
mais algumas respostas para o FAQ
Acabei de responder a algumas perguntas sobre jornalismo participativo para uma estudante de São Paulo que está fazendo um trabalho de conclusão focado nesse tema. Aí lembrei da Lei de Lavoisier e que este blog não é atualizado há tempos. Resolvi repubicar aqui, até para ajudar outros estudantes que vivem me enviando perguntas.
1- O que é jornalismo colaborativo para você?
O webjornalismo participativo acontece quando um site ou uma seção de um site jornalístico permite interferênias tão profundas no conteúdo (e por vezes na forma) que a divisão entre escrita e leitura começa a ficar indistingüível.
Em outras palavras, há webjornalismo participativo se as colaborações do público forem essenciais para a manutenção de um site ou parte dele. O VC Repórter não aconteceria se as pessoas não enviassem textos, fotos e vídeos para lá, assim como o Ohmynews estaria vazio se não fossem os repórteres-cidadãos espalhados pelo mundo.
2- Qual é o papel do jornalista dentro do jornalismo colaborativo?
Orientação, edição e, claro, participação. Nos dois exemplos citados acima há jornalistas selecionando as melhores matérias e checando fatos.
Porém, existem projetos de jornalismo participativo em que os colaboradores mesmos regulam o processo de coleta, edição e publicação de notícias, como no Kuro5hin ou no Wikinotícias. Nada impede que jornalistas colaborem com esse tipo de site, porém. De fato, alguns repórteres escrevem para webjornais participativos ou criam blogs com o objetivo de abordar assuntos em que não podem tocar em sua vida profissional.
3- Você acredita que existe jornalismo colaborativo no Brasil? Qual é a maior diferença entre os sites colaborativos daqui e sites de outros países?
Existe e não vejo diferença alguma, exceto pela língua, o que nos limita em termos de audiência. Outra coisa que nos limita é o analfabetismo funcional da população, que impede um ganho de escala nas colaborações. Por causa disso, há pouca atualização nos webjornais totalmente participativos.
4- Quais são as diferenças entre o jornalismo colaborativo e o jornalismo tradicional?
Em primeiro lugar, é preciso ter sempre em mente que o jornalismo participativo é complementar ao jornalismo tradicional. Há indícios de que a maioria dos valores-notícia do jornalismo tradicional valem para o jornalismo participativo, mesmo quando não há supervisão de um profissional qualificado. Assim, eu diria que o jornalismo participativo é uma subcategoria do jornalismo, não uma atividade
completamente separada.
O que é característico do jornalismo participativo é a interferência direta do público, que não precisa mais esperar pelos repórteres profissionais para divulgar uma informação. Isso, é claro, traz implicações boas e ruins. Por um lado, há mais pluralidade de pontos de vista e maior variedade de acontecimentos divulgados. Por outro, nem sempre as informações são checadas adequadamente antes de serem
publicadas.
5- Acredita que conteúdos colaborativos podem substituir o jornalismo tradicional?
Não. O jornalismo participativo é uma forma que as empresas de mídia e a sociedade encontraram de enfrentar o problema da falta de recursos nas redações, que impede a cobertura de todos os assuntos de interesse do público. É, portanto, complementar.
Além disso, há a questão da credibilidade. O público pode ser bom para noticiar um buraco na rua onde moro ou uma foto de um acidente, mas eu não basearia o investimento da minha poupança em uma dica de algum blogueiro anônimo, por exemplo. Nesse caso, procuraria ler o Valor Econômico ou Wall Street Journal. É tudo uma questão de bom senso.
6- Você acredita que o blogueiro pode vir a ocupar o lugar do jornalista?
Não, pelos mesmos motivos acima e por um motivo mais forte: blogueiros em geral não têm recursos para a apuração de pautas. Mesmo um telefonema interurbano é um custo alto quando não se ganha nada em troca do trabalho. Imagine pagar os custos de um inevitável processo judicial no caso de você descobrir e publicar alguma denúncia de
corrupção no governo, por exemplo.
Os blogueiros podem vir a substituir os jornalistas em alguns assuntos de nicho, e nesse caso talvez com muito mais qualidade. Os jornais têm espaço limitado ou, no caso da Web, limitações de força de trabalho. O jornalismo tradicional não tem condições técnicas ou econômicas de tratar com profundidade todos os assuntos. Aí entram os blogs, para dar profundidade.
7- Hoje, qual é a importância dos blogs?
Os blogs são importantes em vários níveis, dependendo dos objetivos de quem os lê ou escreve. No caso da mídia, diria que são importantes para preencher as lacunas deixadas abertas pela escassez de recursos do jornalismo, e como fiscalizadores do "quarto poder", apontando erros e denunciando falcatruas de jornalistas, publicitários e
relações públicas.
8-O que é necessário para cativar e manter o público?
Ser honesto. :-)
9-Quais são as falhas que a mídia tradicional comete nos projetos de jornalismo colaborativo?
A principal falha é pretender abrir um espaço de participação sem abdicar do controle sobre o processo de comunicação, ao menos em parte. Empresas que não têm uma cultura de participação por vezes criam um canal participativo com o único objetivo de "não ficar para trás" da concorrência. Isso acaba quase sempre sendo um tiro no pé, porque criam sistemas engessados, que terminam por morrer melancolicamente de falta de participação.
10-Por não existir legislação na internet, como fica a questão da ética?
Bem, a ética não é nem nunca foi uma questão de legislação, mas sim de caráter. Assim como há blogueiros e repórteres amadores antiéticos, há jornalistas antiéticos. Casos não faltam para provar que nossos colegas estão no mesmo nível do resto da humanidade em termos de caráter.
Por outro lado, toda a legislação já existente para coibir casos de calúnia, difamação, má-fé e outros crimes de imprensa vale para a Web e para o jornalismo participativo. Qualquer pessoa que se sinta lesada por um veículo de jornalismo participativo pode requerer seus direitos na Justiça.
11-Como você vê o jornalismo colaborativo daqui a cinco anos?
Um avanço interessante poderia ser a abertura de espaços colaborativos em infográficos e animações, coisa que ainda não vi em nenhum webjornal.
1 de abril de 2008, 16:36 | Comentários (5)
jornalistas x blogueiros, episódio 347[...] o erro está sempre de tocaia e ataca quando a gente está relaxado, quando a gente acha que aquilo que está fazendo é fácil e simples. Por isso, como ouvinte, telespectador e leitor, como consumidor de informação, desprezo o excesso de interatividade. Quando ligo o rádio e ouço "esse programa é feito pelo ouvinte", mudo de estação. Não quero ouvir algo que é feito pelo ouvinte, nem ler o que o leitor escreve. Quero o trabalho do especialista, do jornalista de comprovadas experiência e competência. Quero consumir a elite, não a mediocridade. Até democracia demais cansa.
David Coimbra não gosta da invasão de leigos no jornalismo. Prevejo que muitos blogueiros vão denunciar o colunista de Zero Hora como tacanho, conservador e corporativista, mas estarão errados. Em primeiro lugar, Coimbra tem razão. O público raramente tem o conhecimento e, principalmente, os recursos à disposição dos repórteres profissionais para coletar e publicar informação. Em segundo lugar, as pessoas simplesmente têm o direito de não confiar no público que faz o webjornalismo participativo, ou de não gostar do resultado em termos estéticos e técnicos.
Existe muita porcaria sendo publicada Web afora em espaços destinados à participação da "ex-audiência". É muito raro encontrar um blog realmente bom. Mais raro ainda encontrar verdadeiros esforços de reportagem em sites como Wikinews ou Kuro5hin. Já o Digg se resume, no mais das vezes, a um repositório de todo tipo de lista ou tutorial. Nós que fazemos o webjornalismo participativo acontecer precisamos admitir que estamos deixando a desejar em muitos aspectos.
Isso dito, não dá para entender como Coimbra critica a participação do público quando em seu próprio jornal existe um dos melhores exemplos de webjornalismo participativo: a seção leitor-repórter. Trata-se de uma combinação excelente entre os "milhares de globos oculares" da audiência e a técnica jornalística. Os repórteres da RBS não podem estar em todos os lugares ao mesmo tempo, ainda mais com as reduções de força de trabalho pelas quais as redações passaram nas últimas décadas. O público, então, se encarrega de publicar pequenas notas a respeito de problemas para os quais David Coimbra e seus colegas jamais teriam tempo ou vontade de dar atenção. A equipe da Zerohora.com, por sua vez, usa seu conhecimento e acesso a fontes para dar voz a quem tenha sido implicado em alguma informação enviada pelo público. A audiência começa a fazer o serviço do pauteiro, doando seu próprio tempo à RBS, mas ganha em compensação uma cobertura melhor dos problemas que realmente lhe interessam.
Não é demais lembrar também que em geral os programas "feitos por ouvintes" nas grandes empresas de mídia são editados por jornalistas qualificados. Logo, se o resultado é ruim, a elite também precisa ser responsabilizada. É assim que funciona na RBS, empresa onde Coimbra trabalha. Inclusive, o próprio jornalista citado como exemplo de competência, Túlio Millman, usa fotos de telespectadores na vinheta do Teledomingo, e há também um quadro chamado "Meu mundo em um minuto", para o qual as pessoas são convidadas a enviar histórias. Millman está listado apenas como âncora do programa, mas sua participação implica em uma aceitação de que a audiência vai participar.
Coimbra não chega a afirmar isso, mas em geral quem critica a participação do público tende a achar que a mídia é um jogo de soma zero. Isto é, que é uma questão de eles ou nós, um ou outro, jornalistas profissionais ou "ex-audiência". A questão é que, com a televisão a cabo e a Web, a esfera midiática deixou de ser um latifúndio com escassez de espaço, onde realmente um tirava o lugar do outro, e passou a ser um espaço praticamente infinito. Ou seja, não é mais necessário barrar o material medíocre, pode-se publicá-lo e deixar à disposição de alguém que se interesse. E sempre há quem se interesse por qualquer coisa.
Ao ler o texto de Coimbra, fica-se com a suspeita de que ele não conhece direito o assunto do qual está pretendendo falar. Se tivesse se dado o trabalho de investigar a Web -- ou mesmo o próprio site do jornal em que trabalha --, poderia perceber que existe muita "elite" escrevendo em blogs, fóruns, webjornais participativos e quejandos. Um dos primeiros blogueiros do mundo é para além de 1337: Dave Winer, desenvolvedor de grande parte dos programas que usamos hoje para criar mídia na Web. Há alguém mais elite no Brasil do que o blogueiro Alexandre Soares Silva? Escreve melhor do que um batalhão de colunistas. Algum jornalista explicou de maneira mais simples a Web 2.0 do que o antropólogo responsável por esse vídeo? Os próprios veículos de webjornalismo participativo que critiquei acima volta e meia publicam matérias muito boas. Isso para não citar todos os fóruns em que especialistas regularmente dão informações técnicas de alta qualidade sobre suas áreas de atuação, de graça, para quem quiser saber.
