Comentários sarcásticos, crítica vitriólica e jornalismo a golpes de martelo por Marcelo Träsel


jornalista irado

À moda do Angryjournalist.com, publico o desabafo de um amigo sobre a vida na imprensa:

Fora a espécie em extinção dos repórteres-especiais, caras que podem ficar um mês fazendo uma matéria sem se meter muito com o dia-a-dia, todos os outros que demonstram alguma competência são imediatamente promovidos a cargo de chefia e são afastados da produção de conteúdo. Sistematicamente, as pessoas que produzem bom conteúdo deixam de fazê-lo; sobem hierarquicamente, em cargo mais bem pagos e supostamente de mais responsabilidade. O pior é que seus colegas passam a ser pessoas que nunca produziram nada que preste, que estão naquela pelo jogo corporativo mesmo, se dariam tão bem numa empresa de comunicação ou numa fábrica de salame.

Por que a Eliane Brum ganhou o prêmio Jabuti com um livro compilando matérias da Zero Hora, apesar de estar há quase 10 anos na Época? Porque na Época ela tem que ficar fiscalizando besteiras como o Projeto Generosidade, uma idiotice vendida para meia dúzia de anunciantes que obriga todas as revistas da casa a fazer matérias sobre ONGs durante seis meses e premia com R$ 100.000 o melhor projeto assistencial. Por que o Laurentino Gomes aproveitou o sucesso do 1808 pra cair fora da Abril? Porque lá ele tinha que ficar imaginando projetos caça-níquel para iludir patrocinadores e criar maracutaias de empurrar assinaturas goela abaixo das donas de casa.

Ou o Fabio Massari, o cara que mais entendia de música na geração dele, pedindo demissão para não ter que apresentar game show patrocinado por celular. Aí tu pega uns caras tipo Guilherme Kalil, que nunca parou em redação nenhuma e teve 'Meu Nome Não é Johnny' adaptado pro cinema. O Xico Sá, que desde que 'ó meu deus, foi demitido da Folha' só aumentou o passe e a popularidade dele. Agora não ocorrem tantos nomes, mas fora o Caco Barcellos, os autores dos melhores livros-reportagem dos últimos 15 anos não estavam empregados. São 'writers' no sentido americano da palavra, status almejado por XXXXXX XXXXX e tantos outros. Some-se a isso o fato de que os colunistas, muitas vezes pára-quedistas (sem demérito, sou contra obrigatoriedade do diploma), tipo Contardo Calligaris e Diogo Mainardi, que fazem seus veículos venderem.

E aí tu chega à conclusão de que quem quiser escrever uma grande reportagem, fazer um documentário bala, tem que sair da redação. Deixa a redação pra quem quer aumentar tiragem, audiência, produtividade, eficiência, borderô, quer bolar novas estratégias para marca, criar novos produtos editoriais. A lógica, me parece, é que as empresas se especializem na embalagem, e os frilas no conteúdo. Mas cadê bolas pra testar a teoria?

Retirei um nome próprio que poderia permitir identificar o autor da mensagem, enviada a uma lista de discussão.

3 de maio de 2008, 16:45 | Comentários (16)

chegou aquela época...

...em que toda semana os jornais mancheteiam o "dia mais frio do ano". Com meus poderes sobrenaturais, prevejo que essa tendência se estenderá até no máximo o mês de agosto.

30 de abril de 2008, 9:28 | Comentários (6)

o padre maluco e o utilitarismo

Finalmente alguém publicou uma notícia a respeito dos custos envolvidos na busca ao padre que desapareceu durante um vôo de balões no litoral catarinense. Até ontem, R$ 564 mil já haviam sido gastos pelas equipes de resgate mobilizadas, a maior parte na operação de navios da marinha.

A informação satisfaz as muitas pessoas que andam indignadas com o fato de o Estado usar recursos do contribuinte para tentar encontrar um doido varrido que resolveu imitar uma menção honrosa do Prêmio Darwin, na preparação para tanto foi expulso do curso de vôo livre e, como mostram as ligações do próprio padre durante o vôo, não se deu nem ao trabalho de aprender a usar o GPS, um equipamento essencial de segurança, antes de partir -- e partir num dia de tempo ruim. Aparentemente, Deus não gosta de gente idiota tanto quanto o processo evolutivo.

