavagem cerebral.

    14 de dezembro de 2005, 21:07 | Comentários (13)

    cai fora, zé

    Ricardo Kotscho entrevista José Dirceu. Entrevista entre compadres, claro:

    Às vésperas do teu julgamento pela Câmara, como você se sente? Em que tem pensado nos poucos momentos em que fica sozinho?

    Eu me sinto profundamente reconfortado pelo apoio que venho recebendo. Evidentemente, estou triste, mas não amargurado, por tudo o que aconteceu. E eu tenho feito uma reflexão profunda sobre os erros que nós cometemos e como posso ajudar a superar esta situação. Minha vida pessoal não mudou. Faço exercícios todos os dias, acabei de ler “A Aventura de Miguel Líttin Clandestino no Chile”, de Gabriel Garcia Marques (a história de um cineasta que consegue escapar do fuzilamento nos anos Pinochet) e agora estou lendo “O Diário de Nina”, de Nina Lugovskaia (o terror stalinista nos cadernos de uma menina soviética). Já li mais de dez livros nesta crise. Vejo filmes em casa, vou à Câmara, cuido da minha defesa. E durmo razoavelmente bem para a situação que estou vivendo.

    As leituras mostram que não, José Dirceu não se recuperou ou arrependeu. Das duas uma: ou está lendo estes livros para se inspirar em um movimento de vingança stalinista, ou então os citou apenas como forma de provocação a seus acusadores, querendo indicar que se sente como perseguido político em um período de totalitarismo.

    20 de novembro de 2005, 1:17 | Comentários (4)