O público participante erra, e muito. Porém, jornalistas profissionais também erram. E muito -- que o diga o Luís Nassif, inquestionável membro da elite, que matou Hélio Gama em seu blog semana passada. E vários deles têm um texto nada menos do que tenebroso. É difícil encontrar um cientista ou técnico em qualquer assunto que tenha sido entrevistado e considerado boa a matéria resultante. Sempre apontam erros crassos de compreensão por parte dos repórteres -- se não acredita, basta ver a seção media do blog Bad Science.
Antes da Web e da mídia social, webjornalismo participativo ou como queiram chamar, os verdadeiros detentores do conhecimento dependiam da boa vontade dos jornalistas para se comunicar com o público. Hoje, tudo o que os separa do público é um pouco de boa vontade desse público em garimpar a Web. Tarefa que nem sempre a elite da qual Coimbra faz parte desempenha corretamente, apesar de receber salário para isso.
17 de março de 2008, 11:57 | Comentários (15)
post pago é tiro pela culatraPor favor, prezados marqueteiros, convençam-se de uma coisa: pagar blogueiros para publicar textos favoráveis a seus clientes, além de moralmente questionável, é desnecessário e quase sempre acaba em humilhação. Mesmo quando não acaba em desmoralização do blogueiro e conseqüentemente da empresa, fica chato, porque as pessoas não são tão idiotas assim e, em geral, percebem um ruído no fluxo normal do discurso do blog contratado.
Pior do que pagar por um post, só não pagar: a agência paulista Riot convidou o pessoal do Futepoca a escrever um texto elogiando Ronaldo, o fenômeno, que anda em baixa até com o Galvão Bueno. Ofereceram em troca uma promessa de, quem sabe, no futuro, rolar um post pago de verdade. Isso, claro, se tudo corresse bem com a laudatória ao jogador patrocinado pela Nike. O resultado foi um texto denunciando a prática da Riot e o previsível sacrifício de um bode expiatório para aplacar a fúria do cliente.
O mais engraçado é que as agências pagam (ou não) os blogueiros, mas fazem uma autossabotagem ao pedir que o texto esteja dentro de um certo roteiro. Há algum tempo um blogueiro de alto nível confessou ter sido convidado a fazer um post pago, mas acabou não aceitando, porque a agência exigiu uma publicação ipsis litteris do texto que um redator havia criado. Ele tinha certeza que seus leitores perceberiam. A agência bateu pé e ele recusou.
Trata-se de uma suprema ignorância sobre o mundo dos blogs, exigir que se publique um modelo de texto. Uma das características mais interessantes desse tipo de veículo é justamente a subjetividade, a originalidade na expressão de cada autor. De fato, empresas como a Microsoft e o Google adotaram o formato blog para se comunicar com o público como forma de "humanizar" a marca. A idéia da Riot seria muito mais interessante se tivessem apenas dito ao pessoal do Futepoca para criar uma campanha de apoio ao Ronaldo eles mesmos. Fizessem isso com um número suficiente de blogs, certamente alguma idéia genial iria emergir.
Outro tabu entre as agências e clientes que ainda não se ambientaram à blogosfera é a identificação de posts pagos, ou seja, a admissão do contrato por parte do blogueiro. A verdade é que o público não dá muita bola para esse tipo de aviso, mas fica realmente chateado quando é engambelado. Logo, melhor ser transparente desde o início. Na verdade, algumas sugestões mais eficientes e moralmente aceitáveis do que os posts pagos identificados seriam:
O grande desafio nessas três possibilidades é a agência e o cliente cederem o controle das campanhas aos blogueiros. Por exemplo, após enviar um produto, é preciso resistir à tentação de cobrar os autores por eventuais críticas recebidas. Gosto de elogiar sempre a postura do Dado Bier quando critiquei as cervejas novas que gentilmente haviam me enviado. O cervejeiro fez questão de telefonar, dizer que eu tinha razão e me convidar para visitá-lo -- o que rendeu um novo post. O principal ao planejar campanhas de marketing em blogs é ter em mente sempre que ninguém, por mais premiado em Cannes que seja, conhece melhor a linguagem de uma audiência do que o blogueiro a quem ela pertence. Deixem algumas decisões com ele e confiem.
O Dahmer, comentando o caso Futepoca, aconselha: "Façam como eu. A partir de hoje, leiam as notícias dos blogs com a mesma desconfiança com que assistem aos noticiários de TV." Sugestão saudável, mas não acho que exista tanto motivo para pessimismo. Afinal, o Futepoca não apenas rejeitou a promessa de jabá, como ainda denunciou. Com isso, ganha credibilidade entre seus leitores. E assim o princípio da autorregulação vai separando o joio do trigo na Web.
14 de março de 2008, 15:29 | Comentários (13)
biblioteca brasileira sobre blogsAs pesquisadoras Raquel Recuero, Adriana Amaral e Sandra Montardo montaram uma lista de artigos sobre blogs escritos por autores brasileiros desde o ano 2000. Farto material para monografias, dissertações e teses.
Se alguém aí tiver publicado um artigo que não está na lista, as pesquisadoras pedem que se manifeste. A lista é parte de um panorama da pesquisa em blogs no Brasil, que vai figurar num livro a respeito do tema. Também vai figurar no livro um artigo escrito por mim, sobre as definições de weblog. Uma versão mais estruturada do texto "blogs já eram", como havia prometido um tempo atrás.
4 de março de 2008, 11:09 | Comentários (10)
nova geraçãoAlguns de meus alunos da Famecos criaram a comunidade de blogs Sopa de Letras. Nada agrada mais a um professor do que ver a gurizada levando adiante suas próprias idéias, participando de projetos que transcendem a sala de aula. Cumprir o currículo do curso é importante, mas tão importante quanto é aproveitar o tempo livre da vida de estudante para criar algo.
3 de março de 2008, 10:55 | Comentários (9)
finlândia com tudo pago para jornalistasMas só se você for jornalista recém formado ou estudante dos últimos semestres.
O Ministério de Relações Exteriores finlandês está oferecendo uma bolsa para participar de um programa de correspondentes estrangeiros no país, durante o mês de agosto. O contemplado ganha as passagens de avião, acomodação, alimentação e passe para o transporte público em Helsinque.
Pena que já me formei há tempos.
28 de fevereiro de 2008, 11:21 | Comentários (5)
como se transformar em um escândalo na webNa semana passada a atriz Preta Gil ameaçou processar o Google. A celebridade -- não sei como classificar a filha do ministro da Cultura, Gilberto Gil; atriz, cantora ou o quê? -- se irritou quando soube que as buscas pelas palavras-chave "atriz gorda" no Google Imagens retornam junto com os resultados a sugestão "Experimente também: preta gil". Preta, que de fato é gorda, cometeu um grave erro, como mostra a imagem abaixo:

Agora a busca normal do Google por "atriz gorda" resulta apenas em artigos relacionados à ameaça de processo. Se o objetivo de Preta Gil era evitar danos à sua auto-estima e à sua imagem, e não desencadear uma nova série de factóides para se manter na mídia, ela errou feio na estratégia, ou foi mal assessorada. O aceno com um processo judicial baseia-se numa completa ignorância do funcionamento da ferramenta de busca.
Em primeiro lugar, o Google Imagens não tem absolutamente nenhuma culpa pela sugestão relacionada aos resultados da busca por "atriz gorda". Essas sugestões são fornecidas automaticamente por um algoritmo que contabiliza links remetentes, isto é, links apontando para uma ou outra página. Quando muitas páginas da Web criam links com as palavras "atriz" e "gorda" apontando para outras páginas cujo conteúdo seja relacionado com Preta Gil, algoritmo entende que Preta Gil é considerada uma atriz gorda pelos criadores das páginas e passa a relacionar a busca à celebridade. (Para mais informações sobre o funcionamento do Google, leia esse artigo.)
Ou seja, o Google Imagens não tomou nenhuma atitude discriminatória ou difamatória ao sugerir que o usuário busque por fotos de Preta Gil quando procura por uma atriz gorda. Se é para arranjar culpados de discriminação ou algo do gênero, melhor buscar por todas as pessoas que criaram páginas que tenham contribuído para o estabelecimento dessa relação pelo algoritmo de busca. No entanto, o Google Imagens pode bloquear essa sugestão específica, para que não apareça mais, caso seja obrigado por uma decisão judicial ou queira fazer uma gentileza à moça.
Em segundo lugar, a ameaça de processo contra o Google foi uma estratégia ignorante porque não levou em conta os efeitos da reação na mídia e em blogs nos resultados da própria busca do Google. Como se vê acima, a criação de centenas de páginas da Web comentando o caso reforçou ainda mais a relação das palavras "atriz gorda" com Preta Gil. Casos anteriores, como a da modelo-e-apresentadora Daniela Cicarelli vs. YouTube, já mostraram que em termos de redução de danos o confronto judicial é a pior opção — embora seja um grande sucesso em termos de aumento da exposição na mídia. O Google é praticamente um serviço público e qualquer atitude que interfira com a qualidade da operação tende a irritar profundamente os usuários. E na Web o público irritado tem uma notável tendência a criar posts em blogs, tópicos em fóruns, banners avacalhadores, circulares via correio eletrônico etc. etc. etc. Tudo isso significa mais páginas relacionando Preta Gil a "atriz gorda" e, portanto, reforço da associação entre a celebridade e a gordura nos resultados das buscas.
Quase toda semana aparecem casos de celebridades tentando abafar escândalos na Web por meio do confronto. É um tiro no pé, sempre. Nada melhor do que o silêncio para fazer um assunto sumir da rede mundial de computadores. O advogado de Preta Gil poderia muito bem ter enviado um pedido informal ao Google Imagens para bloquear a sugestão, antes de criar uma tempestade midiática baseada na ignorância. Isso, é claro, se o objetivo desde o início não era fazer marola.
Porém, se você é um assessor ou advogado de celebridade e realmente quer evitar ter o nome de seu cliente arrastado em lama digital, sugere-se estudar um pouco o funcionamento do site ou serviço que está incomodando. Até para não ficar parecendo um idiota perante este e outros clientes, quando a ação não der em nada mais que xingamentos Internet afora.