Apesar de o clérigo ter praticamente cometido suicídio com essa aventura, o Estado não tinha alternativa senão tentar encontrá-lo. Negar-se a investir recursos em buscas com o argumento da imbecilidade do desaparecido seria negar-se a cumprir o papel de protetor da população, principal motivo para a existência de um Estado em primeiro lugar. Em segundo lugar, seria dar licença ao povo para agir conforme uma visão utilitarista da vida humana. É um perigo.

Se um padre alienado não vale R$ 564 mil, na opinião do Estado, quanto valeria uma criança com síndrome de down? E um criminoso? Em alguns momentos históricos a vida humana foi avaliada conforme sua utilidade social. Os escravos romanos eram obrigados a minerar em condições desumanas, porque assim que morriam podiam ser substituídos por novos prisioneiros de guerra. Embora muito úteis fossem os escravos, ao menos no caso do Brasil a oferta era grande o suficiente para fazer com que não valesse muito a pena manter vivo um criador de casos. Durante a revolução industrial, condenados eram enviados aos trabalhos forçados, onde supostamente compensariam o custo de sua manutenção. A visão utilitarista da vida humana foi levada ao paroxismo na Segunda Guerra, quando os nazistas montaram fábricas de processamento de judeus, ciganos, comunistas, homossexuais e outros degenerados, dos quais eram retirados todos os recursos (roupas, jóias, óculos, cabelos -- que serviam para fazer tecidos --, a força de trabalho) e os resíduos (isto é, as pessoas) eram incinerados.

Abrir uma brecha ao utilitarismo dizendo que o padre não deve ser resgatado porque realizou uma aventura temerária é dar mais um passo a um futuro que foi bem imaginado por George Lucas em seu primeiro filme, THX 1138. Mostra uma sociedade distópica, em que a emoção foi banida e o valor maior se tornou a eficiência. O herói do filme acaba se apaixonando por uma moça, ambos são presos, ele resolve fugir. As máquinas que organizam a sociedade iniciam uma perseguição, mas quando estão quase o alcançando, desistem. Motivo: os recursos usados para a caçada ultrapassaram o valor de THX 1138 para o Estado.

26 de abril de 2008, 11:38 | Comentários (21)

algum jornal dê uma coluna a essa moça

Não conhecia o blog Paris, Pinheiros, da Sílvia Deveraux. Tornou-se imediatamente meu blog favorito.

25 de abril de 2008, 14:42 | Comentários (4)

aqui também se elogia

Meus cumprimentos à Zerohora.com por usar links externos nessa matéria a respeito da cobertura da revista The Economist sobre o Brasil.

A maior falha do webjornalismo, especialmente o brasileiro, é não direcionar o leitor para sites e páginas que não sejam de sua empresa proprietária -- exceção para sites do governo, e nem sempre. Alguns portais chegam ao cúmulo de escrever o link na matéria, mas não deixá-lo ativo, obrigando o leitor a copiá-lo e colar na barra de endereços do navegador. É a total capitulação do dever jornalístico de informar às estratégias comerciais mais ignorantes.

Fingir que a concorrência não existe não vai fazê-la desaparecer. Pior, não fornecer links denota total desconhecimento sobre como funciona a Web. As vinculações eletrônicas são a base da arquitetura hipertextual que tornou a Internet útil para toda humanidade, não apenas meia dúzia de geeks.

Se o leitor realmente estiver interessado num assunto, ele vai ao Google e encontra a página cujo link um webjornal está deixando de fornecer. Mas ele ficará mais feliz se o webjornal facilitar sua vida oferecendo um link ativo.

18 de abril de 2008, 16:40 | Comentários (5)

mais algumas respostas para o FAQ

Acabei de responder a algumas perguntas sobre jornalismo participativo para uma estudante de São Paulo que está fazendo um trabalho de conclusão focado nesse tema. Aí lembrei da Lei de Lavoisier e que este blog não é atualizado há tempos. Resolvi repubicar aqui, até para ajudar outros estudantes que vivem me enviando perguntas.

1- O que é jornalismo colaborativo para você?

O webjornalismo participativo acontece quando um site ou uma seção de um site jornalístico permite interferênias tão profundas no conteúdo (e por vezes na forma) que a divisão entre escrita e leitura começa a ficar indistingüível.