18 de fevereiro de 2008, 12:53 | Comentários (21)
entrevista para o comunique-seA repórter Izabela Vasconcelos me entrevistou sobre o Twitter para o Comunique-se. Confesso que não entendi o que eu quis dizer com "[o Twitter] divulga o blog convencional, já que dá espaço para isso". Talvez deva entrar em contato com a jornalista e perguntar.
Segue a matéria.
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Twitter: ferramenta útil também para os jornalistas
Escola de Comunicação
"O que você está fazendo?", A pergunta foi o ponto de partida para a criação, em 2006, do Twitter, servidor para microblogging que permite aos usuários o envio de atualizações de, no máximo, 140 caracteres.
A ferramenta, criada pela a Obvious, não demonstrava grandes pretensões. Com atualizações via SMS, comunicador instantâneo, e-mail, site ou programa especializado, o Twitter começou somente com tarefas corriqueiras dos internautas. Aos poucos, novas utilidades foram criadas.
Exemplo recente disso foi a repercussão do assassinato da ex-primeira ministra do Paquistão Benazir Bhutto. As primeiras informações começaram a chegar pelo Twitter e rendeu um grande debate entre os internautas.
Dan York, do blog Disruptive Conversations, enumerou os 10 principais usos que ele faz do Twitter, como: fonte de notícias, rede de perguntas e respostas, ferramenta de interação, descontração e atualização, diário de viagens, diário de eventos, ferramenta para marketing/relações públicas, ferramentas de aprendizagem, diversão e, por último, nas próprias palavras dele, lição de humildade e brevidade, já que os 140 caracteres máximos, pedem objetividade e síntese.
O Twitter já virou tema de listas de discussões em muitos grupos. Alguns acreditam que a ferramenta trouxe uma novidade e também praticidade, mas outros afirmam que o Twitter não trouxe nada diferente de um blog convencional, e que não representa mudanças no trabalho dos jornalistas.
"Não vi nada demais na ferramenta, acho que está havendo um entusiasmo exagerado em relação ao Twitter", afirma o jornalista Alexandre Carvalho. Ele diz que a ferramenta pode ser melhorada com o tempo ou não, mas acredita que outras ferramentas podem fazer coisas muito parecidas com as que o Twitter faz.
Nas mãos dos jornalistas
O Twitter é usado por muitos na narração de eventos em tempo real. Marcelo Träsel, jornalista e professor da PUC-RS, usou o Twitter para fazer a cobertura de um evento da faculdade, com narrações em tempo real. "Os alunos gostaram muito. Ajudou, inclusive, as pessoas que estavam fazendo matérias sobre o evento", explica.
"O Twitter traz um fluxo de informações contínuas e curtas. O melhor é a velocidade, as respostas chegam muito rápido", analisa a estudante de jornalismo Gabriela Zago, que escreveu um artigo sobre a ferramenta para o Observatório da Imprensa.
Gabriela fez um mapeamento em seu blog com as utilizações do Twiiter pelo mundo, como o uso da ferramenta para acompanhar as prévias das votações de 2008 em Iowa, informações sobre a greve dos roteiristas dos EUA, cobertura dos incêndios na Califórnia em outubro de 2007, política no Quênia, entre outros.
Para Träsel, o Twitter não trouxe grandes novidades, mas simplificou uma ferramenta e a tornou eficiente. Na sua opinião, o Twitter apresenta duas diferenças principais dos blogs convencionais: dá vazão a idéias e pensamentos curtos e ainda divulga o blog convencional, já que dá espaço para isso.
No CES (Consumer Electronics Show), maior feira de tecnologia do mundo, muitos jornalistas fizeram a narração do evento pelo Twitter. Veículos como o New York Times, CNN, BBCBrasil e IG usam a ferramenta para divulgar suas atualizações.
Outra novidade, fruto do Twitter, é o ReportTwitters, site que reúne jornalistas que usam a ferramenta para encontrar fontes e divulgar atualizações.
14 de fevereiro de 2008, 23:21 | Comentários (3)
blogs envergonham a imprensa argentinaAconteceu semana passada em Buenos Aires a Personal Fest, um festival de música patrocinado pela Motorola e Personal, mas de responsabilidade da produtora Popart. Durante o show de Snoop Dogg, na sexta-feira, houve uma briga entre pelo menos três integrantes da platéia. Dois deles foram feridos com uma faca. O entrevero causou uma debandada em um público de 25 mil pessoas. A jornalista Letícia Menetrier estava lá e relata:
leca diz: eu to com um roxo gigante na perna dessa corrida foi punk nem deu pra ver nada....so escutar o barulho das pessoas correndo como loucas na nossa direcao parecia um estouro de cavalos so um troteo ....um estampido e nos abracamos gian e eu e deixamos as pessoas passarem correndo por no s mas depois comecou de novo houve duas corridas master acho que a briga se mudou de lado tipo foram brigando e abrindo espaco mas tinha um cara com uma faca e poderia ser uma arma porque nao te revistavam na entrada como diz um cara no blog....poderias entrar com rambo e chuck norris na mochila que ninguem via hahahahahaah
Um dos feridos acabou no hospital para sofrer uma cirurgia e segundo consta, passa bem. Até aí, seria um caso de potencial desastre que fez o menor número de vítimas possível e terminou sem nenhuma morte. A parte pitoresca mesmo é que a organização e a imprensa se calaram sobre o incidente, com direito a relatos sobre pressão da produtora e dos patrocinadores sobre a imprensa e atitudes esquisitas de muita gente.
O blogueiro Eduardo Fabregat publicou um texto resumindo todo o caso, então não vale a pena entrar em muitos detalhes aqui. Importante é dizer que os jornais não deram nada, ou deram notas minimizando o acidente, que os comentários à nota sobre o assunto na revista especializada em música Rolling Stone marotamente desapareceram, e que o único jornal grande a dar atenção suficiente ao ocorrido foi o Página 12, cujo texto é de autoria do próprio Fabregat.
A imprensa comeu mosca, na melhor das hipóteses, ou fez corpo mole, na pior. As informações se espalham feito rastilho de pólvora na blogosfera argentina. Até um blog dedicado exclusivamente ao incidente foi criado, o Personal Fest: organización desastre. Enquanto isso, os jornalistas passam vergonha.
11 de dezembro de 2007, 16:13 | Comentários (8)
dissertação for dummiesPara quem não tem disposição de ler minha dissertação de mestrado inteira, acaba de sair na edição 9 da revista E-Compós um artigo que resume os principais achados da pesquisa. O arquivo em PDF pode ser baixado neste link.
7 de dezembro de 2007, 10:18 | Comentários (8)
ficarei milionárioFui citado no Blog de Guerrilha pelo Mr. Wagner, que dividiu comigo esta edição do periódico de tendências Y-Trends, da Abril -- dêem uma lida nos dois, se conseguirem suportar a horrenda navegação em flash. Escrevi um artigo na tentativa de educar as empresas sobre como anunciar em blogs, para evitar os problemas descritos nesse texto.
Um trecho do artigo de Wagner, que tenta chamar os abobadinhos do vídeo viral à consciência:
...em teoria, fazer vídeos legais mencionando seu produto direta ou indiretamente pode sim ser um excelente canal para propagar a sua mensagem de maneira espontânea. O problema é que empresas, marcas e propaganda em geral não são legais.
Tem razão. Há momentos em que nada bate o apelo de um ator global ou a força de alguns links bem colocados em redes sociais. Nem sempre é preciso ser cool para ser eficiente em propaganda.
24 de novembro de 2007, 10:04 | Comentários (7)
os blogs já eramDesde terça-feira da semana passada falta tempo para publicar um comentário a respeito da palestra na Semana Acadêmica da Ecos/UCPel. Antes de mais nada, gostaria de agradecer ao Eduardo, Davi, Juliana e Reizel, do Diretório Acadêmico, que me receberam muito bem e foram gentis e eficientes o tempo inteiro. Fiquei com uma ótima impressão da faculdade e seus alunos. A maior surpresa foi o comparecimento de mais de cem pessoas na platéia, sobretudo porque os estudantes ganharam uma semana de folga das aulas para participar do evento. Nos meus tempos de Fabico, provavelmente teria ido à praia.
Como sou adepto da escola Juremir Machado da Silva de apresentações, passei a semana anterior me perguntando qual seria a proposição mais chocante que poderia expor aos alunos de Jornalismo e Publicidade. Como o tema era "A força dos blogs como mídia alternativa", brinquei com a idéia de decretar o fim dos blogs.
O problema é que comecei a levar essa brincadeira a sério e acabei me convencendo dessa afirmação. Os blogs terminaram. Acabaram. Foram comer capim pela raiz. São um ex-formato de mídia alternativa na Web. E o motivo principal dessa desaparição é justamente o sucesso que o formato blog obteve, tornando-se onipresente.
Veja aqui os slides da palestra
Fazendo-se uma análise das definições mais difundidas para blog, a conclusão é que esse formato envolve:
Além disso, os blogs costumavam ser vistos como diários pessoais na Web e repositórios de links e impressões sobre a vida, o universo e tudo o mais, mas como essas definições são referentes ao conteúdo, e não ao formato, ficarão de lado. O que define um blog não é seu conteúdo, mas o modo como ele é produzido, apresentado e as opções de interação oferecidas.
O problema é que os elementos listados acima como sendo típicos dos blogs se disseminaram por todo tipo de site. Por outro lado, sites que em geral seriam reconhecidos como blogs não apresentam mais esses elementos. Torna-se cada dia mais difícil diferenciar uma coisa da outra. Os blogs estão se integrando tão profundamente à estrutura mesma da Web que estão em vias de desaparecer do campo de visão.
Abaixo, uma desconstrução das definições mais comuns de blog.
AUTORIA INDIVIDUAL
Tome-se como exemplo o blog do Noblat. Ele atende a todas as características definidoras de weblogs, como ordem cronológica reversa, espaço para comentários e publicação freqüente. Apesar de ter a foto e nome do jornalista Ricardo Noblat, é um site de autoria coletiva. Noblat conta com uma equipe profissional para ajudá-lo a cobrir os bastidores da política. Aí é que as dúvidas começam.
Qual é a diferença entre o blog do Noblat e um jornal ou revista de pequeno porte? Já trabalhei em revistas produzidas por quatro ou cinco pessoas, em que as matérias eram assinadas por diversos repórteres contratados ou free-lance, capitaneados por um editor. É mais ou menos o que ocorre neste caso.
Pode-se argumentar que o blog do Noblat é um blog coletivo como tantos outros que existem por aí, inclusive aqui no próprio Insanus.org. Mas há uma grande diferença neste caso, que é a profissionalização. Noblat e seus colaboradores precisam se ater às técnicas e valores do jornalismo, significando um texto impessoal e equilibrado, o mais livre de opinião possível. Basta comparar com a Nova Corja para perceber do que estou falando.
Nos blogs coletivos, a autoria costuma se manter individual em cada post. Isto é, cada autor tem sua própria linguagem, seu estilo retórico. As exigências do texto jornalístico profissional matam qualquer retórica individualizada. Por conseguinte, não se pode falar em autoria no mesmo sentido da definição clássica de blog.
PUBLICAÇÃO FREQÜENTE
Foi-se o tempo que a maioria dos sites na Web mostrava nas páginas um monte de GIFs animados de "em construção". A Web deixou de ser estática há anos. Mesmo empresas de fundo de quintal já têm condições de criar páginas que possam ser atualizadas constantemente com listas de notícias. Os webjornais, por outro lado, tiveram antes mesmo de surgirem os blogs seções de "últimas notícias" ou "plantão", em que as informações mais recentes são publicadas à medida que aparecem.
Assim, não se pode usar como parâmetro definidor de blog o fato de a publicação de novos posts ter freqüência diária a semanal. O que se pode atribuir aos blogs, com toda certeza, é a disseminação das páginas dinâmicas para toda a Web. Ferramentas como o Blogger abriram caminho para o WordPress e o Joomla!, que permitem criar estruturas hipertextuais complexas sem a necessidade de um conhecimento profundo em HTML e outras linguagens. Mais do que isso, educaram o público para esperar de qualquer site uma atualização constante. Não se admite mais uma Web que não seja dinâmica.
ORDEM CRONOLÓGICA REVERSA
Observe-se o site do Judão. Seu autor, Thiago Borbolla, trabalha praticamente sozinho e se apresenta como blogueiro. A ferramenta por trás dele é o WordPress. Porém, a organização da informação é muito mais semelhante à de um webjornal do que à de um blog. Isso porque os posts não estão ordenados cronologicamente, mas hierarquicamente. Os considerados mais importantes ganham mais destaque.
Tradicionalmente, todo post em um blog é uma manchete. Todo novo conteúdo assume o lugar mais privilegiado na página, seja qual for sua importância, até ser substituído por conteúdo ainda mais recente. Na blogosfera valor máximo é o imediatismo. Porém, cada vez mais autores que se apresentam como blogueiros estão usando as possibilidades das novas ferramentas de publicação para criar sites organizados hierarquicamente, não cronologicamente.
Isso significa que ou eles não estão produzindo blogs, ou os blogs não podem mais ser definidos pela ordem cronológica reversa dos posts. Em compensação, webjornais como o falecido No Mínimo e o Observatório da Imprensa passaram a organizar a informação cronologicamente, não hierarquicamente, seguindo o modelo estabelecido pelos blogs.
ESPAÇOS PARA COMENTÁRIOS
Quando até a Zero Hora abre para o leitor a possibilidade de fazer comentários às notícias, é porque essa prática já é mais do que aceita pelo resto da mídia. Todo webjornal que se preze hoje oferece espaços para comentar as matérias diretamente. Por outro lado, percebe-se que os blogs da "nova geração", como o Jacaré Banguela, e da antiga geração, como o Imprensa Marrom, estão deixando de lado os comentários.
Aí está mais uma azeitona na empada dos blogs: educaram o público a tal ponto para a interação que ninguém mais admite uma notícia qualquer sem um fórum atrelado. As empresas de comunicação certamente não têm o menor interesse na opinião dos leitores. O que interessa a elas é atender a uma demanda do público e ainda fazê-lo permanecer mais tempo no site, voltando muitas vezes ao dia para conferir a caixa de comentários de que está participando. Depois, as empresas somam esses números de audiência e vendem anúncios.
De qualquer modo, a ferramenta de comentários não pode mais ser usada como um traço definidor dos blogs.
ONIPRESENÇA DOS BLOGS
Como espero ter conseguido mostrar acima, as ferramentas e funcionalidades típicas dos weblogs estão sendo integradas à estrutura de toda a Web, fenômeno que borra a fronteira entre os blogs e outros sites. É isso que entendo por onipresença dos blogs.
Um outro aspecto dessa onipresença é o fato de muitas empresas terem adotado as ferramentas de publicação usadas em blogs para criar seus sites institucionais, ou então ter criado blogs em seus sites corporativos, como forma de "humanizar" sua imagem. O caso clássico desse efeito de humanização é o de Robert Scoble e seu blog sobre a Microsoft. Também se pode lembrar que muitos veículos estão adotando o formato de blog para seus colunistas, embora seus textos muitas vezes continuem idênticos aos do jornal impresso.
O fenômeno das colunas de jornal em formato de blog apontam para uma faceta importante da onipresença dos blogs, que é a "canibalização" de suas funcionalidades por outros tipos de serviços e sites. O Orkut e o Twitter, por exemplo, oferecem a seus usuários uma plataforma para manter diários pessoais na Web, um dos usos mais conhecidos dos blogs. Serviços de social bookmarking como o Del.icio.us e o Stumble Upon são ferramentas muito melhores para armazenar e compartilhar links, uso primevo dos blogs. Outra utilidade específica dos blogs costumava ser a hiperespecialização. Isto é, se você gosta apenas de esportes, podia ler um blog de esportes em vez de acessar todas as editorias de esportes de todos os webjornais, e assim ter as notícias já filtradas para você. Com o RSS, no entanto, é possível montar listas com todas as notícias de esportes de todos os jornais e lê-las de forma mais eficiente do que nunca.
Essa dispersão das funcionalidades dos blogs em diversos outros serviços e sites da Web colabora para a lenta desaparição dos blogs como os conhecemos -- embora na verdade tenhamos uma imagem de blogs que remonta há coisa de 5 anos atrás. As pessoas no Brasil recém começam a deixar de lado o preconceito de que blogs são meros "diarinhos adolescentes" na Web, mas o desenvolvimento desse gênero informativo já está bem adiante.
Finalmente, outro motivo que contribuirá para a desaparição dos blogs é a histeria da monetização. Nada contra querer ganhar dinheiro, mas percebo que muitas pessoas já entram na blogosfera pensando no Google AdSense. Isso resulta naqueles blogs horrendos, cheios de anúncios por todos os lados, que prejudicam a leitura. Podem me chamar de romântico, mas no meu tempo o sujeito primeiro se preocupava em ter algo de que falar, e os anúncios só eram aceitos se não interferissem no objetivo principal do blog, que é publicar uma informação ou opinião original e honesta.
Tendência ainda mais prejudicial é a dos posts pagos -- o blogueiro recebe dinheiro de alguma empresa para citar ou falar bem de seu produto. Infelizmente, os autores mais preocupados em ganhar dinheiro com blogs, a ponto de venderem sua alma tão barato, não percebem que estão degradando seus próprios recursos. Qualquer empreendimento que viva de informação ou opinião tem como principal ativo a credibilidade, que é construída historicamente, à medida que os leitores verificam a honestidade do autor e a precisão das informações.
O problema dos posts pagos é que as pessoas não são burras e logo se darão conta dessa mutreta, o que vai prejudicar não apenas os blogs que vendem seu espaço editorial, mas a blogosfera como um todo. Ninguém mais vai acreditar que não recebo um centavo sequer para falar de restaurantes no Garfada. Com a perda de credibilidade dos blogs, as pessoas voltarão à imprensa profissional ou então migrarão para outro tipo de serviço.
ONDE ISSO VAI PARAR?
Antes de mais nada, os blogs continuarão existindo. Ao menos, ninguém no Insanus.org pretende fechar seus veículos no futuro próximo e passar a usar outras ferramentas, ou arranjar um emprego em uma redação. Os blogs como ferramenta seguirão muito úteis, mas seu sentido de mídia alternativa revolucionária vai se perder. A maioria das pessoas passará a usar uma diversidade de ferramentas e serviços para inúmeros fins de que antes apenas os blogs davam conta. Só em casos muito específicos o formato atual continuará sendo o melhor.
O futuro está em um killer app ainda não inventado, mas que terá o poder de reunir de maneira simples todo o conteúdo produzido pelas pessoas nos Twitters, Diggs, Last.fms e YouTubes da vida -- e, claro, em seus blogs. Em minha opinião, o Facebook e o Ning apontam o caminho. O que vocês acham disso tudo?
12 de novembro de 2007, 19:59 | Comentários (37)
blog é literatura?
Fui convidado pelos alunos da Ecos/UCPel a palestrar em um painel durante a semana acadêmica deles. O tema é o papel dos blogs no jornalismo alternativo. Se algum leitor da região de Pelotas quiser me apresentar aos melhores bares ou restaurantes da região após o painel -- ou aproveitar a chance de me jogar tomates podres --, apareça lá na segunda-feira, a partir das 19:00.
31 de outubro de 2007, 16:56 | Comentários (11)
podcast acadêmicoAcho que havia esquecido de recomendar o debate semanal dos professores do núcleo de Comunicação Digital da Famecos. Toda sexta-feira, uma nova conversa com André Pase, Andréia Mallmann, Eduardo Pellanda e Silvana Sandini sobre algum tema nerd.
25 de outubro de 2007, 15:20 | Comentários (3)
a integração do público na propagandaDepois de dominar o jornalismo, a interação mediada por computador começa a causar mudanças mais profundas na propaganda. Hoje em dia, todo webjornal que se preze tem uma seção de notícias enviadas pelos leitores. As diretorias das redações se deram conta de que as pessoas gostam de aparecer na mídia e estão dispostas a trabalhar de graça para isso — e faço esse comentário sem qualquer intenção de condenar esse tipo de jornalismo participativo como "exploração" do público. Colaborar com um jornal sem receber dinheiro não é pior do que usar uma camiseta com o logotipo de uma marca famosa na rua: você está beneficiando uma empresa privada em troca de algum tipo de satisfação pessoal. Seja feliz.
As agências de publicidade mais antenadas já andavam produzindo ações que integram o consumidor, em geral fazendo com que ele participe de alguma atividade online ou offline. No entanto, esse tipo de propaganda — e uso o termo aqui de propósito, porque essas ações de publicidade seguem a lógica da propagação, não mais a da difusão — cada vez mais se torna um item importante nos orçamentos de marketing de grandes empresas. A vantagem é que em geral custam muito menos do que um anúncio na televisão e atingem apenas os consumidores interessados. E na televisão sempre existe a chance de a pessoa trocar de canal ou botar o aparelho no mute durante os comerciais.