Em outras palavras, há webjornalismo participativo se as colaborações do público forem essenciais para a manutenção de um site ou parte dele. O VC Repórter não aconteceria se as pessoas não enviassem textos, fotos e vídeos para lá, assim como o Ohmynews estaria vazio se não fossem os repórteres-cidadãos espalhados pelo mundo.

2- Qual é o papel do jornalista dentro do jornalismo colaborativo?

Orientação, edição e, claro, participação. Nos dois exemplos citados acima há jornalistas selecionando as melhores matérias e checando fatos.

Porém, existem projetos de jornalismo participativo em que os colaboradores mesmos regulam o processo de coleta, edição e publicação de notícias, como no Kuro5hin ou no Wikinotícias. Nada impede que jornalistas colaborem com esse tipo de site, porém. De fato, alguns repórteres escrevem para webjornais participativos ou criam blogs com o objetivo de abordar assuntos em que não podem tocar em sua vida profissional.

3- Você acredita que existe jornalismo colaborativo no Brasil? Qual é a maior diferença entre os sites colaborativos daqui e sites de outros países?

Existe e não vejo diferença alguma, exceto pela língua, o que nos limita em termos de audiência. Outra coisa que nos limita é o analfabetismo funcional da população, que impede um ganho de escala nas colaborações. Por causa disso, há pouca atualização nos webjornais totalmente participativos.

4- Quais são as diferenças entre o jornalismo colaborativo e o jornalismo tradicional?

Em primeiro lugar, é preciso ter sempre em mente que o jornalismo participativo é complementar ao jornalismo tradicional. Há indícios de que a maioria dos valores-notícia do jornalismo tradicional valem para o jornalismo participativo, mesmo quando não há supervisão de um profissional qualificado. Assim, eu diria que o jornalismo participativo é uma subcategoria do jornalismo, não uma atividade
completamente separada.

O que é característico do jornalismo participativo é a interferência direta do público, que não precisa mais esperar pelos repórteres profissionais para divulgar uma informação. Isso, é claro, traz implicações boas e ruins. Por um lado, há mais pluralidade de pontos de vista e maior variedade de acontecimentos divulgados. Por outro, nem sempre as informações são checadas adequadamente antes de serem
publicadas.

5- Acredita que conteúdos colaborativos podem substituir o jornalismo tradicional?

Não. O jornalismo participativo é uma forma que as empresas de mídia e a sociedade encontraram de enfrentar o problema da falta de recursos nas redações, que impede a cobertura de todos os assuntos de interesse do público. É, portanto, complementar.

Além disso, há a questão da credibilidade. O público pode ser bom para noticiar um buraco na rua onde moro ou uma foto de um acidente, mas eu não basearia o investimento da minha poupança em uma dica de algum blogueiro anônimo, por exemplo. Nesse caso, procuraria ler o Valor Econômico ou Wall Street Journal. É tudo uma questão de bom senso.

6- Você acredita que o blogueiro pode vir a ocupar o lugar do jornalista?

Não, pelos mesmos motivos acima e por um motivo mais forte: blogueiros em geral não têm recursos para a apuração de pautas. Mesmo um telefonema interurbano é um custo alto quando não se ganha nada em troca do trabalho. Imagine pagar os custos de um inevitável processo judicial no caso de você descobrir e publicar alguma denúncia de
corrupção no governo, por exemplo.

Os blogueiros podem vir a substituir os jornalistas em alguns assuntos de nicho, e nesse caso talvez com muito mais qualidade. Os jornais têm espaço limitado ou, no caso da Web, limitações de força de trabalho. O jornalismo tradicional não tem condições técnicas ou econômicas de tratar com profundidade todos os assuntos. Aí entram os blogs, para dar profundidade.

7- Hoje, qual é a importância dos blogs?

Os blogs são importantes em vários níveis, dependendo dos objetivos de quem os lê ou escreve. No caso da mídia, diria que são importantes para preencher as lacunas deixadas abertas pela escassez de recursos do jornalismo, e como fiscalizadores do "quarto poder", apontando erros e denunciando falcatruas de jornalistas, publicitários e
relações públicas.

8-O que é necessário para cativar e manter o público?

Ser honesto. :-)

9-Quais são as falhas que a mídia tradicional comete nos projetos de jornalismo colaborativo?