Durante os últimos meses, tive a satisfação de participar do que talvez seja a primeira campanha no Brasil a usar peças em vídeo desenvolvidas somente para a Web. A LiveAD criou para a marca Ilhabela, da Grendene, uma série em três capítulos, protagonizada por um ator da Malhação. Até aí, seria apenas um anúncio normal em vídeo usando um suporte diferente.
O novo mesmo está na forma de escolha das atrizes: foi feita uma seleção entre as potenciais consumidoras da sandália, através de recrutamento em colégios, uma parceria com a revista Capricho e o YouTube. Dez meninas foram selecionadas para participar da websérie como atrizes. Mas o importante mesmo é que muito mais meninas receberam a mensagem da Grendene nos colégios, na revista e no YouTube, onde foram postados mais de 90 vídeos, somando 30 mil visualizações. O primeiro episódio está no ar.
Esses vídeos vão continuar lá, nos perfis das meninas que participaram, espalhando o nome da marca indefinidamente, mesmo quando a campanha acabar e for esquecida. Trata-se de um grande acerto o uso do YouTube. Primeiro, poupa-se espaço de servidor e incomodação, porque caso a websérie gere muito tráfego pode derrubar o servidor onde o site da marca está hospedado. Segundo, conta-se com todo o élan comunitário do YouTube, que pode fazer esse conteúdo emergir através das listas de vídeos relacionados e pela facilidade de se trocar links.
Além disso, o site da campanha oferece conteúdo interessante para quem é fã de Malhação e permite que o público faça comentários em um "videofotolog". Não há maneira melhor de encantar o público do que fazê-lo se sentir parte da construção de um "bem público". Essa é a lição que o Linux e a Wikipedia ensinaram, a imprensa seguiu e agora a publicidade começa a levar bastante a sério. Pode-se até considerar a websérie boba e a idolatria de um ator da Malhação uma enorme bobagem, mas a verdade é que as meninas que comprariam as sandálias da Grendene acham esse conteúdo muito interessante. Sejam felizes.
9 de outubro de 2007, 11:32 | Comentários (9)
imprensa contra os blogsQue Estadão que nada! Ataque aos blogs de verdade vem do Diário do Nordeste, jornal de Fortaleza afiliado à Rede Globo — que, aliás, usa muito o formato blog em seus veículos. Em um editorial de agosto, fazem parecer que os blogueiros são responsáveis por todas as mazelas culturais do mundo.
A pretensa democratização da mídia alegada pelos titulares de blogs estaria, pelo contrário, ocasionando o surgimento de nova oligarquia, pela qual inúmeras pessoas, em alguns casos agindo de má-fé, podem usar seu talento de persuadir a favor de causas desonestas. Sobretudo os mais jovens, pela natural falta de experiência característica da idade, tendem a acreditar em tudo aquilo que lêem, principalmente se as mensagens chegam numa linguagem que lhes pareça simpática e envolvente. Essas são as principais vítimas de blogs com intenções indisfarçáveis de fomentar preconceitos e disseminar tendências extremamente perniciosas à sociedade.
Na verdade, o editorialista do jornal cearense parece ter lido mal o livro de Andrew Keen — ou as entrevistas que ele deu à Época ou à Folha — e resolvido macaquear suas idéias para se defender do concorrente, o jornal O Povo, segundo conta Glaydson Lima. O blogueiro — ô raça! — também dá a entender que a publicação, pertencente ao Grupo Edson Queiroz, é pelego do clã Jereissati comprometido com interesses políticos. Sabendo disso, o trecho a seguir do editorial fica até engraçado:
O pior, no caso, é que também se constata a existência de blogs que, aparentando ser de indivíduos, são, na verdade, manipulados por grandes grupos ligados a objetivos inconfessáveis.
É, jornalistas nunca são guiados por objetivos inconfessáveis, não é? Os repórteres de jornais, redes de televisão e rádio ligados a políticos e a grandes grupos financeiros, especialmente, jamais se deixam influenciar por interesses escusos. Nunca os objetivos inconfessáveis de deputados, governadores ou empresários maculam a edição de uma notícia. Só essa plebe sem diploma de jornalismo que de repente tomou conta do espaço público comete erros ou distorce os fatos, pura e simplesmente.
Blogueiros não são piores nem melhores do que jornalistas. Como qualquer outro ser humano, têm seus preconceitos, opiniões e interesses e muitas vezes nem percebem que um texto está sendo guiado por eles. Por outro lado, os blogs são muito diferentes dos jornais e não deveriam representar uma ameaça. Se representam, é porque as empresas de comunicação do Brasil preferiram se restringir à irrelevância cultural do que investir em jornalismo de qualidade. Não estão falando a mesma língua do público. Não mostram os problemas que interessam de verdade aos cidadãos. De fato, em lugar de investir no jornalismo, as empresas têm cada vez mais reduzido suas equipes e as verbas para coberturas internacionais e reportagens longas. Para compensar, dão quinquilharias aos assinantes.
A vantagem dos blogs é poder cobrir as lacunas deixadas pela mídia. Se a Globo não mostra as competições de esgrima do Pan 2007, os que se interessam por esse esporte terão de buscar informação noutros lugares. Se os cadernos de gastronomia de sua cidade só elogiam todo mundo e reproduzem releases, crie um blog dedicado a isso. Se o jornal da sua cidade não dá notícias de seu bairro, publique-as na Web. A imprensa não tem como estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Se o Diário do Nordeste ou o Estadão acham isso ruim, que contratem mais repórteres e cubram todos os assuntos.
21 de agosto de 2007, 10:41 | Comentários (17)
o que todos estavam esperandoDepois de uma demora inexplicável, está no ar a versão oficial da minha dissertação: A pluralização no webjornalismo participativo: uma análise das intervenções no Wikinews e no Kuro5hin. Baixem, leiam as 271 páginas e confiram se valeu a pena o governo ter usado seu dinheiro para me manter dois anos dedicado aos estudos.
O Scribd, o serviço em que está hospedado o arquivo, é bem interessante. Promete ser um tipo de YouTube dos documentos. Você pode subir textos, imagens e áudio, definir palavras-chave, a forma como quer compartilhá-los e inclusive o tipo de direitos que prefere manter sobre a obra. Bem útil, sobretudo para PDFs imensos e pesados.
2 de agosto de 2007, 10:10 | Comentários (14)
vai dar merdaLegal esse protesto no Arroio Dilúvio, não? A Zero Hora e outros veículos de Porto Alegre também acharam.
A verdade, porém, é que mais uma vez todos jornalistas embarcaram em uma ação de marketing viral. Nesse caso, o principal produto a anunciar era um dos próprios autores da ação. Ambos são alunos do curso Perestroika. Felipe Anghinoni, um dos professores, é também diretor de criação da LiveAD. Pediu a um dos alunos que mostrasse algum talento para ser motorista de buzz. Segue relato do próprio Vinícius:
Eu precisava dum material diferente pra segunda, mas não tinha nada. Então saí da agência e fui pra Fabico. Na sinuca, contei pra dois colegas sobre o problema. Era fato que eu precisava de, no mínimo, uma matéria na Zero Hora. Começamos o brain. Eu e Pinho, Felipe Fornari. Ainda tivemos ajuda do Augusto, um colega da faculdade.
Poderiam ter parado por aí, mas arranjaram inclusive um cliente para aproveitar o eventual sucesso da ação: a revista O Dilúvio. Algo me diz que esse guri vai longe.
Em tempo: a verdadeira motivação não tira o mérito do protesto. Chamar a atenção para a quantidade de esgoto que o arroio despeja todo dia em nossa água de beber é importante, ainda que por tabela. Quando a propaganda pode aliar uma certa parcela de interesse público a seus objetivos, por que não fazê-lo?
24 de julho de 2007, 15:16 | Comentários (11)
pode vir, boca júniors!O fenômeno dos vídeos produzidos por torcedores é uma das coisas mais interessantes do YouTube. São propagandas muito bem feitas para incentivar a ida ao estádio, nascidas espontaneamente. Como se viu desde o ano passado, torcida é uma coisa que conta muito, ao menos no caso do Grêmio. É difícil saber o quanto esses vídeos influenciaram na moral dos tricolores, mas o fato é que boa parte deles tem dezenas de milhares de visualizações. Inclusive, não sei como ninguém ainda teve a idéia ou o empreendedorismo de patrocinar as pessoas que produzem esses vídeos. Audiência garantida.
Quanto à final dessa Libertadores, será um dos maiores encontros de titãs já visto no futebol. Sandro Goiano que o diga. Infartarei, com toda certeza.
9 de junho de 2007, 18:48 | Comentários (15)
jabá acadêmicoFinalmente saiu o livro Interação Mediada por Computador, de autoria do meu orientador no mestrado, professor Alex Primo. Altamente recomendado para quem estuda qualquer coisa relativa ao uso da Internet, ou trabalha em empreendimentos com base na rede. No site, que oferece material de apoio, é possível ler a introdução e a conclusão do livro. Quem quiser ter uma idéia melhor do tipo de pesquisa que o Alex faz, pode ler uns artigos aqui.
7 de junho de 2007, 14:46 | Comentários (3)
orgulho de paiTer filhos deve ser o máximo. Ao menos é o que eu posso imaginar a partir da experiência de ser professor. Agora que os alunos começam a apresentar os primeiros resultados do semestre, não consigo deixar de me sentir orgulhoso ao ver alguns excelentes trabalhos. Fico especialmente emocionado verificando o crescimento de alguns que tiveram mais dificuldade no início, mas superaram os obstáculos e realizaram coisas muito boas. Se é tão legal presenciar o crescimento de pessoas que nem sabia existirem até março deste ano, imagino o prazer que deve dar a um pai ver seu filho falar palavras novas a cada semana e dar os primeiros passos.
Começo a entender melhor o Firpo.
7 de maio de 2007, 0:13 | Comentários (20)
mestre träselInformo aos caros leitores que a banca de dissertação foi muito bem. Tirei nota máxima, com direito a estrelinha. Em breve publicarei aqui um link para quem quiser baixar o trabalho. Agora vou ali descansar, com licença.
P.S: Carmencita, pode parar de ameaçar as pessoas da banca. Todas me trataram bem.
31 de março de 2007, 16:09 | Comentários (24)
BarCamp POA 2.0Na próxima sexta-feira e sábado, acontece o segundo BarCamp em Porto Alegre. Será na Faculdade de Educação da UFRGS, no campus da reitoria, sala 101. Aqui tem um mapa. O pessoal está organizando uma transmissão do evento de sábado pela TV Software Livre. Dessa vez, infelizmente, acho que não poderei participar, mas recomendo muito. Como o evento é grátis e auto-organizado, vale a pena levar um pacote de bolachas para contribuir no coffee-break — no primeiro BarCamp em Porto Alegre, um sujeito levou até bolo feito em casa.
Segue o programa do evento:
Educação e novas tecnologias, laptop US$100, direito autoral, formas de compartilhamento, software livre, inclusão digital, jornalismo participativo, movimentos sociais e comunicação, blogs...Estes temas e muitos outros atravessam a mídia, os corredores das faculdades, as conversas de bares, os círculos acadêmicos formais... porquê não fazer um evento diferente, onde as pessoas possam trocar informação, de forma descontraída, mas com muito conteúdo?
O BarCamp é uma desconferência, modelo de evento baseado nos princípios de colaboração. O objetivo é proporcionar interação e descontração entre os participantes.
Ao contrário das conferências tradicionais, não há uma pauta pré-definida de apresentações e grupos de trabalho. Os participantes decidem a grade de programação e formam os círculos de debate conforme seus interesses, invertendo o modelo top-down das reuniões de especialistas e adotando um modelo emergente, bottom-up. O trabalho da organização é mais facilitar do que comandar.
Nesta segunda edição pretendemos demonstrar/debater/conhecer o projeto UCA (Um computador por Aluno) e a proposta do modelo pedagógico da OLPC (One Laptop Per Child), também conhecido por "laptop de 100 dólares".
O LEC, Laboratório de Ensinos Cognitivos da UFRGS, apresentará de forma descontraída a experiência desenvolvida da Escola Luciana de Abreu, onde as crianças já estão utilizando os laptops como ferramenta educacional.
Então traga seu chimarrão, sua térmica de café, e venha participar deste evento. As inscrições são livres.
Em São Paulo, o primeiro BarCamp aconteceu neste final de semana. A cobertura pode ser conferida no site do BarCamp Brasil.
26 de março de 2007, 4:28 | Comentários (4)
ainda em recessoA dissertação de mestrado já foi entregue, então eu teoricamente deveria voltar a postar. No entanto, preciso retomar alguns assuntos que ficaram pendentes nos últimos meses. Além disso, a vida profissional tem dado tão certo que mal estou com tempo para dormir, quanto mais postar aqui.
Esse blog volta a ser atualizado no ritmo de sempre em breve. Espero.
8 de março de 2007, 14:11 | Comentários (7)
por que você não bloga?Porque estou terminando minha dissertação de mestrado, a respeito do webjornalismo participativo no Kuro5hin e no Wikinews.
Agora, com um incentivo a mais: dar aulas de jornalismo digital e online I na Famecos a partir de março.
26 de janeiro de 2007, 18:13 | Comentários (22)
Por que você bloga?Responda ao questionário — em inglês — e concorra a um iPod shuffle.
23 de janeiro de 2007, 20:09 | Comentários (4)
barcamp POA é amanhãSó para lembrar que amanhã e domingo acontece o BarCamp. O evento é totalmente gratuito — embora contribuições sejam bem vindas — e o local é a Federação dos Trabalhadores na Indústria da Alimentação, na Jerônimo Coelho, 303, centro da cidade. Começa às 10:00. Mais informações, inclusive lista de hotéis, aqui.
Sábado
Domingo
É bastante importante que os interessados preencham a ficha de inscrição e cliquem em "sign-up", mesmo ainda hoje à noite. Caso não consiga, porém, não há problema algum. Faça como quiser, mas apareça.
8 de dezembro de 2006, 17:26 | Comentários (0)
de como o jornalismo pode não ajudar em nadaUma jovem de 13 anos e um professor de 31 são encontrados mortos em um motel, em um aparente pacto de suicídio. Deixaram cartas às famílias. Em que a principal rede de mídia gaúcha se concentra? Em discutir os motivos que levam dois amantes a cometer um ato desses? Entrevistar psicólogos, criminalistas? Em tentar descobrir por que os dois se viram em um beco cuja única saída era a morte? Não. Concentra-se no fato de os motéis permitirem a entrada de menores. Assistindo aos telejornais do grupo RBS, tem-se a impressão de que a ida ao motel foi a principal causa da tragédia.
É um grande desserviço. Está certo, os motéis estão infringindo a lei e é papel do jornalismo noticiar infrações e crimes. Mas também é papel do jornalismo colocar as coisas em perspectiva e, nesse caso, a lei é hipócrita e inútil. Motéis servem para pessoas que moram com os pais — ou cônjuges, ou etc. — transarem em paz. A maioria dos adolescentes faz sexo. A maioria mora com os pais. Logo, motéis são úteis para eles. Não apenas isso, como qualquer menino ou menina de 14 anos hoje em dia sabe o que é sexo, se é que já não pratica. Com 16 anos, podem até votar, isto é, são considerados cidadãos responsáveis o suficiente para decidir quem vai foder com o país, mas não para quem vai foder só com eles mesmos. O mais lógico seria que a maioridade fosse reduzida para essa idade. Nem sombra dessa discussão toda nas matérias sobre motéis. Ninguém dizendo "ei, vamos deixar de besteirol, deixem a gurizada trepar em paz".
De todas as outras possibilidades de abordagem do fato, nenhuma daria tanto trabalho quanto visitar cinco motéis da cidade com uma atriz de 14 anos, apenas para mostrar o que todo mundo já sabe: ninguém dá bola para a lei da Criança e do Adolescente. Então não existe a desculpa de falta de recursos, comum para justificar a ausência de reportagem que preste. O único recurso escasso nesse caso talvez fosse capacidade intelectual, mesmo.
Há alguns dias, publicou-se aqui um link para um artigo reclamando de como os jornalistas só usam as declarações mais idiotas de pesquisadores. Agora, o Mojo envia a dica de um blog dedicado exclusivamente às bobagens que se diz sobre resultados científicos, sempre com uma grande ajuda da imprensa:
The constant bombardment of news of hypothetical dangers, and our increased intolerance of risks, contrasts with the reality that we live in a safer world and are healthier than ever. The media could be a positive influence and help us understand complex issues so that we can make health decisions that are best for ourselves. As much as we think we don’t, most of us on some level do believe the health news we see on television and printed in prominent publications. The way that a risk is depicted and how often it is repeated can make a big difference in how serious it seems. Even the most wary of us can be seized by alarming soundbytes. It is easy to scare us in a soundbyte, but impossible to really confer understanding of an issue in a few words.
Por que isso acontece? De uma forma geral, porque os repórteres são ignorantes. A maioria não sabe nada de matemática e estatística e cada vez menos estudantes têm uma boa formação humanista, embasada em história, sociologia e filosofia. Por causa disso, são facilmente enrolados pelas fontes, ou facilmente entendem errado as declarações das mesmas. Isso para não entrar na questão dos salários baixos e carga absurda de trabalho, que realmente pouco incentivam um jornalista a fazer algo além do necessário para enviar a matéria ao editor, atendendo a padrões mínimos de publicação. Quando o repórter é bom, em geral o editor barra suas idéias. E se calhar de ambos serem bons, aí o mais normal é subestimarem o leitor, crendo que não entenderá qualquer texto mais complexo.
A solução seria transformar os cursos de jornalismo em uma especialização, obrigando os candidatos a repórteres a se aprofundar em alguma outra área, como economia, ciência política, história ou mesmo engenharia e biologia, antes de chegar às redações. Na especialização, sim, seriam ensinadas as técnicas de reportagem e algumas noções de teoria seriam fornecidas. Melhoraria bastante a qualidade do que lemos, ouvimos e vemos.
28 de novembro de 2006, 10:41 | Comentários (25)
só a ficção se aproxima da verdadeOntem falei mal da Globo, hoje falarei bem. A série Antônia está muito boa. Assisti ao primeiro e ao segundo capítulos. Até agora, conseguiram mostrar a periferia de São Paulo sem cair no oba-oba paternalista daquele tenebroso Central da Periferia. Nada contra as bandas péssimas que a Regina Casé põe a tocar, mas a tentativa de fazer lugares miseráveis parecerem mais divertidos que o Leblon é patética. Nesse sentido, a série de ficção sobre as rappers de Brasilândia é muito mais verdadeira do que o programa supostamente não-ficcional.
Destaque do capítulo de ontem foi quando a personagem Bárbara, logo após sair da cadeia, encontra um agroboy e vai com ele para o motel. Depois da putaria, ele vira para ela e diz: "esqueci de perguntar uma coisa superbásica: quanto custa o programa?". Como é televisão, os dois acabam fazendo as pazes, mas sem cair em melodrama, porque quando o sujeito diz que faz qualquer coisa para perdoá-la, ela manda pagar o programa. Com o dinheiro, ajuda uma colega. Mas também, a direção foi de Tata Amaral, com roteiro de Jorge Furtado e Cláudia Tajes. Assim é fácil sair coisa boa.
A Globo, é claro, não resolveu colocar negros pobres como protagonistas porque percebeu que black is beautiful. Percebeu mesmo foi o mercado potencial: os filhinhos de papai que admiram a cultura hip-hop e serão vendidos como público-alvo às agências de publicidade. Se conseguirem favorecer a causa negra e ainda fazer boa dramaturgia no caminho, tanto melhor.
25 de novembro de 2006, 19:17 | Comentários (5)
barcamp porto alegre vem aíO BarCamp é um modelo de evento baseado nos princípios de colaboração e auto-organização. Ao contrário das conferências tradicionais, não há uma pauta pré-definida de apresentações e grupos de trabalho. Os participantes decidem a grade de programação e formam os círculos de debate conforme seus interesses, invertendo o modelo top-down das reuniões de especialistas e adotando um modelo emergente, bottom-up. O trabalho da organização é mais facilitar do que comandar. Por isso, costuma-se dizer que os BarCamps são "desconferências".
O BarCamp POA acontece nos dias 9 e 10 de dezembro. O local será a Federação dos Trabalhadores na Indústria da Alimentação, na Jerônimo Coelho, 303, centro da cidade. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas na página do evento. Aceitam-se doações voluntárias para a compra do material necessário. Outra forma de colaborar é comprar uma camiseta. Quem quiser ajudar na organização, pode se juntar à lista de discussão também. Por favor, colaborem também na divulgação.