A principal falha é pretender abrir um espaço de participação sem abdicar do controle sobre o processo de comunicação, ao menos em parte. Empresas que não têm uma cultura de participação por vezes criam um canal participativo com o único objetivo de "não ficar para trás" da concorrência. Isso acaba quase sempre sendo um tiro no pé, porque criam sistemas engessados, que terminam por morrer melancolicamente de falta de participação.

10-Por não existir legislação na internet, como fica a questão da ética?

Bem, a ética não é nem nunca foi uma questão de legislação, mas sim de caráter. Assim como há blogueiros e repórteres amadores antiéticos, há jornalistas antiéticos. Casos não faltam para provar que nossos colegas estão no mesmo nível do resto da humanidade em termos de caráter.

Por outro lado, toda a legislação já existente para coibir casos de calúnia, difamação, má-fé e outros crimes de imprensa vale para a Web e para o jornalismo participativo. Qualquer pessoa que se sinta lesada por um veículo de jornalismo participativo pode requerer seus direitos na Justiça.

11-Como você vê o jornalismo colaborativo daqui a cinco anos?

Um avanço interessante poderia ser a abertura de espaços colaborativos em infográficos e animações, coisa que ainda não vi em nenhum webjornal.

1 de abril de 2008, 16:36 | Comentários (5)

para os revolucionários de pijama

A chapa está quente no Tibete.

Não custa nada assinar essa petição ao presidente chinês Hu Jintao, para que cesse com a repressão e inicie um diálogo. Se não sabe inglês, os campos são, na ordem: nome, e-mail, telefone, país e CEP. Depois, é só clicar em "send".

18 de março de 2008, 21:05 | Comentários (10)

jornalistas x blogueiros, episódio 347
[...] o erro está sempre de tocaia e ataca quando a gente está relaxado, quando a gente acha que aquilo que está fazendo é fácil e simples. Por isso, como ouvinte, telespectador e leitor, como consumidor de informação, desprezo o excesso de interatividade. Quando ligo o rádio e ouço "esse programa é feito pelo ouvinte", mudo de estação. Não quero ouvir algo que é feito pelo ouvinte, nem ler o que o leitor escreve. Quero o trabalho do especialista, do jornalista de comprovadas experiência e competência. Quero consumir a elite, não a mediocridade. Até democracia demais cansa.

David Coimbra não gosta da invasão de leigos no jornalismo. Prevejo que muitos blogueiros vão denunciar o colunista de Zero Hora como tacanho, conservador e corporativista, mas estarão errados. Em primeiro lugar, Coimbra tem razão. O público raramente tem o conhecimento e, principalmente, os recursos à disposição dos repórteres profissionais para coletar e publicar informação. Em segundo lugar, as pessoas simplesmente têm o direito de não confiar no público que faz o webjornalismo participativo, ou de não gostar do resultado em termos estéticos e técnicos.

Existe muita porcaria sendo publicada Web afora em espaços destinados à participação da "ex-audiência". É muito raro encontrar um blog realmente bom. Mais raro ainda encontrar verdadeiros esforços de reportagem em sites como Wikinews ou Kuro5hin. Já o Digg se resume, no mais das vezes, a um repositório de todo tipo de lista ou tutorial. Nós que fazemos o webjornalismo participativo acontecer precisamos admitir que estamos deixando a desejar em muitos aspectos.

Isso dito, não dá para entender como Coimbra critica a participação do público quando em seu próprio jornal existe um dos melhores exemplos de webjornalismo participativo: a seção leitor-repórter. Trata-se de uma combinação excelente entre os "milhares de globos oculares" da audiência e a técnica jornalística. Os repórteres da RBS não podem estar em todos os lugares ao mesmo tempo, ainda mais com as reduções de força de trabalho pelas quais as redações passaram nas últimas décadas. O público, então, se encarrega de publicar pequenas notas a respeito de problemas para os quais David Coimbra e seus colegas jamais teriam tempo ou vontade de dar atenção. A equipe da Zerohora.com, por sua vez, usa seu conhecimento e acesso a fontes para dar voz a quem tenha sido implicado em alguma informação enviada pelo público. A audiência começa a fazer o serviço do pauteiro, doando seu próprio tempo à RBS, mas ganha em compensação uma cobertura melhor dos problemas que realmente lhe interessam.

Não é demais lembrar também que em geral os programas "feitos por ouvintes" nas grandes empresas de mídia são editados por jornalistas qualificados. Logo, se o resultado é ruim, a elite também precisa ser responsabilizada. É assim que funciona na RBS, empresa onde Coimbra trabalha. Inclusive, o próprio jornalista citado como exemplo de competência, Túlio Millman, usa fotos de telespectadores na vinheta do Teledomingo, e há também um quadro chamado "Meu mundo em um minuto", para o qual as pessoas são convidadas a enviar histórias. Millman está listado apenas como âncora do programa, mas sua participação implica em uma aceitação de que a audiência vai participar.

Coimbra não chega a afirmar isso, mas em geral quem critica a participação do público tende a achar que a mídia é um jogo de soma zero. Isto é, que é uma questão de eles ou nós, um ou outro, jornalistas profissionais ou "ex-audiência". A questão é que, com a televisão a cabo e a Web, a esfera midiática deixou de ser um latifúndio com escassez de espaço, onde realmente um tirava o lugar do outro, e passou a ser um espaço praticamente infinito. Ou seja, não é mais necessário barrar o material medíocre, pode-se publicá-lo e deixar à disposição de alguém que se interesse. E sempre há quem se interesse por qualquer coisa.

Ao ler o texto de Coimbra, fica-se com a suspeita de que ele não conhece direito o assunto do qual está pretendendo falar. Se tivesse se dado o trabalho de investigar a Web -- ou mesmo o próprio site do jornal em que trabalha --, poderia perceber que existe muita "elite" escrevendo em blogs, fóruns, webjornais participativos e quejandos. Um dos primeiros blogueiros do mundo é para além de 1337: Dave Winer, desenvolvedor de grande parte dos programas que usamos hoje para criar mídia na Web. Há alguém mais elite no Brasil do que o blogueiro Alexandre Soares Silva? Escreve melhor do que um batalhão de colunistas. Algum jornalista explicou de maneira mais simples a Web 2.0 do que o antropólogo responsável por esse vídeo? Os próprios veículos de webjornalismo participativo que critiquei acima volta e meia publicam matérias muito boas. Isso para não citar todos os fóruns em que especialistas regularmente dão informações técnicas de alta qualidade sobre suas áreas de atuação, de graça, para quem quiser saber.

O público participante erra, e muito. Porém, jornalistas profissionais também erram. E muito -- que o diga o Luís Nassif, inquestionável membro da elite, que matou Hélio Gama em seu blog semana passada. E vários deles têm um texto nada menos do que tenebroso. É difícil encontrar um cientista ou técnico em qualquer assunto que tenha sido entrevistado e considerado boa a matéria resultante. Sempre apontam erros crassos de compreensão por parte dos repórteres -- se não acredita, basta ver a seção media do blog Bad Science.

Antes da Web e da mídia social, webjornalismo participativo ou como queiram chamar, os verdadeiros detentores do conhecimento dependiam da boa vontade dos jornalistas para se comunicar com o público. Hoje, tudo o que os separa do público é um pouco de boa vontade desse público em garimpar a Web. Tarefa que nem sempre a elite da qual Coimbra faz parte desempenha corretamente, apesar de receber salário para isso.

17 de março de 2008, 11:57 | Comentários (15)

post pago é tiro pela culatra

Por favor, prezados marqueteiros, convençam-se de uma coisa: pagar blogueiros para publicar textos favoráveis a seus clientes, além de moralmente questionável, é desnecessário e quase sempre acaba em humilhação. Mesmo quando não acaba em desmoralização do blogueiro e conseqüentemente da empresa, fica chato, porque as pessoas não são tão idiotas assim e, em geral, percebem um ruído no fluxo normal do discurso do blog contratado.

Pior do que pagar por um post, só não pagar: a agência paulista Riot convidou o pessoal do Futepoca a escrever um texto elogiando Ronaldo, o fenômeno, que anda em baixa até com o Galvão Bueno. Ofereceram em troca uma promessa de, quem sabe, no futuro, rolar um post pago de verdade. Isso, claro, se tudo corresse bem com a laudatória ao jogador patrocinado pela Nike. O resultado foi um texto denunciando a prática da Riot e o previsível sacrifício de um bode expiatório para aplacar a fúria do cliente.