Para saber como funciona a tal "desconferência", leia o relato do BarCamp Brasil, que aconteceu em Florianópolis em setembro.
24 de novembro de 2006, 10:20 | Comentários (6)
mondo estudoAmanhã, às 10h30, apresentarei o trabalho "O papel do webjornalismo participativo" no IV encontro da SBPJor. Será lá na Fabico, mesmo. Quem se interessa em saber como o público vai tomar conta do jornalismo e acabar com nossos empregos, apareça.
Tá, tá, a parte de "tomar conta do jornalismo" foi piada.
5 de novembro de 2006, 20:35 | Comentários (3)
pinta lá, magrãoHoje a Adriana Amaral lança o livro Visões Perigosas: uma arque-genealogia do cyberpunk no bar da Carol Teixeira, o Casa de Loulou. Fica na Mariante, 170 e o coquetel começa às 19h30.
6 de outubro de 2006, 11:02 | Comentários (4)
almoço de amanhã: boi raladoLeitores de Florianópolis: amanhã e domingo estarei na ilha, participando do Barcamp. Quem quiser tomar uma cerveja nas horas de folga, envie uma mensagem para o meu endereço de correio eletrônico, aí na coluna ao lado. Ou simplesmente apareça no Café Matisse, lá no CIC.
15 de setembro de 2006, 23:04 | Comentários (4)
se amas teu filho, não lhe poupes a varaThe problem might be, for example, that people have come to believe that the satisfaction of choice, no matter how ill-informed, whimsical or deleterious, however childish or child-like, is the whole meaning of existence, at all the ages of man, from the very moment of birth onwards. Clearly, this has a connection with the notion of consumer choice: it is the wrongful extension of a principle that, in the right context, is obviously an excellent one.
Theodore Dalrymple destrincha as razões mais óbvias para o surto de obesidade infantil em um artigo na New English Review. É assunto marginal no texto, que trata na verdade do preconceito politicamente correto em artigos científicos, mas levanta uma das questões mais irritantes hoje em dia: a incapacidade de assumir responsabilidades. No caso, a responsabilidade de educar os filhos, aspecto que preocupou o Pedro Doria.
Como os adultos esperam educar os filhos se eles mesmos agem como pivetes mimados, sem a menor habilidade em lidar com frustrações? Os marqueteiros tiveram sucesso em convencer as pessoas de que a vida DEVE ser só prazer. Pais criados sob o rigor de outro ambiente cultural não querem que seus filhos passem pelo mesmo "sofrimento" de ter suas vontades negadas. Por causa da crença no prazer constante, não conseguem ver o quanto as frustrações formam o caráter de um ser humano. Como criança que levou umas boas palmadas toda vez que mereceu, diria até que, se tivesse de escolher entre pais superrigorosos e pais idiotas, preferiria os primeiros. Poderia crescer com montes de neuroses, mas é mais fácil se livrar delas do que passar a tolerar a frustração depois de ter se tornado um narcisista. A queda é alta quando se entra em contato com a realidade.
Responsabilidade é tomar atitudes dolorosas no presente, para atingir um bem maior no futuro. Não tenho filhos, mas imagino o quanto é doloroso negar algo a eles. Ter de ouvir deles que você é um fascista, um chato de galochas, que não os ama o suficiente, se não quer dar seja lá o que queiram. Convém não esmorecer nesse momento. Se ser pai é preparar para a vida adulta, mostrar que não se pode ter sempre o que se quer talvez seja a coisa mais importante. Por outro lado, limites costumam incentivar a criatividade. Nenhum pai sensato acha que os filhos se conformam sempre com o "não". É claro que vão tentar driblar de alguma forma aquele limite. Quando conseguem, aí, sim, talvez seja o caso de fechar um olho, deixar estar e admirar em silêncio a inteligência do garoto.
E, em geral, quando a criança sai pela tangente e faz o que não deveria, logo descobre que os pais tinham bons motivos para negar alguma coisa.
17 de julho de 2006, 10:10 | Comentários (32)
plágio em dissertação da ufrgsA UFRGS cassou o diploma de mestre de Gilberto Kmohan por conta de plágio. Ele recorreu. Conforme o leitor Roger, isso significa que a sentença está suspensa até que o caso transite em julgado, sem mais nenhuma possibilidade de recurso. Na dissertação "O conceito de aura em Walter Benjamin", ele fez uma colagem de diversos autores, conforme a perícia. Acabou aprovado com louvor pela banca, mas foi denunciado pelo professor Luís Milman — o que aliás fez com que alguns doutores apelassem para a ignorância mais de uma vez — seu título está em jogo. Espera-se que o processo não leve muito tempo, porque a academia só tem a ganhar punindo este tipo de fraude.
O Cisco acha que não apenas Kmohan, mas toda a banca e a direção da Fabico têm de ser punidos. Não concordo. A direção fez seu trabalho, dando início ao processo administrativo. Houve cinco anos de espera, mas o fato é que se inicou o processo e o diploma já está na berlinda. Ponto final. Já pretender culpar a banca e o orientador é desconhecer o funcionamento de uma pós-graduação. O orientador não tem total controle sobre o aluno e, neste caso, nem mesmo era especialista na área. Kmohan teve atritos com seu orientador original e Capparelli provavelmente aceitou orientá-lo para não prejudicar o PPGCOM.
Uma banca nem sempre é formada por pessoas que conheçam toda a bilbiografia usada. Parece que muitos livros plagiados eram estrangeiros e só quem fosse muito especializado no assunto poderia conhecê-los a ponto de identifcar o plágio. Seria preciso conhecer de cor os trechos plagiados. Não teriam por que duvidar da boa fé de Kmohan. Além disso, o papel de uma banca é mais verificar a coerência argumentativa interna do trabalho, cotejar com outras obras não é o foco.
Quem quiser conhecer o lado do Luis Milman, pode acessar o dossiê. Já as respostas da direção da faculdade e da comissão que avaliou a questão do plágio estão nos links ao final deste texto.
15 de julho de 2006, 10:06 | Comentários (21)
falta de laçoO cientista Bruce Charlton anda propondo a teoria da neotenia psicológica, segundo a qual nossa sociedade desfavorece maturação dos seres humanos. Quer dizer, muita gente adulta segue com a mente em formação — o que é o lado bom —, retendo com isso as atitudes e comportamentos associados com a juventude — o lado ruim.
Os principais fatores para isso seriam a educação continuada, que obriga a mente a se manter flexível, e a instabilidade da sociedade contemporânea. As duas coisas na verdade estão ligadas: porque os empregos não são mais para a vida toda, precisamos nos manter atualizados. Por outro lado, aqueles que estudavam a vida inteira no passado, como cientistas, contavam com um ambiente mais estável à sua volta. Isso de certa forma contrabalançava os efeitos da educação continuada. As pessoas além disso estão vivendo mais e mantém a saúde muito além da juventude — sem falar que precisam arranjar algo para fazer por maior número de anos.
Pequena divagação: qualquer um que tenha acompanhado as ciências sociais, especialmente gente como Baudrillard, Virilio, Lipovetsky etc. pelos últimos anos, vai perceber que já se previa algo assim. Depois dizem que as humanidades não servem para nada...
Voltando à teoria, isso é uma explicação para o fato de muitos gênios da ciência serem considerados loucos ou excêntricos? É, sim, conforme Charlton:
People such as academics, teachers, scientists and many other professionals are often strikingly immature outside of their strictly specialist competence in the sense of being unpredictable, unbalanced in priorities, and tending to overreact.
Além disso, o pesquisador diz que as pessoas imaturas tendem a atingir o sucesso e, parece, procriar mais do que no passado, devido ao ambiente social favorável. Ele teme que a juvenilização seja inscrita no código genético humano por causa disso, tornando-nos irremediavelmente adolescentes pela vida inteira. A maioria dos leitores vai concordar que é uma felicidade não estar vivo para presenciar algo assim.
28 de junho de 2006, 10:45 | Comentários (16)
pinta lá, magrãoSe você não achou ainda sua alma gêmea, ou não tem nem mesmo uma amizade colorida, pode aproveitar hoje a exibição do filme A sociedade do espetáculo, de Guy Debord. O evento "Com Marx para além de Marx" ocorre na Casa de Cultura, às 19h. A entrada é grátis e haverá uma palestra de Jorge Paiva, do Instituto de Filosofia da Práxis de Fortaleza, sobre a "crítica do valor".
É garantido que você passará a achar toda essa coisa de Dia dos Namorados uma mera tentativa de mercantilização do amor, típica de sociedades capitalistas baseadas na cultura da imagem. Ótima opção para gente solteira e com dor de cotovelo.
12 de junho de 2006, 14:35 | Comentários (5)
teóricos miguelãoNo lista de discussão do falecido Cardosonline, começamos certa vez a publicar os "clássicos miguelão": resumos de alguma obra clássica da literatura em no máximo um parágrafo. Hoje pensei em três obras para começar o "teóricos miguelão", aplicando o mesmo princípio às ciências humanas.
"Errar é humano."
"Tudo é aparência."
"Aparência é tudo."
"Rádio, televisão e cinema são coisa de gente pobre e ignorante. E o fim está próximo."
"Perrrdeu, playboy!"
10 de maio de 2006, 19:24 | Comentários (5)
voschê é beu abiigoUma equipe de pesquisadores franceses descobriu no cérebro dos alcoólatras uma molécula que nunca havia sido detectada no homem, mas sim na composição de algumas plantas, informa hoje o diário local Le Parisien.Trata-se de um açúcar complexo [scilo-inositol], cuja taxa é mais elevada em função do grau de dependência do alcoólatra, explica ao jornal o chefe do serviço de biofísica do hospital Timore de Marselha, na região sudeste da França, Patrick Cozzone.
Conclusão: o álcool transforma você num vegetal.
7 de maio de 2006, 12:13 | Comentários (11)
antropólogo documenta metaleirosO antropólogo norte-americano Sam Dunn estréia nas próximas semanas o documentário Metal: a headbanger's journey. Muitas lembranças da adolescência, aqui.
27 de abril de 2006, 13:02 | Comentários (21)
samba do cogitoUma amiga envia a letra de samba abaixo, publicada na comunidade Ê Descartes velho de guerra, do Orkut.
Pensei, pensei, pensei
E entrei pelo cano
Sem encontrar solução
Pro problema do conhecimento humano
E descobri
– e descobri, oooi –
Que a certeza era importante pra caramba
Pra filosofia virar um samba
Fiz um método do discurso
No Discurso do Método
E o que não tinha solução aparente
O problema das outras mentes
– oi outras mentes –
Fez se claro como a água
A água virou vinho
E o espinho virou florPenso
Logo existo
E Deus
Existe comigo
– AI MEU DEUS –
Duvidar é minha prova
Pra escola
Da filosofia
3 de abril de 2006, 12:06 | Comentários (5)
somos todos gérsonPesquisa mostra que 75% dos brasileiros cometeriam atos ilegais. Foi feita pelo Ibope. Conforme os dados, os brasileiros mais honestos são os menos instruídos e mais pobres. A classe média já aceita muito melhor dar uma gorjeta para o guarda esquecer a multa, sonegar impostos ou empregar um parente em cargo público.
Ainda mais interessante, as pessoas mostraram uma tendência a condenar os atos, mas praticá-los mesmo assim. Assim, 78% acham inaceitável fazer trem da alegria com parentes em viagens oficiais. Mas só 57% disseram que não fariam isso. Outra boa:
40% dos entrevistados nunca compraram produtos que copiam os originais de marcas famosas, mesmo sabendo que são falsificações. Mas eles dizem que apenas 11% dos seus conhecidos tiveram o mesmo comportamento. E acreditam que míseros 2% dos brasileiros nunca fizeram algo parecido.
Os dois conjuntos de dados acimam só podem ter um significado: o brasileiro tem tendência a mentir em pesquisas. É óbvio que todo mundo já comprou produtos piratas, ou fez gato na TV a cabo. Só que mentem ao responder aos questionários, talvez por medo de represálias. Ou para não encarar a própria falta de ética.
Por outro lado, indicam também o quanto esse é um país de merda. O sujeito tenta garantir o seu porque nunca sabe como será o futuro. Tem consciência de que determinadas atitudes são erradas, mas no contexto em que vive, sabe que é preciso ser desonesto às vezes. A isso se chama sobrevivência. Por que pagar impostos se vão ser roubados e poderiam financiar uma boa parte da escola das crianças? Ou multas? É chato botar meu irmão como meu assessor, mas por outro lado o mercado de trabalho está difícil... Estou orgulhoso do brasileiro. Essa pesquisa mostra que é completamente realista.
Claro que, enquanto continuar assim, o país também não melhora. Se toleramos a corrupção no cotidiano, é natural que o Congresso ainda esteja em pé depois de tudo o que rolou por lá nos últimos meses. Fosse em um país onde a transgressão não vale a pena no dia a dia, já estaria em chamas. Só toleramos o que se parece conosco. O problema é que uma mudança de atitude viria só a longo prazo e a maioria das pessoas, aliás muito sabiamente, não pretende ser trouxa sozinha até que a massa crítica se forme.
Isso é um trabalho que fica para gente idealista.
29 de março de 2006, 10:07 | Comentários (10)
ê, provincianismoEle foi o primeiro empresário de comunicação do país a fazer a regionalização. Além disso, se preocupava com a comunidade. Sabia que a educação era a única forma de ajudar as crianças carentes — Cristina Ranzolin.
Faz falta aquela presença amiga, boa-praça, que trazia alegria para onde quer que fosse — Paulo Sant'anna.
Está de fato comovente a rasgação de seda pelos 20 anos da morte do "jornalista" Maurício Sirotsky Sobrinho, fundador da RBS. Nada menos que metade do Jornal do Almoço foi gasto nisso. Dá vergonha pelos jornalistas que trabalham lá.
24 de março de 2006, 12:40 | Comentários (14)
socializaçãoDuas formaturas neste final de ano deram chance de pensar na interessante relação que algumas pessoas estabelecem com essas obrigações sociais. A maioria fica fascinada e leva muito a sério este tipo de evento. Comemorá-los e cuidar que tudo corra perfeitamente é necessário. Qualquer contratempo ou imprevisto tem chance de se tornar uma tragédia. Aí, quando algum sujeito começa a pensar um pouquinho, logo enxerga a falta de sentido disso tudo. O problema é que aí fica revoltado com a "falsidade" das relações sociais. Alguns deixam de comparecer a formaturas, casamentos e quetais. Outros dão um jeito de avacalhar a festa, ou fazer protestos mais pacíficos, como usar uma camiseta do Iron Maiden por baixo da camisa social. Se conseguir pensar um pouco além, no entanto, acontece um fenômeno engraçado: o cara percebe que se revoltar contra a mise en scène tampouco faz sentido. Volta a se fascinar e até a se emocionar ao desempenhar suas obrigações. Passa a enxergar a beleza das coisas que o homem cria para se manter em sociedade, ou simplesmente se divertir, ter o que fazer. No fundo, começa até a invejar o primeiro grupo, que consegue se entregar totalmente nestas ocasiões.
23 de dezembro de 2005, 19:10 | Comentários (11)
ainda outra impostura científicaChega a dar vontade de montar um blog só para reclamar de como a imprensa trata artigos científicos, ou dos próprios artigos, quando se lê este tipo de coisa:
Depois desse processo, foram mostradas imagens neutras [uma letra, um homem montado numa bicicleta], e, em seguida, outras de violência [um homem apontando um revólver para a cabeça de outro], e uma imagem negativa, mas não violenta [um cachorro morto].
Os pesquisadores concluíram que a resposta dos jovens que utilizavam com freqüência videogames violentos às imagens agressivas foi menor do que a dos demais.
Os resultados desse estudo sugerem que os jogadores freqüentes de videogames violentos sofrem danos a longo prazo em suas funções cerebrais e em seu comportamento, na opinião dos especialistas.
Perdão, mas não. Os resultados sugerem é que jogos violentos diminuem a resposta a IMAGENS de violência, não à violência em si. Além disso, homens apontando revólveres para a cabeça dos outros se vê na televisão todos os dias. Interessante seria ver a reação a fotos de pessoas estripadas, varadas de balas ou coisa do gênero.
11 de dezembro de 2005, 23:19 | Comentários (4)
alguém dê um fim nissoEstudo vincula testículos grandes a cérebro pequeno. Não vá medir os seus, seu afobado: eles compararam espécies diferentes. Entre membros da mesma espécie não há relação entre uma coisa e outra. Mais um caso de jornalistas fazendo sensacionalismo com estudos científicos, ainda por cima com um artigo muito mal escrito. É preciso tomar alguma atitude.
6 de dezembro de 2005, 22:49 | Comentários (0)
besteirol pseudo-científicoDeveria ser proibido publicar o resultado de pesquisas mal-feitas como esta. Pega-se um bando de gente, mede-se uma variável — no caso, consumo de álcool — e conclui-se com base nesta única variável que ela influi no comportamento do objeto — aqui, obesidade. Dizer que consumo moderado de álcool diminui o risco de obesidade é ridículo sem estudar zilhões de outras influências, sobretudo as da personalidade. Pessoas que bebem com moderação provavelmente tendem a ser moderadas em todos os outros aspectos da vida, inclusive no consumo de comida. Já os bebuns contumazes possivelmente comem demais também. Quanto aos abstêmios, talvez sofram de retenção anal extrema que os leve a compensar as frustrações com chocolate. Vai saber... Em todo caso, o importante é que não é o álcool que influi na obesidade, mas sim a personalidade que influi no consumo de álcool. As pesquisas médicas em geral tomam o efeito pela causa e acabam desinformando o público.
5 de dezembro de 2005, 10:43 | Comentários (8)
esqueci de avisarEstou em Florianópolis para o congresso da Sociedade Brasileira de Pesquisa em Jornalismo, na UFSC. Leitores que queiram tomar uma cerveja, enviem um email e lhes passo o telefone. Quem quiser assistir à minha apresentação, será na terça-feira, às 14h, na sala Aroeira.
27 de novembro de 2005, 16:47 | Comentários (4)
doutorar é preciso?Deve existir alguma pesquisa assim por aí, mas seria interessante saber se o nível de satisfação com a vida das pessoas pós-graduadas é maior, igual ou menor do que a felicidade do resto do povo. Inteligência e cultura favorecem uma boa vida?
Às vezes, parece que não. Que diabo melhora a vida de alguém saber que a indústria cultural nos impõe um consumismo exacerbado, que as escolas, pretensamente emancipadoras do homem, reproduzem as relações de poder do resto da sociedade, que nem mesmo em nossa mente podemos confiar e que, de uma maneira geral, é tudo uma droga?
Possivelmente, fabricar sapatos e consertar aparelhos de ar-condicionado seja muito mais recompensador. Dêem sua opinião aí nos comentários.
20 de novembro de 2005, 23:27 | Comentários (46)
ledo enganoUm bom artigo sobre o papel da mentira na sobrevivência e manutenção da sanidade humana:
Mentir para nós mesmos pode ser uma maneira de manter a saúde mental. Diversos estudos clássicos a respeito do assunto indicam que pessoas com depressão moderada na realidade enganam menos a si mesmas que aquelas ditas normais. Lauren B. Alloy, da Universidade de Temple, e Lyn Y. Abramson, da Universidade de Wisconsin-Madison, desvendaram essa tendência, manipulando clandestinamente o resultado de uma série de jogos. Indivíduos saudáveis que participaram dos jogos inclinavam-se a levar o crédito quando ganhavam e subestimavam sua contribuição para o resultado quando não se saíam bem. Os deprimidos, entretanto, avaliavam sua contribuição com muito mais precisão. Em outro estudo, o psicólogo Peter M. Lewisohn, professor emérito da Universidade de Oregon, mostrou que os depressivos julgam as atitudes das outras pessoas em relação a eles com maior exatidão que os não-depressivos. Além disso, essa habilidade na realidade degenera à medida que os sintomas psicológicos da depressão melhoram em resposta ao tratamento.Talvez a saúde mental repouse no auto-engano, e ficar deprimido resulte de uma falha na habilidade de enganar a si mesmo. Afinal de contas, todos vamos morrer, todos os nossos entes queridos vão morrer, e grande parte do mundo vive em abjeta miséria. Portanto, quase não há razões para ser feliz diante desse cenário!
O artigo traz uma informação interessante: o cérebro só registra alguma atividade milésimos de segundo antes de tomarmos qualquer decisão. Isso pode provar duas coisas:
— Que o inconsciente é responsável por todas as nossas decisões, então todos os métodos de seleção de recursos humanos e discursos gerenciais estão equivocados — o que, pensando bem, não surpreenderia;
— Ou que o cérebro, embora seja o meio pelo qual os pensamentos são transmitidos ao organismo, não tem nada a ver com nossa consciência. Isso mais ou menos redundaria na existência de separação entre corpo e mente.