O mais engraçado é que as agências pagam (ou não) os blogueiros, mas fazem uma autossabotagem ao pedir que o texto esteja dentro de um certo roteiro. Há algum tempo um blogueiro de alto nível confessou ter sido convidado a fazer um post pago, mas acabou não aceitando, porque a agência exigiu uma publicação ipsis litteris do texto que um redator havia criado. Ele tinha certeza que seus leitores perceberiam. A agência bateu pé e ele recusou.

Trata-se de uma suprema ignorância sobre o mundo dos blogs, exigir que se publique um modelo de texto. Uma das características mais interessantes desse tipo de veículo é justamente a subjetividade, a originalidade na expressão de cada autor. De fato, empresas como a Microsoft e o Google adotaram o formato blog para se comunicar com o público como forma de "humanizar" a marca. A idéia da Riot seria muito mais interessante se tivessem apenas dito ao pessoal do Futepoca para criar uma campanha de apoio ao Ronaldo eles mesmos. Fizessem isso com um número suficiente de blogs, certamente alguma idéia genial iria emergir.

Outro tabu entre as agências e clientes que ainda não se ambientaram à blogosfera é a identificação de posts pagos, ou seja, a admissão do contrato por parte do blogueiro. A verdade é que o público não dá muita bola para esse tipo de aviso, mas fica realmente chateado quando é engambelado. Logo, melhor ser transparente desde o início. Na verdade, algumas sugestões mais eficientes e moralmente aceitáveis do que os posts pagos identificados seriam:

  • Cobertura de eventos, com os blogueiros atuando como repórteres. A marca aparece igual, o blogueiro não precisa esconder nada dos leitores, e podem até trabalhar em troca do simples acesso ao evento, como aconteceu com alguns blogueiros na Campus Party.

  • Patrocínio de blogs a longo prazo. Pode ser um banner ou até um selinho discreto que mostre aos leitores do apoio da empresa àquele veículo de mídia independente. Por exemplo, ficaria muito feliz se, digamos, a Tramontina me oferecesse um valor mensal para ter o logotipo em algum lugar do Garfada.

  • Apoio em forma de produtos é outra ação de relações públicas com blogs que tende a dar certo. Ainda usando o exemplo do Garfada, seria muito bom receber produtos da Tramontina ou da La Gourmandise para resenhar.

    O grande desafio nessas três possibilidades é a agência e o cliente cederem o controle das campanhas aos blogueiros. Por exemplo, após enviar um produto, é preciso resistir à tentação de cobrar os autores por eventuais críticas recebidas. Gosto de elogiar sempre a postura do Dado Bier quando critiquei as cervejas novas que gentilmente haviam me enviado. O cervejeiro fez questão de telefonar, dizer que eu tinha razão e me convidar para visitá-lo -- o que rendeu um novo post. O principal ao planejar campanhas de marketing em blogs é ter em mente sempre que ninguém, por mais premiado em Cannes que seja, conhece melhor a linguagem de uma audiência do que o blogueiro a quem ela pertence. Deixem algumas decisões com ele e confiem.

    O Dahmer, comentando o caso Futepoca, aconselha: "Façam como eu. A partir de hoje, leiam as notícias dos blogs com a mesma desconfiança com que assistem aos noticiários de TV." Sugestão saudável, mas não acho que exista tanto motivo para pessimismo. Afinal, o Futepoca não apenas rejeitou a promessa de jabá, como ainda denunciou. Com isso, ganha credibilidade entre seus leitores. E assim o princípio da autorregulação vai separando o joio do trigo na Web.

    14 de março de 2008, 15:29 | Comentários (13)

    biblioteca brasileira sobre blogs

    As pesquisadoras Raquel Recuero, Adriana Amaral e Sandra Montardo montaram uma lista de artigos sobre blogs escritos por autores brasileiros desde o ano 2000. Farto material para monografias, dissertações e teses.

    Se alguém aí tiver publicado um artigo que não está na lista, as pesquisadoras pedem que se manifeste. A lista é parte de um panorama da pesquisa em blogs no Brasil, que vai figurar num livro a respeito do tema. Também vai figurar no livro um artigo escrito por mim, sobre as definições de weblog. Uma versão mais estruturada do texto "blogs já eram", como havia prometido um tempo atrás.

    4 de março de 2008, 11:09 | Comentários (10)



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